Saturday, 25 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Jornais pedem `solução digna’ para a disputa"

ASPAS

"Jornais pedem `solução digna’ para a disputa", copyright O Estado de S. Paulo/Reuters, 13/10/00

"Os jornais The New York Times e The Washington Post pediram ontem uma solução digna para a disputa sobre quem venceu as eleições americanas. ‘Neste estágio, nenhuma das campanhas nos parece ter prestado atenção suficiente à legitimidade’, afirmou o Post em editorial sobre o resultado das eleições, ainda não resolvido quase uma semana depois da votação. ‘Cada candidato prometeu, de forma particular, restaurar a dignidade à Casa Branca. Agora, mesmo antes de chegarem lá, ambos estão recorrendo às táticas de ganhar a qualquer custo, as quais eles diziam desprezar’, assinalou o jornal.

O candidato democrata Al Gore e seu rival republicano George W. Bush precisam dos 25 votos da Flórida no Colégio Eleitoral para ganhar a presidência, mas não haverá resultado final no Estado antes de sexta-feira.

A pedido dos democratas, parte dos votos da Flórida está sendo recontada a mão desde sábado. Isso levou a equipe de Bush a pedir à justiça em Miami que suspendesse a recontagem, mas a corte só analisará a questão hoje.

O New York Times, em editorial na edição de ontem, ressaltou que uma das questões pendentes desta acirrada eleição é ‘se todo este conflito e divisão abrirão caminho para um conflito partidário sem fim ou inspirarão a procura por um novo … ponto de equilíbrio bipartidário’. E acrescentou:

‘Declaramos nossa forte preferência por uma solução imediata, digna e não litigiosa. Mas não importa como ou quando o fim chegará, dúvidas permanecem sobre que tipo de mundo político nós todos habitaremos.’"

"Jornais elogiam Gore e criticam Bush", copyright Folha de S. Paulo, 17/11/00

"‘The New York Times’ e ‘The Washington Post’ elogiaram Al Gore por ter proposto a recontagem manual em todos os condados da Flórida (não só nos redutos democratas), comprometendo-se a acatar seu resultado sem contestação.

Ambos condenaram o republicano George W. Bush por rejeitar a idéia -que, segundo os jornais, poderia resolver o impasse da sucessão presidencial.

‘A recusa de Bush à proposta de Gore foi uma decepção no âmbito cívico, foi um erro político’, disse o ‘Times’ em editorial. Para o jornal, a declaração de Bush segundo a qual a recontagem manual seria ‘arbitrária e caótica’ foi incompreensível.

‘A proposta de Gore tem valor porque ele está oferecendo abrir mão de algo muito importante -a possibilidade de defender seus direitos na Justiça- em troca da justa contagem de que ele precisa e que o país tanto quer’, afirmou o ‘Times’.

‘Ao argumentar contra a recontagem manual, Bush está pedindo que a nação decida sua mais importante eleição de outra maneira que não a melhor disponível. Ele também está ignorando as leis da Flórida e do Texas, que consideram a recontagem manual como recursos justos em eleições contestadas’, disse o jornal.

O ‘The Washington Post’ afirmou: ‘Acreditamos que foi uma proposta justa e que produziria um resultado que a maioria dos cidadãos aceitaria como justo. Ao negá-la, Bush fez com que os candidatos voltassem à guerra velada na qual o ganhador terá sua vitória sempre vista pelo público com uma ponta de ilegitimidade’.

Antes da realização das eleições os dois jornais manifestaram seu apoio à candidatura de Gore. É relativamente comum que jornais dos EUA tomem uma posição partidária antes de eleições presidenciais."

"Mico ao vivo", copyright site Coleguinhas, uni-vos (www.coleguinhas.jor), 13/11/00

"O maior mico do ano, sem dúvida, foi a eleição terceiro-mundista da Flórida (também, um estado que mistura cubano anti-castrista com emergente da Barra não podia dar boa coisa…). Todo mundo se esbaldou, o que é muito justo, pois é raro poder sacanear os arrogantes americanos. Nossa mídia, é claro, também tirou suas casquinhas, especialmente os jornais que, além de tudo, puderam curtir com a cara das televisões.

Tudo bem, mas o nosso pessoal aqui, que costuma ser tão arrogante quanto um secretário de comércio da Corte, deveria parar para pensar no que aconteceu, lembrar das mancadas que já deu e agradecer ao sistema horário internacional por não ter acompanhado os americanos e europeus no vexame.

Para começar, O Globo publicou na quinta-feira, na primeira página, as capas de quatro edições do Orlando Sentinel, em que este jornal mudou a manchete, demonstrando que não sabia o que acontecia nos fundos de suas rotativas. Gozado sem dúvida, mas ninguém se deu o trabalho de lembrar que uma das grandes estrelas da última reunião da Associação Mundial de Jornais, realizada aqui no balneário, foi Keith Wheeler, publisher do jornal da terra do Mickey.

E o que disse o tão festejado Mr Wheeler? Ele defende (ou, agora muito provavelmente, defendia…) que em futuro próximo só haveria jornalistas multmídias nas redações. Os tais profissionais do futuro seriam uma espécie de ciborgs, que andariam em motos (ou helicópteros ou patinetes, sei lá) fazendo matérias que seriam enviadas ao vivo (ah! hoje é tempo real, né?) para jornais on line, rádios e TVs. Anunciava-se a Era da Notícia Imediata. É uma tese defendida com ardor por algumas poderosas chefias de redação aqui do Bananão. É possível, embora eu não garanta da a teimosia reinante nestes escalões, que neguinho tenha mudado de opinião, em especial os que assistiram à confusão de flats em Nova Iorque.

Pois é, mas como diria Garrincha, os adeptos do Jornalismo Multimídia esqueceram de combinar com o adversário, no caso, a realidade. Tanto quanto a falta de repórteres aludida por mestre Elio Gaspari em artigo no Globo, o que levou TVs e jornais a pagar um king kong daquele tamanho foi a idéia de que os repórteres, mesmo que existissem, deveriam dar as notícias em tempo real com checagem insuficiente ou mesmo sem checagem alguma.

Mas além da amnésia sobre as idéias que defendiam com tanto afinco, a nossa imprensa esqueceu também os seu próprios erros em matéria de cobertura de eleições, a maior parte deles proposital, ao contrário dos gringos. Ninguém lembrou o Caso Procunsult, a edição parcial do Jornal Nacional na eleição de 89 e a publicação sem cuidado, eleiçao após eleição, daquelas pesquisas fajutas dos ibopes da vida. Sem falar que, na Internet, já mataram o Jorge Amado e o Zuenir Ventura…

Mas cara-de-pau pouca é bobagem e ainda teve jornal que resolveu tirar onda dizendo que a imprensa brasileira havia se comportado de maneira mais cautelosa da que a americana, insinuando que havia sido mais competente. Olha, pode até ser, mas, no caso em tela, foi sorte mesmo. É que a Flórida está três horas atrás do eixo Rio-São Paulo (o horário de verão, lembra?). Assim, quando as editorias de Inter fecharam, aí por volta das 18h, 19h, a eleição lá nem tinha acabado. Já no fechamento da capa da primeira edição aqui, aí pelas 21h, lá os primeiros resultados começavam a sair e os primeiros chutes – pomposa e enganosamente batizados de projeções – a irem ar. Quando o caos realmente se instalou naquela terra ensolarada já era meia-noite lá, três da madruga aqui, ou seja em cima da hora limite para qualquer mudança nos exemplares que chegam aos classe A. Assim, ninguém botou o Bush como vencedor aqui por problema de horário e não de competência. Se a diferença de fuso fosse menor, é muito provável que neguinho tivesse barrigado na boa.

De qualquer maneira, fica aí o aviso para os nosso preclaros meios de comunicação: tempo real, ao vivo, ou que outro nome tenha, essa sofreguidão pelo furo é ‘faca de dois legumes’, como dizia o Vicente Mateus – pode ser a glória, mas também pode ser o mico. E, como sabe qualquer pessoa que tenha vivido o suficiente, o pessoal esquece rápido a primeira, mas lembra para sempre do segundo."

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