Monday, 24 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Iraque, novo Vietnã?

SALA DE AULA

Allan Novaes (*)


"As ordens que recebi foram para matar tudo o que se mexesse. Se estivesse, respirando, urinando ou defecando, era para matar." [Robert van Buskirk, tenente e chefe de operação clandestina para exterminar desertores americanos durante a Guerra do Vietnã.]


A declaração acima, obtida em reportagem conjunta entre a revista Time e a rede de televisão CNN, retratada em matéria da revista Veja (17/6/98), é uma das numerosas manifestações da imprensa internacional, em especial a americana, com o intuito de revelar os bastidores da Guerra do Vietnã. Após o término do conflito, em 1975, apuraram-se fatos e mais fatos sobre as feridas purulentas da guerra ? que o governo Reagan (com a conivência da imprensa) tanto tentou esconder ?, e uma leva de matérias denunciou as atrocidades da invasão americana e da hipocrisia da cobertura jornalística.

Certamente, reportagens de cunho investigativo sobre a Guerra do Vietnã continuarão a surgir de tempos em tempos, como gritos espasmódicos da opinião pública contra a barbárie do conflito. Essas matérias funcionam como uma tentativa de pedido de desculpas pela empreitada militar mais vergonhosa da história dos Estados Unidos e de sua correspondente e parcial cobertura jornalística. É como uma válvula de escape da sociedade americana: ela parece sentir-se menos culpada ao denunciar seus horrores.

Essas reportagens, entre 1969 e 1975, apóiam-se sobre dois momentos. O primeiro deles, do qual os jornalistas dos Estados Unidos se envergonham, refere-se à adesão da imprensa ao que o cientista político Daniel Hallin, em seus estudos sobre a cobertura da Guerra do Vietnã, chama de esfera do consenso.

Nesse nível, jornalistas e sociedade concordam. Fazem parte dessa esfera os temas não passíveis de discussão, cuja obviedade elimina qualquer possibilidade de controvérsia. Hallin diz que na esfera do consenso os jornalistas vêem-se desobrigados a cumprir procedimentos básicos da ética jornalística, como ouvir os dois lados da história. Essa conduta jornalística está presente em assuntos que envolvem o interesse nacional ? circunstância mais visível em época de guerra.

O segundo momento, do qual os jornalistas dos Estados Unidos se orgulham, está ligado à pressão que a imprensa, juntamente com a opinião pública, exerceu sobre o governo Reagan para acabar com a invasão do Vietnã ? o que conseguiram no início dos anos 70. Contudo, o que parecia um despertar tardio da imprensa foi, aos olhos de Hallin, apenas fachada. Para ele, a imprensa não deixou de ser parcial quando declarou oposição à Guerra do Vietnã. Na verdade, Hallin acredita que a crença na oposição da imprensa à guerra é equivocada.

Onda de pacifismo

Além da esfera do consenso, a controvérsia legítima é outro parâmetro da ética jornalística. Nela, a neutralidade e o equilíbrio são virtudes indispensáveis; é preciso ouvir não só os dois lados da história, mas todos os envolvidos ? o exemplo mais notável é a cobertura das eleições de 2002.

Para Hallin, no primeiro momento do conflito a imprensa apoiou a empreitada de Reagan (em clara adesão ao princípio da esfera do consenso), enquanto o movimento contra a guerra e os interesses dos norte-vietnamitas foram deixados de lado. No segundo momento, quando a imprensa vestiu a camisa do movimento antibelicista, a política governamental encontrou um adversário no campo das idéias.

Dessa forma, contrastando a visão do governo e da opinião pública, os jornalistas estariam cumprindo fielmente o princípio de imparcialidade da controvérsia legítima, certo? Errado. Embora a imprensa dos EUA tenha aceitado ampliar sua visão sobre a guerra no segundo momento, não deixou de negligenciar a cobertura e a análise dos comunistas e dos próprios vietnamitas. O frenesi da Guerra Fria impossibilitou uma cobertura neutra.

A história poderá se repetir? Considerando a atual invasão do Iraque como a prática de uma política de "ataques preventivos", motivada pelos atos terroristas do 11 de setembro, é possível que se venha a constatar que a imprensa americana ? e toda aquela que dela beber ? terá muito do que se envergonhar novamente.

Assim como no primeiro momento da Guerra do Vietnã, a imprensa uniu-se ao governo dos Estados Unidos por ocasião da queda das torres gêmeas. Esse foi o primeiro momento. O segundo começou na semana passada: a invasão do Iraque. E, para que a hipócrita cobertura jornalística do segundo momento da Guerra do Vietnã não se repita, os americanos precisam de muita cautela no levantamento de pautas, na apuração de dados, na redação de matérias.

Embora a onda de pacifismo que acometeu a imprensa possa transmitir uma imagem de equilíbrio e nobreza ? a exemplo do que ocorreu quando a imprensa se uniu à opinião pública no segundo momento da guerra do Vietnã ? é importante lembrar: as aparências enganam.

Quebra de preceito

No contexto atual, a parcialidade e o equilíbrio podem se perder em dois extremos: ao se levantar a bandeira do antiamericanismo, arremessando tomates contra o "ditador" Bush, ou ao amaldiçoar Saddam, tratando-o como o "tirano" de Bagdá, a personificação do mal. Ambas as visões extremadas, fruto da ótica maniqueísta, comprometem a aplicação dos parâmetros da controvérsia legítima.

Se, no futuro, após o término dessa guerra em andamento, a imprensa não quiser ser obrigada a novamente investir em reportagens-denúncia para mostrar os podres dos bastidores da guerra no Iraque, como pedido de desculpas para o mundo, terá de respeitar as máximas do jornalismo: neutralidade e equilíbrio.

Para que a guerra do Iraque não se torne um novo Vietnã, os jornalistas terão que abdicar de suas propensões ideológicas e mesmo lógicas. Deixar-se levar pela onda global do antiamericanismo e culpar os Estados Unidos pela instabilidade internacional, assim como deixar de levantar informações sobre as motivações de Saddam, é quebrar o preceito de ouvir os dois lados. Afinal, mesmo o "ditador e torturador de criancinhas" merece ser ouvido. Pelo menos no jornalismo.

(*) Aluno do 3? ano de Jornalismo do Unasp