Monday, 17 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Jornalismo, arte e realidade

IMPRENSA & CIÊNCIAS SOCIAIS

Muniz Sodré (*)

Em sua coluna de sábado (22/3/03) no jornal O Globo, Zuenir Ventura afirma que filmes como Cidade de Deus e Carandiru são demonstrações de que a arte, mais do que a sociologia revela toda a dimensão de nossa tragédia urbana ("Quando se assiste a filmes como ?Cidade de Deus? e ?Carandiru?, constata-se que não é a sociologia, mas a arte, que está revelando toda a dimensão de nossa tragédia urbana").

É uma afirmação de interesse prático e teórico. Prático, porque incita pedagogicamente o público, leitor e espectador, a buscar filmes e livros diretamente antenados com a realidade brasileira. Teórico, porque põe em discussão o problema de se avaliar até que ponto um trabalho de natureza artístico-literário (ou estético) é capaz de gerar um conhecimento transitivo sobre a realidade.

A questão não é nada simples e remete a obras que costumam ocupar o tempo e a cabeça de estudantes de Letras, Filosofia, Estética e disciplinas afins do campo humanístico. Há quem ache, como bem sabemos, que literatura não tem nada a ver com o que lhe é externo. E esta é a posição de gente da estatura de André Gide ou de escritores contemporâneos, como os do grupo francês Tel Quel, que fazem o texto debruçar-se sobre si mesmo, posto em "abismo", de modo que a própria escrita se torna o conteúdo da narrativa. Ao invés do romance de aventura, na expressão de Jean Ricardou, a aventura do romance.

No entanto, desde a segunda metade do século 19 tem-se podido assistir a uma espécie de complementaridade entre o jornalismo e as ciências sociais, com a narrativa romanesca no meio, explorando os saberes, os testemunhos e as condições de aparecimento da verdade. O romance realista vive de uma imbricação entre o real-histórico e a história interna à narrativa, por meio de referências verossímeis ou verdadeiras. Há formas novas de realismo (por exemplo, o deslocamento da verdade objetiva para subjetiva), mas de uma maneira geral as narrativas contemporâneas que pretendem fazer algum tipo de radiografia do real não se afastam muitos dos velhos procedimentos realistas. As biografias, os testemunhos de eventos marcantes, os livros-reportagens, os filmes ancorados em incidentes ou fatos do real-histórico costumam ser, esteticamente, produtos do realismo.

Imprescindível e revelador

Não há dúvida que a arte da narrativa possa abordar dimensões da realidade vivida de modo mais profundo ou revelador do que a sociologia. A maior parte do que hoje se produz no campo das ciências humanas e sociais, quando não se fecha no tecnicismo metodológico ou em jargões impenetráveis, é geralmente lida apenas no âmbito da academia, por um número reduzido de professores realmente interessados e um número maior de estudantes enfastiados, vezeiros em picotar os textos por meio da xerocagem de capítulos. Outras vezes, as interpretações teóricas duram apenas o curto tempo da moda de uma posição metodológica qualquer. Não à toa que, uma vez na presidência da República, Fernando Henrique Cardoso pediu a quem de direito que se esquecesse de tudo o que ele havia escrito.

No entanto, continuam sendo amplamente lidos os trabalhos de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Raimundo Faoro, Otávio Ianni, Florestan Fernandes, Vítor Nunes Leal e tantos outros que se debruçaram e se debruçam teoricamente sobre a realidade brasileira. Muitos deles ? principalmente os de Freyre, Buarque de Holanda e Faoro ? têm um sabor narrativo maior que de muito romance e filme premiados. Há também um número importante de pesquisadores contemporâneos com resultados e reflexões surpreendentes sobre a realidade nacional.

O problema é que o conhecimento produzido pelas ciências sociais ? a prática dita "teórica", geradora de pensamento e não apenas de radiografias estatísticas do status quo ?só se difunde quando atende a uma demanda que parte de núcleos institucionalizados da vida social. Esses núcleos tornaram-se menos visíveis durante o regime militar e desnecessários na vigência do regime neoliberal dos "Fernandos" (Collor de Melo e Henrique Cardoso), cujo saber social vinha pronto na forma das instruções transmitidas por organismos financeiros internacionais e agências de fomento mundiais. Um exemplo: a "sociologia" da educação do ministério passado, que tentou liquidar com o ensino público superior no Brasil, era toda feita no Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Filmes como Cidade de Deus e Carandiru são decididamente valiosos como retratos impactantes de fatias de uma realidade que, a cada dia, mais justifica o adjetivo "trágica". São, entretanto, ainda que ricas em procedimentos realistas, obras atravessadas pela estética ? portanto, por uma intencionalidade afetiva que diz mais respeito à emoção do que ao conhecimento transitivo da realidade imediata. Nada nos garante que sejam mais reveladoras do que o trabalho das ciências da sociedade.

Por outro lado, o que dizer do jornalismo? Com todos os seus defeitos e as suas retrações históricas diante da mídia de entretenimento, continua imprescindível e revelador. Um jornalismo de qualidade, este sim, pode hoje concorrer e assumir, muita vez, o lugar ocupado pelo discurso das ciências sociais.

(*) Jornalista, escritor e professor-titular da UFRJ