Tuesday, 18 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Jornalismo de cinzas

CADERNOS REGIONAIS

Gilberto Gonçalves (*)

É ou não para perder a paciência com a Folha de S.Paulo?

Por dever de ofício (sou jornalista) assino a Folha há alguns anos. Como estou sediado em Campinas, SP, tenho particular interesse no caderno do jornal que leva este nome: Folha Campinas. Da mesma forma como minha assinatura do jornal não é nova, não é nova também minha indignação com o tratamento dado aos cadernos regionais (falo sobre o Folha Campinas mas, por ele, tiro base para os demais). Já expressei minha indignação, várias vezes, em comunicados aos diversos ocupantes do cargo de ombusman da Folha. Nas respostas, cordiais diga-se de passagem, sempre a mesma argumentação: o caderno Folha Campinas é fechado em São Paulo.

Se é Folha Campinas, como pode ser fechada em São Paulo? Esta sistemática tem feito do caderno um saco de gatos. Sob o título Folha Campinas aparecem notícias de todo Brasil e até do mundo e, por incrível que pareça, o serviço necrológico é de São Paulo (capital), e não da cidade de Campinas.

Uma prova de bom tamanho da descabida sistemática de edição adotada pela Folha, e acatada por profissionais de jornalismo, está na edição do dia 1? de março. Insisto em que a tresloucada edição não é nova. Perdi as contas dos comunicados ao ombudsman sobre o problema. Desisti deste procedimento. A Folha não tem e não quer ter respeito com leitores, assinantes ou não, com interesse especial em seus cadernos regionais.

A capa da edição de 1? de março, como não poderia deixar de ser, mostra foto da escola de samba campeã do carnaval carioca, a Imperatriz Leopoldinense. Sob a foto colorida, a única na dobra superior, o título "Imperatriz é tri com a nota máxima" se sobrepõe ao texto de chamada que, ao final, indica ao leitor onde encontrar o material sobre o assunto: Pág. C1. Até aí tudo estaria perfeito em termos de edição. Afinal, brasileiro gosta de carnaval. Mas, sempre o mas, a Folha é editada com base no moderno sistema de cadernização e aí…

Bem, aí o leitor desdobra o jornal para saber, pelas outras chamadas, o que mais o jornal do dia tem em seu noticiário. Na mesma capa encontra, quase no pé, um box sobretitulado Folha Campinas. O título diz: "Molina quer Unicamp investigada". O texto-chamada é curto, e termina com o tradicional indicativo da página onde está o assunto ampliado: Pág. C1. Isso mesmo, na mesma página C1 o leitor encontraria informações aprofundadas sobre a Imperatriz Leopoldinense e a Unicamp. Perfeitamente possível não fosse a estapafúrdia cadernização. Duas notícias numa mesma página é possível, lógico. Mas não na Folha. A Pág. C1, que é a capa do caderno Folha Campinas, é um luxo!

O trabalho de edição é primoroso, típico da competência da Folha. A página está assim:

Sob o logo de identificação da página: Página C1 * São Paulo, quinta-feira, 1? de março de 2002 * Inclui Cotidiano

À esquerda do logo, um quadrinho: "Folha Esporte está incluído neste caderno". A vinheta da página: "Carnaval 2001". A linha fina: "Presidente da escola pede reforma do sambódromo; Beija Flor é vice por meio ponto, pelo terceiro ano consecutivo, e Mangueira é a 3?". A manchete da página: "Imperatriz leva o tricampeonato no Rio". O texto está à direita da página, numa coluna de 32 cm, assinado por dois repórteres da sucursal do Rio. Fotos e legendas estão à esquerda da página, duas fotos coloridas da escola e da comemoração ocupam 5 col x 32cm. O pé da página é um quadro da editoria de Arte, de 5 col x 10cm: "Resultado das escolas do grupo especial do Rio". Anúncio da página: coluna por 10cm. em duas cores de uma locadora de carros.

1) A página C1, capa do caderno Folha Campinas, não contém informações sobre a Unicamp, como orientava a chamada no box da primeira página do jornal.

2) O caderno é de Campinas, a data é de São Paulo e a notícia é do Rio.

3) O caderno é Folha Campinas, inclui Cotidiano e Folha Esporte.

Editor de meia página

Esta foi a balbúrdia que os editores conseguiram produzir. Fica patente o desrespeito com o leitor do caderno até na desleixada aplicação do quadrinho ao lado esquerdo do logo, que acabou cobrindo parcialmente as informações sobre os acessos (telefone, fax, e-mail e homepage) do caderno. Puro descaso, desleixo, desrespeito mesmo.

Quanto às duas chamadas de capa para a mesma página C1, quando a página seria utilizada apenas por uma das notícias, deve ser coisa de editor de meia página. Um edita a dobra superior da primeira página e o outro a dobra inferior.

Pode ser também confusão de escolas… Afinal, a Imperatriz é escola de samba, e a Unicamp é uma escola que está dando samba.

Para qualquer editor de página inteira, a notícia que deveria abrir o caderno denominado Folha Campinas seria aquela relacionada diretamente à cidade. Para os editores da Folha, porém, o samba da Imperatriz é mais campineiro que o samba da Unicamp, cujo nome por extenso é Universidade de Campinas.

Nesta cadernização que mais parece samba do crioulo doido, fico com pena mesmo dos colegas jornalistas que atuam em Campinas produzindo o caderno para a Folha, se virando como charuto em boca de bêbado para conquistar o espaço que deveria ser, exclusivamente, deles.

(*) Jornalista, Campinas, SP <comunicativa.acj1@terra.com.br>

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