Saturday, 22 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

José Geraldo Couto

QUALIDADE NA TV

ASPAS

DOCUMENTÁRIOS

"?Mapas Urbanos 2? faz retrato singular da cultura de Recife", copyright Folha de S. Paulo, 21/03/01

"O documentário ?Mapas Urbanos 2 – Recife?, que o canal 605 da DirecTV exibe hoje às 21h e às 23h, dá sequência ao singular retrato que o cineasta Daniel Augusto vem fazendo das metrópoles brasileiras pelos olhos de seus poetas e compositores.

Os primeiros exemplares da série -São Paulo, Rio e Salvador- foram exibidos pelo canal GNT.

O Recife que emerge no programa é um pulsante amálgama cultural em que se misturam a tradição popular e a cultura pop.

A ênfase recai sobre o ?movimento mangue beat?, que se tornou conhecido graças à figura emblemática de Chico Science.

Quase todos os músicos entrevistados -Lenine, Otto, Fred Zero Quatro, Jorge dü Peixe (da Nação Zumbi), Silvério Pessoa, Siba (do grupo Mestre Ambrósio)- buscam formas de confluência entre tradição e modernidade.

Curiosamente, são os jovens mais pobres e sem instrução, dos bairros de periferia, que parecem menos interessados nas raízes populares, optando pelo rap e pelo rock sem sotaque nordestino.

No outro extremo, representando o pólo da cultura de raiz popular ?autêntica?, o multiartista Antônio Nóbrega, de formação erudita, fala sobre o movimento armorial e, de quebra, dá uma aula ilustrada sobre as várias vertentes do maracatu.

Dois poetas mais veteranos, Sebastião Uchôa Leite e Jorge Wanderley (em sua última entrevista antes de morrer), dão uma visão mais profunda das transformações políticas e culturais vividas pela cidade nas últimas décadas.

?Meu desejo era ter representantes de todos os grupos?, diz Augusto. ?Mas é claro que o meu gosto sempre falou mais alto.?

O diretor, que realizou as entrevistas há quase dois anos -e depois ficou negociando com as TVs para conseguir finalizar o documentário-, diz lamentar duas ausências: a do poeta João Cabral de Melo Neto e a do escritor Ariano Suassuna.

O poeta estava muito doente (morreu logo depois) e Suassuna não quis dar entrevista.

?A ausência dos dois enfraqueceu um pouco a parte ?literária? desse mapa?, diz Augusto, que tentou compensar ?a falta de Suassuna com o Nóbrega? (seu discípulo) e a de Cabral utilizando trechos de poemas seus.

O diretor, que filmou em película super-16 mm, escolheu pontos-chaves da cidade como cenários dos depoimentos.

Lenine fala diante de uma mesa do bar Savoy, antigo reduto da intelectualidade local. Otto solta seu verbo ao mesmo tempo lúcido e delirante nos jardins do escultor Brennand. Silvério Pessoa passeia pelo mercado São José.

Assim, o mapeamento cultural ilumina e enriquece o geográfico, e vice-versa."

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"Documentário radiografa os bastidores do AI-5", copyright Folha de S. Paulo, 20/03/01

"A crise política que motivou a decretação do Ato Institucional n? 5, levando ao extremo o autoritarismo do regime militar, em 1968, é esmiuçada e dramatizada no documentário ?AI-5 – O Dia Que Não Existiu?, dirigido pelo jornalista Paulo Markun.

Realizado pela TV Cultura em parceria com a TV Câmara, o vídeo, de 56 minutos, vai ao ar nas duas emissoras no próximo dia 31, às 20h30.

Antes disso, no dia 26, será exibido em pré-estréia na Pinacoteca do Estado, em São Paulo, na abertura do Festival de Documentários É Tudo Verdade.

Depois de traçar um rápido quadro do contexto da época -passeatas, greves, prisões, confrontos entre estudantes e militares-, o vídeo de Markun se concentra na sessão da Câmara Federal que serviu de pretexto ao regime para baixar o AI-5.

Os militares, irritados com um discurso proferido dias antes na tribuna pelo deputado oposicionista Márcio Moreira Alves, queriam que o Congresso lhes concedesse uma ?licença? para processar o parlamentar.

A questão foi decidida na sessão da Câmara de 12 de dezembro de 1968. Considerando que estava em questão a soberania do Congresso, os parlamentares decidiram negar a tal licença.

No dia seguinte, o governo baixava o AI-5, suspendendo garantias democráticas e estabelecendo uma ditadura sem disfarces.

?AI-5 – O Dia Que Não Existiu? reconstitui a sessão crucial do dia 12 lançando mão de atores nos papéis dos congressistas. Maurício Branco, por exemplo, interpreta Márcio Moreira Alves, e Almir Martins encarna Mário Covas, então líder da oposição na Câmara (leia ao lado).

Paulo Markun disse à Folha que teve a idéia de fazer o documentário em maio do ano passado, quando a ex-funcionária do Congresso Ana Lúcia Brandão devolveu às autoridades as notas taquigráficas da fatídica sessão, que ela havia escondido por temor de represálias dos militares.

O receio não era de todo infundado. As gravações dos discursos daquele dia desapareceram. ?A desculpa oficial é a de que as fitas foram reaproveitadas, por questão de economia?, diz Markun.

Ao pesquisar o assunto, o jornalista percebeu que havia nele ?uma grande densidade dramática?, mas se deparou também com a escassez de documentos, sobretudo iconográficos.

?O problema é que no dia seguinte veio o AI-5 e, com ele, a censura, o que limitou muito a documentação?, diz Markun.

Ele procedeu então a uma delicada costura dos fragmentos de que dispunha (trechos de áudio de alguns discursos, imagens de deputados votando), com a encenação da sessão (realizada no próprio Congresso, com 200 figurantes) e depoimentos atuais dos personagens do episódio.

Entre os entrevistados estão Márcio Moreira Alves, Covas, Jarbas Passarinho e Geraldo Freire.

Apesar da duração excessiva de alguns discursos, o resultado geral é um painel bastante vivo de um dos momentos mais dramáticos de nossa história republicana.

Em 1968, aos 16 anos, Markun participou como secundarista das passeatas contra o regime. Hoje, preocupado com a desinformação dos jovens, o diretor pretende exibir e debater seu vídeo em escolas pelo país afora.

O jornalista (que apresenta o programa ?Roda Viva?, da Cultura) prepara um documentário sobre a tentativa de golpe contra a posse de João Goulart, após a renúncia de Jânio Quadros, em 61."

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"Mário Covas ?rouba a cena? no vídeo", copyright Folha de S. Paulo, 20/03/01

"Embora o pivô da crise que gerou o AI-5 tenha sido o deputado Márcio Moreira Alves, quem ?rouba a cena? no documentário ?AI-5 – O Dia Que Não Existiu? é o governador Mário Covas.

Na reconstituição realizada por Paulo Markun da sessão parlamentar de 12 de dezembro de 1968, Covas, que era então líder da oposição na Câmara, profere o discurso mais longo e eloquente.

Entre os depoimentos recentes de personagens do episódio, o de Covas é um dos mais extensos, além de ser o mais lúcido.

Markun nega que tenha dado destaque a Covas como uma forma de homenageá-lo. ?Na verdade, o discurso dele foi o mais significativo, pois fez a defesa do Congresso contra as ameaças do Executivo. E o mais impressionante é que foi feito de improviso. ?O discurso do Marcito na sessão foi tímido, pois ele estava empenhado em mostrar aos militares que não havia tido o intuito de ofendê-los.?

De acordo com Markun, o documentário já estava finalizado quando o governador Covas morreu, no último dia 6. ?Quando Covas já estava muito doente, mostramos a ele uma fita de 15 minutos com um resumo e uma mensagem de alento dos participantes. Ele ficou emocionado.?"

DOMINGÃO NA RECORD

"Netinho afoga concorrência em lágrimas", copyright O Estado de S. Paulo, 24/03/01

"Domingão é dia de emoção, de choro, de apelação… A confiança na premissa levou a Record a fisgar o pagodeiro Netinho na correnteza do SBT para melhorar seu ibope. O ex-líder do Negritude Jr., que garantia os picos de audiência do Domingo Legal realizando a fantasia de Cinderela de alguma fã pobre no quadro A Princesa e o Plebeu, mudou de canal e se deu muitíssimo bem.

Na estréia, Domingo da Gente (das 13h30 às 15 h) quase quadruplicou a audiência da Record. A sessão de filmes que ocupava a faixa anteriormente dava entre três e quatro pontos de média no Ibope (cerca de 300 mil telespectadores na Grande São Paulo). O show do Netinho atingiu 14 pontos de média, colocando a emissora em segundo lugar no horário: Globo registrou média de 16 (com Sandy & Júnior, Megatom e Planeta Xuxa) e o SBT (com o filme Rambo, Programado para Matar), 12.

O desempenho do show movimentou os bastidores da TV criando uma espécie de discussão por direitos autorais. O diretor do Domingo Legal (que tem escalado outros pagodeiros para o papel de plebeu), Roberto Manzone, promete brigar na Justiça pelo plágio de sua galinha dos ovos de ouro. No domingo, quando exibiu o quadro (entre 18h10 e 18h45), o Domingo Legal bateu na liderança, com média de 21 pontos contra 16, do Domingão do Faustão.

A simpatia de Netinho justifica, em parte, a recepção do público. Boa-praça, ele faz apologia à sua condição de ?negrão? – ?os negros estão invadindo a TV? – e à origem humilde, o que provoca uma conexão imediata com a platéia do auditório e de casa.

Mas o componente mais importante na receita de sucesso foi a esperteza de construir um programa inteiro em cima da filantropia. Domingo da Gente quer realizar os sonhos dos descamisados. Como o do PM que queria dirigir por São Paulo fantasiado de Ayrton Senna e da adolescente escolhida para ser a princesa no dia do aniversário. Tenta inovar instalando uma cama no meio da rua para os ?mano? falar dos seus sonhos, mas o que pega é a caridade.

A princesa do dia nunca teve festa ou ganhou presentes em 18 anos de vida.

?Não estou acreditando?, diz a garota ao abrir a porta da casinha na periferia (?que tem goteiras por todo lado?). A mãe, abandonada pelo marido há muitos anos, sofre de esclerose múltipla. A música ao fundo parece trilha sonora de épico bíblico. Closes e mais closes nos rostos cheios de lágrimas:

da mãe, da garota, dos irmãos, do auditório e, certamente, do povo de casa.

A mãe ganha uma máquina de estampar camisetas para trabalhar em casa. A menina leva um banho de loja (das grifes patrocinadoras, é claro), recebe um novo visual no salão de cabeleireiros Negritude, tratamento com a marca de cosméticos que também está pagando a conta e, pasmem, um curso de manequim e um book de modelo.

Em síntese: na concepção do show biz de domingo, a solução para a indigência na periferia é resolvida com roupas, maquiagem e uma passarela. Vende-se a imagem de que qualquer garota maltratada pela pobreza pode tornar-se a próxima Gisele Bündchen. Para isso, basta escrever uma carta contando o seu drama. Mas tem de ser um GRANDE drama, porque se não for, não vale o show. (A jornalista Leila Reis escreve aos sábados neste espaço. E-mail: leilareis@terra.com.br)"

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