Sunday, 25 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

Janio de Freitas

CELSO DANIEL

"Perseguição e crime", copyright Folha de S. Paulo, 24/01/02

"O apelo levado até a TV pelos peessedebistas, para que o PT ?não partidarize? o sequestro e a execução do prefeito Celso Daniel, é de um primarismo que só encontraria equivalente se o PT não parasse de dizer e fazer o que tem feito e dito, nestes dias, e partidarizasse mesmo o problema.

Fique policialmente provado ou não o propósito político dos assassinatos de Celso Daniel e Antonio da Costa Santos, está amplamente provado que integrantes do PT são vítimas de atentados e ameaças que não acometem integrantes de nenhum outro partido.

A questão já foi partidarizada em duas instâncias anteriores ao PT. Na primeira, pelos praticantes dos atentados e das violências. Em seguida, pelo PSDB, cujos integrantes no Ministério da Justiça, a começar do próprio ministro peessedebista Aloysio Nunes Ferreira, e no Planalto como no Congresso tiveram conhecimento dos atentados, foram até oficial e documentadamente informados das ameaças e preferiram Pilatos.

Por quê? Porque se tratava do PT. Mesmo motivo que levou toda a mídia a recusar-se a dar aos atentados e ameaças o tratamento jornalisticamente devido no noticiário. Mas, se ocorresse a integrantes do PSDB uma pequena parte do que tem acontecido a petistas, o estardalhaço estaria em tom à altura dos fatos. E não se precisariam nem mesmo de indícios para que ?a esquerda?, portanto os quadros do PT e do MST, estivessem acusados.

Não só assassinatos configurariam crimes políticos. Há, sem dúvida, um ataque grave a um partido, logo, às liberdades democráticas. Propor a despartidarização ou despolitização desse fato é escamotear o seu sentido mais ameaçador para a sociedade e para as instituições constitucionais. Em situações persecutórias, calar ou disfarçar é, como a história atesta, ser conivente.

Mais além

O rabino Henry Sobel, discutido chefe da Congregação Israelita de São Paulo, disse ter a autorização de Fernando Henrique Cardoso para a criação de uma Frente Ecumênica contra a Violência.

Para começar, frente ecumênica não depende de autorização de nenhum presidente da República. Além disso, Henry Sobel é autor da mais feroz declaração feita contra árabes, em sua desatinada reação ao ataque às torres de Nova York e ao Pentágono. Não é pessoa das mais indicadas para falar em combate à violência.

Caso, porém, deseje fazê-lo, não seria impróprio que dirigisse a pregação da frente em auxílio aos oprimidos democratas de Israel e contra o general Ariel Sharon com sua voracidade genocida."

 

"Jornais internacionais noticiam o enterro", copyright Folha de S. Paulo, 23/01/02

"Jornais internacionais destacaram ontem o cortejo e o enterro do prefeito de Santo André, Celso Daniel (PT). A abordagem das notícias procurou enfatizar a crise de segurança pública no país.

O site do jornal norte-americano ?The New York Times? noticiou ontem que os sucessivos ataques contra funcionários de esquerda suscitou o medo de um possível ressurgimento dos ?esquadrões da morte? no Brasil.

O argentino ?Clarín? fala sobre a suspeita de que os mandantes do crime possam pertencer a organizações em que se misturam a extrema direita, o narcotráfico e o contrabando de armas. São destacadas opiniões de dois professores da USP, Renato Janine Ribeiro e Gabriel Cohn, segundo as quais, o grupo responsável pelo crime pode ter características fascistas.

O também argentino ?Página 12? aponta a possibilidade de o crime ter sido praticado por organizações paramilitares, que teriam como objetivo frustrar as aspirações do PT à Presidência."