Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Ivan Angelo

QUALIDADE NA TV

ASPAS

DOMINGÃO DO HORROR

"O show do horror e o ibope aos domingos", copyright Jornal da Tarde, 15/03/01

"Mais um domingo de horror. Horror que não fica restrito a São Paulo, onde se origina, mas perturba o descanso das famílias em todo o País, difundido pela televisão. Agora, junto com o funk popozudo e o axé siliconado, a violência dos presos e contra os presos eleva os ibopes dos programas de variedades.

As imagens são de horror: ?meninos? armados de paus, facas, estiletes, furadeira elétrica, pedras, barril de gás e revólver cometem barbaridades durante várias horas. É um show mais longo do que uma noite do Rock in Rio.

Flashes nos programas líderes de audiência do domingo. No show, os ?meninos? espancam um monitor, chutam-lhe a cara, a cabeça, dão-lhe pauladas na barriga. Corta para as popozudas e gincanas. Outro show direto da Febem:

?meninos? chutam um funcionário de branco, um salta duas vezes, com os dois pés, sobre as costas dele. Uns 20 espancam outro, que rola telhado abaixo e consegue soltar-se de uma altura de seis metros. Corta para uma amenidade de visita à casa de uma estrela da música pop e um comercial de um produto picareta. (Todos de olho no people meter do Ibope.) Volta o show de mocinhos e bandidos na Febem: os do Choque saltam de helicópteros, dão tiros de borracha nos ?meninos?, resgatam um refém, dominam a situação.

Por que a Segurança teve de esperar sete horas para agir? O secretário Petreluzzi explicou na coletiva, vista na tevê, que há sempre uma negociação para libertação dos reféns. Mas o que se via eram reféns sob massacre.

Talvez uma ação mais rápida evitasse que houvesse 22 feridos entre eles.

As cenas foram tão duras que a Globo as suprimiu no seu primeiro telejornal de ontem. No SPTV Primeira Edição elas voltaram. Chico Pinheiro usou muita vaselina para comentar o que alguns jornalistas chamaram de dureza da ação policial. ?É uma situação difícil.? Não se via nada difícil. Libertar um refém com tiros de borracha parecia uma ação legítima, aos olhos do público, e até uma obrigação.

A pergunta certa é esta: onde estão sendo deformados esses jovens? De onde vem tanta crueldade? Foi lúcida e clara a exposição do presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Febem: ali está tudo errado, sobram grades, faltam atividades, formação profissional, trabalho, recuperação, segurança externa armada para evitar a entrada de grupos de resgate.

Covas

Um retrato mais completo de Mário Covas e uma avaliação mais ponderada do seu papel político foi feita pela Band no sábado à noite, no programa Linha de Frente, dirigido por Gilberto Otávio Lima e apresentado por Fernando Mitre, diretor de jornalismo da emissora. O Covas estudante e futebolista em Santos, o deputado federal de 62 e 66, o cassado de 68, o prefeito de SP, o senador de 7,8 milhões de votos, o prefeito, o fundador do PSDB, o governador, o divergente de FHC, o anti-Maluf foram descritos numa biografia muito bem editada. Depois, veio o lado propriamente político, voltado para o futuro: a falta que ele vai fazer, como substituir personalidade tão diferenciada. Veio também o lado emocional, com a perda de dona Lila e dos amigos, veio a visão do povo, que ele conquistou por sua coragem na doença; veio a fala de FHC, com uma autocrítica que passou despercebida, mas é significativa (?suas virtudes, quiséramos nós possuí-las?). O programa não trouxe novidades, mas foi competente por condensar com lógica histórica e política o que na semana saíra desconjuntado.

Limite

Esse novo No Limite continua sem charme nenhum. Falta gente interessante, falta alguma beleza. A exploração da necessidade e a humilhação dos necessitados continua dando o tom e revoltando o público. O Video Show de sexta-feira mostrou uma reportagem sobre os cinegrafistas que acompanham os concorrentes 24 horas por dia. Não podem usar relógios para os competidores não verem a hora, não podem comer ou beber água na frente deles, para não aumentar-lhes a privação. Os concorrentes sabem que, ao participar, renunciaram à privacidade; só o banheiro é respeitado. Mesmo assim, reclamam: ?Estou pelada, cara? – ouve-se Eliane dizer. O cinegrafista que filmou o desmaio de Lythis preferiu ajudá-la do que filmar. Foi bem mais interessante do que o programa em si."

BAIXARIA FUNK

"Anomia ética e estética", copyright O Globo, 17/03/01

"Tenho recebido vários e-mails que configuram uma crescente repulsa a essas músicas porno-dançantes que estão agredindo a sensibilidade de grande parte da população.

– O que tem isto a ver com um suplemento literário, como este Prosa & Verso?

– ?Tudo a ver?, como diz a Globo, não fosse eu autor de ?Música popular e moderna poesia brasileira?.

Correndo o risco de escandalizar os menos avisados tenho que estampar aqui trechos de duas letras, que são alardeadas nas rádios e tevês, ao som das quais, adolescentes e até crianças dançam. Uma diz: ?Máquina do sexo, eu transo igual a um animal/ A Chatuba de Mesquita do bonde do sexo anal/ Chatuba come cu e depois come xereca/ Ranca cabaço, é bonde dos careca?. Outra chamada ?Barraco III?: ?Me chama de cachorra, que eu faço au-au/ Me chama de gatinha, que eu faço miau/ Goza na cara, goza na boca/ goza onde quiser?.

A isto adicione-se a informação de que ?dominadas? por ?tigrões?, meninas vão aos bailes funks de saia, sem calcinha e mantêm relações sexuais com os meninos enquanto dançam em fila indiana, formando um trenzinho, ou sentadas no colo dos rapazes, fazendo a chamada dança das cadeiras. O secretário de Saúde Sérgio Arouca revelou que está aumentando o número de adolescentes grávidas que freqüentam esses bailes e muitas delas aí contraíram a Aids.

Isto posto, chegamos a alguns aspectos que têm que ser discutidos no espaço da cultura. Se alguém levantar a voz contra esse tipo de produção exposta na mídia (e há dias Luciano Trigo, aqui no GLOBO teve esse corajoso gesto), corre o risco de ser taxado de censor e reacionário. Esclareço, portanto, que não se trata de uma questão de censura, e sim de estimular a que a sociedade e o governo criem sistemas de auto-controle de suas formas de expressão, como existem em alguns países: boicotes de produtos, protestos, etc. Quando uma represa está cheia demais, há vazadouros. Nas ligações elétricas há um relais, controle do curto-circuito. O sistema tem que proteger-se para que haja luz e energia para todos.

Três questões correlatas emergem desse violento fluxo de pornografia nas tevês, rádios, jornais e revistas. A primeira é de ordem geral. Vem do fato que a cultura do século XX levou ao extremo o culto da ?transgressão?. Em breve chegou-se à transgressão pela transgressão, e de transgressão em transgressão chegou-se ao nada, à anomia estética e, em alguns casos, à anomia ética.

Embora alguns retardatários ainda se qualifiquem como transgressores em arte, ensaístas como Octávio Paz já colocaram nos devidos termos a caducidade da questão da transgressão estética. Ao virar uma norma, a transgressão virou ?establishment?. Os ?alternativos? estão na universidade. A vanguarda tornou-se academia.

A segunda questão é relativa à recente história do Brasil. Tivemos duas longas e pesadas ditaduras. A última, que durou vinte anos, deixou no imaginário dos jornalistas, artistas e intelectuais, que a censura é abominável. E realmente o é. Mas a ditadura fez uma coisa ainda mais insidiosa: do medo à censura passou-se ao pavor de criticar ou pedir limites para qualquer coisa, como se o excesso de normas da ditadura nos houvesse constrangido a uma ausência absoluta de normas.

Assim como arte hoje é qualquer coisa que, tola ou espertamente, alguém chama e vende como arte, a população tem que ouvir e acolher tudo o que lhe é apresentado, porque qualquer voz discordante é taxada de reacionária ou de censora. Quer dizer: a ditadura nos fez mal até no tipo de democracia que pariu, que sendo-lhe igual e contrária, nisto é pouco imaginativa.

Mas há uma terceira questão sócio-histórica. Se a redemocratização deu voz a todos, a globalização, no seu lado perverso, pensando sobretudo no mercado, transforma o cidadão num simples clone consumista. Com isto, o ibope regula tudo. É o advento da quantidade, comprimindo, oprimindo a qualidade.

Assim, um editor fica constrangido de criticar, de pedir a um artista e colaborador para ser menos vulgar e grosseiro, enquanto a gravadora, a televisão, o rádio, as revistas correm atrás do público numa patética e esquizofrênica cumplicidade com a grossura e o mau gosto.

Ressalte-se que essas adolescentes que ficam rebolando como autômatos nos programas de auditório são pagas para isto, ajudando a forjar sucessos. Já os donos das gravadoras, os produtores de shows, as redes de comunicação alegarão que têm compromissos com a folha de pagamento e com a concorrência. Ou seja: ninguém tem culpa. E nisto a globalização é, de novo, perversa, pois se a culpa é de todo o mundo, ninguém é culpado. Como na arte, cada um pode fazer o que quiser porque hoje qualquer coisa é arte.

Na verdade, esse problema desemboca numa questão que inconscientemente está verbalizada nessas músicas, e aí a análise literária é de muita valia. Crime,violência, drogas têm muito a ver com esse quadro de anomia ética e estética. A marginalidade toma o lugar do sistema, o iletrado se apodera dos meios de comunicação, a quantidade desaloja a qualidade, e aquilo que antes chamávamos de ?cultura? agora está exilada como autêntica contra-cultura, uma cultura alternativa. É impossível ouvir o grito de guerra – ?tá tudo dominado? – sem reconhecer aí o eco do PCC ou de qualquer Comando Vermelho. É impossível não reconhecer em ?um tapinha não dói? uma variante sedutora da violência contra a mulher e a criança. É impossível não ouvir chamarem mulheres de ?cachorras? e não ver o retorno do pior machismo.

Isto tudo diz respeito a uma questão ética e estética que vai dar na questão do cânone. Cânone não significa normas rígidas, ditatoriais. Podem ser criativas, realmente democráticas. O contrário da ausência de cânone, isto sim, pode ser a anomia ética e estética e até mesmo o caos."

TAPINHA NÃO DÓI?

"Um congresso sobre línguas e um tapinha pessimista", copyright O Estado de S. Paulo, 15/03/01

"Existe uma emissora de televisão, imagino que paga pelo contribuinte, que já paga tanto, e tome quebra da Previdência, sobre cuja programação ninguém sabe nada – aliás, não existe só uma, existem várias emissoras pagas pelo contribuinte que, coitado, nada sabe sobre ela. Mas estou falando da TV Senado, que chega à minha tela por cabo. O que ela mostra é mistério.

Dia desses, chegando de uma viagem especialmente cansativa, quarto escurecido, controle remoto a cem por hora, parei, interessado, num debate sobre a língua portuguesa. Era uma reprise, ou exibição atrasada. O simpósio, talvez tivesse o nome de simpósio, datava de um ano.

Na mesa estavam dois diplomatas de alta patente, ainda filólogos ou, ao menos, conhecedores de e interessados em filologia e, também, o – este, sim, filólogo, talvez o nosso especialista mais importante da atualidade – professor Evanildo Bechara, presença que, por si só, garantia o excelente nível do debate.

A platéia era formada por estudiosos de e interessados em línguas, especialmente a portuguesa. Não guardei o nome da mediadora, mas, pela segurança com que conduzia os trabalhos, via-se ser alguém do ramo, como a lógica determinaria.

A TV Senado, que deve ter audiência igual a nada, não prima pela qualidade técnica de suas transmissões, de modo que, volta e meia, a fita falhava.

Sumia o som, a imagem tremia e o debate saía do ar, por vários e aborrecidos minutos. O jeito era zapear – os dicionários já incorporaram a palavra? – em busca do que preenchesse o vazio.

Numa volta do ponteiro dei com programa destes ditos dedicados a mulheres e crianças gozando em casa da paz saturnina dos fins de dia. A atração era o tal cara do tapinha que, um só, não dói.

Abro parênteses: acho a discussão feminista sobre a história do tapinha incentivar a violência contra as mulheres um grave equívoco, uma bobageira sem tamanho. Depois de fechá-los – os parênteses -, devo declarar que não havia ainda ouvido ou visto aquilo. Fiquei muito assustado. Achava que não ficaria assustado com mais nada que proviesse da indústria cultural, mas fiquei muito assustado.

Olhei um pouco, até por dever de ofício, e voltei ao debate. Estava acabando. Depois de esclarecedoras falas de Bechara e dos diplomatas convidados, a mediadora encerrou o turno (haveria mais, na tarde daquele dia, há mais de um ano, mas a TV Senado nem transmitiu em seguida nem avisou se viria a transmitir).

Como a conclusão geral – mesa e platéia – era de que a língua é a cara de um povo (uma nação, um país, um espaço geográfico que ocupa e delimita), a mediadora quis mostrar esperança. Disse algo assim: ?Li que a maior parte da música que toca no rádio e na televisão é brasileira. Isso é bom, porque, mesmo que a música seja ruim, pelo menos é falada numa língua que o ouvinte entende.?

Em outras palavras, supunha a professora – acredito que fosse professora – que o ruim, desde que seja nosso, é melhor, ou mais útil, do que o bom que venha de fora. Muito bem, estou levando a conclusão ao extremo, mas é de propósito. O que ela fez, mesmo que não soubesse, foi repetir a desculpa esfarrapada e sem caráter (a desculpa, não a professora) da indústria cultural.

A professora não percebeu, e ninguém disse nada, talvez porque não houvesse tempo, que aquela fala de encerramento derrubava por terra não apenas as conclusões do congresso como a própria necessidade de se realizar um congresso para se tentar entender a diferença entre língua formal e linguagem coloquial, para se tentar estabelecer a importância da língua na definição de um povo.

Aquele raciocínio reduz todo o conjunto expressivo – oralidade, gestualística, sintaxe melódica, padrão ritmico, vestuário, etc. – que se fez ao longo de séculos a um padrão utilitarista que serve tão-somente a quem faz dele, conjunto, objeto de comércio. No entanto, a professora não está sozinha – entre intelectuais – no tipo de raciocínio. Vem-se formando, nos últimos anos, uma corrente de pensamento acadêmico que deixou de enxergar a diferença entre cultura e indústria cultural. Acho que é esta a última etapa antes da irreversível derrocada."

GAZETA AMPLIA ALCANCE

"Gazeta levará seu sinal a mais quatro capitais", copyright Folha de S. Paulo, 16/03/01

"Emissora até o ano passado restrita ao Estado de São Paulo, a TV Gazeta recebeu em fevereiro autorização da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) para instalar retransmissores em Recife, Goiânia, Cuiabá e Florianópolis, além de cidades menores como Ponta Grossa (PR), Criciúma (SC) e Anápolis (GO).

As autorizações são um passo importante para o projeto da Gazeta de virar rede nacional. Desde janeiro, a emissora conta com uma afiliada em Belo Horizonte. Também tem expandido sua base de telespectadores por meio de operadoras de TV paga.

Segundo a Gazeta, os retransmissores das quatro capitais devem começar a operar ainda neste semestre. A emissora vai investir R$ 10 milhões em expansão neste ano. A Gazeta ainda tenta obter autorização para retransmitir no Rio de Janeiro e em Brasília.

As autorizações para retransmissoras não dependem de autorização do Congresso. As retransmissoras não podem gerar programação. O telespectador de Recife, por exemplo, irá receber a mesma programação e ver os mesmos comerciais que os de São Paulo. Mas, com sinal em Recife, a Gazeta atrai anunciantes grandes e valoriza sua tabela de preços."

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