Friday, 01 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Joaquim Ferreira dos Santos

SILVIO SANTOS & SBT

"Qual é a próxima, Lombardi?", copyright no. (www.no.com.br), 22/12/01

"E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, a Casa dos Artistas fechou. E agora, Sílvio: quanto valeu o show? Dizem que Alexandre Frota tinha um celular dentro da Casa, as revistas de fofoca perseguem Supla e Bárbara na ânsia de documentar o casal nos finalmentes. Ainda há fogo sobre os escombros. Mas a pergunta que não se cala nem se responde é o que será que será da televisão brasileira depois do ocorrido?

Silvio Santos promete um domingo inteiro com rescaldos da Casa dos Artistas e, na concorrência, o clima é de que se ficar só nisso está bom. O Fantástico apanhou de 55 a 17. Ainda estão todos tontos. Com a espetacular manobra de lançamento da tal Casa em novembro, teme-se de Sílvio novas ações não previstas nos manuais acadêmicos da TV. Por onde virá? Na verdade, há muitas perguntas que se falam, calam e andam sussurrando no breu das tocas: qual é a próxima, Lombardi?

Não é possível que a Globo esteja realmente preparando para o segundo semestre de 2002, daqui a 200 dias, um programa de anônimos nos mesmo moldes da Casa do Morumbi. Seria aceitar a hipótese de que a Marluce passou os últimos domingos de olho apenas na Glória Maria. Não é possível que alguém acredite que uma comissão de seleção esteja debruçada neste momento sobre a papelada que mais de 300 mil candidatos enviaram para a estação pedindo pelo amor de Deus! uma chance na Casa do Projac, um sentido às suas vidas. Seria acreditar que o Bôni nunca viu no Discovery Channel os dinossauros mais lentos sendo extintos primeiro.

Ao colocar no ar um programa sem qualquer divulgação e transformá-lo no maior sucesso da televisão em 2001, o SBT acelerou a dinâmica tradicional de programação. As boas idéias precisam ser praticadas logo e reinventadas mais logo ainda. A Globo continua com os melhores cérebros, os melhores artistas, os melhores equipamentos e os melhores orçamentos – mas isso tudo está virando um fardo difícil de carregar nesses tempos em que as guerras são travadas nas cavernas.

A Globo, com seu pedantismo e soberba, dá a impressão de que faz melhor – mas os outros são mais rápidos. Nesses tempos cínicos e velozes vai acabar exibindo os dotes apenas para quem chegar atrasado. Bom é o rápido – claro, com a exceção do escandir das sílabas apaixonadas no ouvido da amada que, na contramão desse tiroteio hodierno, precisa ser cada vez mais lento e suave. Pelo menos enquanto ninguém tem a idéia de comprar os direitos de instalar uma câmera no quarto dos telespectadores.

O tempo ruge. Os jornais espalham informações desencontradas sobre o lançamento, ou o adiamento, ou o cancelamento, do Big Brother Brasil – e há quem veja nisso uma orquestração de guerrilha global. O programa pode ser jogado imediatamente no ar para, no mínimo, atrapalhar a próxima ação – qual será? – de Sílvio Santos. No último grande susto que levou, a Globo contratou Benedito Ruy Barbosa mais Jayme Monjardim e, meses depois, assimilou cachoeiras e mulheres peladas que eles tinham inventado no Pantanal da Manchete. Dessa vez não vai dar para esperar tanto.

O barraco armado pelo SBT – SBT de Silvio Bin Toma – é mais complicado que clonar a Juma. Os holandeses que inventaram o jogo do Big Brother tinham dito que primeiro se faz uma casa de anônimos. A audiência é boa. Depois, outra, novamente de anônimos. A audiência cai um pouco. É a hora então de se partir para a terceira, de famosos. E a audiência volta superior ao da primeira Casa. Sílvio Bin Toma, como se sabe, ouviu todas essas idéias, gostou muito e não só resolveu tomá-las para o SBT, como deu uma aprimorada no pacote. Começou pela casa dos famosos deixando que a Globo se virasse com o mico de duas casas detonadas na mão. Como julgou ter aprimorado a roda, não pagou nada aos holandeses. Ibope de 55 pontos a custo zero. Isso é que é plano econômico.

Depois de passar 49 dias bisbilhotando coelhinhas da Playboy e pitbulls pegando fogo no edredon, é ruim de o país ficar de olho na fechadura de um bando de anônimos querendo deixar essa miséria de lado. O bricabraque está nas mãos da Globo e é apenas um dos que ela tem que armar rapidamente para o início do ano. Alarmada com o baixo ibope, já começou o desmonte precipitado da casa de As filhas da mãe. É por aí. Mais rapidez para mexer nos erros e uma leitura minuciosa do novo país que está saindo do Censo 2000. Caso contrário seus artistas vão precisar fazer como a Glória Maria fez quarta-feira. Foi ao estúdio da Cultura dar uma entrevista para Marcelo Tass. Cansada de não ser vista no Fantástico, Glória escolheu um programa de nome ironicamente significativo: Vitrine."

"Na avenida ou nas telas, Silvio Santos deu show durante o ano", copyright O Estado de S. Paulo, 23/12/01

"Silvio Santos roubou a cena em 2001. Ligado a boas ou más notícias, o apresentador foi assunto das tevês, jornais, revistas, rádios e da Internet. Tudo começou em fevereiro, quando foi homenageado pela escola carioca Tradição, com o samba-enredo Hoje é domingo, é alegria. Vamos Sorrir e Cantar.

Na ocasião, causou desconforto a sua maior concorrente, a Rede Globo, que em nenhum momento aventou a hipótese de não transmitir o desfile por causa da presença de Silvio. A emissora registrou sua passagem pela Marquês de Sapucaí e ainda teve de conferir a popularidade do homem do baú: o ibope atingiu 39 pontos – o restante do desfile não passou de 33. Silvio Santos aumentou a audiência da Globo. Cantou e brincou com o público como se estivesse no comando de um de seus programas. E estava, agradando, ao mesmo tempo, os camarotes e a arquibancada.

Atrás de seu carro, grande parte do SBT desfilava para o bom aparato tecnológico da Globo, sempre com câmeras bem posicionadas. Hebe Camargo, Gugu, Ratinho, entre outros, estavam na avenida e eram apresentados ao público pelos profissionais da emissora do Jardim Botânico. Glória Maria, por exemplo, chegou a saudá-lo com entusiasmo do estúdio-bolha, que deslizava a 15 metros de altura para registrar as melhores imagens do carnaval carioca. No mesmo horário, sua rede de televisão, o SBT, impedida de mostrar o desfile, exibia o filme Adoro Problemas, com Julia Roberts e Nick Nolte, registrando míseros 7 pontos de audiência.

Silvio Santos sempre evitou a exposição de sua vida pessoal, mas teve de lidar com isso este ano. Em setembro, dia 21, começou o drama do seqüestro de sua filha Patrícia Abravanel, de 23 anos. Com exceção do Grupo Globo, a mídia não divulgou o assunto até que o caso fosse resolvido. Considerado um homem racional e frio, a emoção impediu que ele conduzisse esse episódio de sua vida: pediu a seu sobrinho, Guilherme Stoliar, que comandasse as negociações.

Um dia depois da libertação da filha, como numa novela, Silvio Santos voltou às telas numa situação muito desconfortável. Teve sua casa invadida pelo seqüestrador de Patrícia, Fernando Dutra Pinto, e, mesmo como refém, comandou todas as negociações e conquistou o público. Libertou sua família, evitou que o invasor fosse acertado pelos policiais por duas vezes e chamou o governador Geraldo Alckmin para dar garantias de segurança ao seqüestrador. O Brasil parou para acompanhar o sofrimento de Silvio, drama que durou mais de seis horas e que terminou com um final feliz.

Para encerrar 2001, o apresentador resolveu, por sua conta e risco, apostar no reality show Casa dos Artistas. Depois de 45 dias no ar, polêmicas à parte, o empresário chegou ao pico de 55 pontos de audiência – recorde para o SBT.

Para o cabeleireiro e amigo Jassa, Silvio ganhou um público diferente com o novo programa. ?Socialites ou empresários admitem que assistem ao SBT?, conta. O designer Ricardo Athayde comprova a tese. ?Achava Silvio Santos distante do meu mundo, mas em Casa vi que ele é uma pessoa comum, que fala com o público.? Para ele, personagens como Supla ou Bárbara poderiam fazer parte de seu grupo de amigos. Ele reuniu alguns conhecidos para assistir à grande final e fez até um Silvio Melon, como o do Frota, para animar a turma.

De acordo com a professora da USP Maria Thereza Fraga Rocco, a mágica do sucesso está no talento de Silvio. ?A forma de apresentar foi brilhante?, explica. Isso porque ele comandou, ao mesmo tempo, três platéias que interagiam: o público em casa, o auditório e os artistas na Casa. ?Ele mudou a tevê e editou a vida real?, diz.

No último dia, o apresentador surpreendeu a todos. Além de manter, por 4 horas, a audiência do programa na média de 47 pontos (ver Guerra aos domingos), atraiu também os grandes anunciantes. Silvio deu um show – estimado em mais de R$ 20 milhões."