Saturday, 25 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

LAÇOS DE FAMÍLIA

QUALIDADE NA TV

LAÇOS DE FAMÍLIA

Alberto Dines

O caso em si é pequeno. Mas a orquestração para abafar as controvérsias nele embutidas mostra que está em curso no Brasil um processo de cartelização da mídia. Não está a serviço de forças políticas ou grupos econômicos. Está a serviço de si mesmo, negócio organicamente destinado à fabricação de hegemonias. Apoiado pelo formidável pacto entre o lúmpen esquerdoíde e o lúmpen liberalóide, está sendo construído no Brasil um pensamento simplista e idiotizado para servir de pasto ao grande rebanho consumidor de ismos em que se converteu a sociedade brasileira.

A questão da participação abusiva de crianças em gravações de novelas e programas denunciada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro poderia ter sido facilmente contornada se a Rede Globo tivesse utilizado seu venerando instinto de sobrevivência. Preferiu entregar-se à paranóia do poder, tipo "comigo ninguém pode".

É preciso levar em conta que esta cartelização compreende as seguintes peças do processo de circulação de informações no Brasil:

* A Rede Globo, uma das maiores redes mundiais, com os seus programas jornalísticos diários e seus subprodutos pseudo-jornalísticos, constitui referência única para 2/3 de consumidores de informação em todo o país.

* O jornal O Globo, o mais importante jornal do Rio de Janeiro, um dos quatro de circulação nacional, conservou dos tempos de vespertino sua entonação mobilizadora, à qual foi acrescentada um invejável plantel de opinionistas que conhecem os limites até onde podem avançar.

* O segundo mais importante semanário nacional, Época, impõe-se rapidamente como alternativa à Veja junto àqueles que se pretendem "multiplicadores de opinião".

* Parceria com o Grupo Folha, até há dois anos seu figadal adversário e agora parceiro, por omissão ou anuência, de seus principais interesses.

* O diário Valor Econômico (junto com a Folha) uma das duas bíblias do mundo econômico e do mercado publicitário.

* Adesão tática e psicológica do Grupo Abril, sócio do Grupo Folha nos provedores de internet UOL e BOL e que, em função de seus interesses na TV por assinatura, não tem condições de enfrentar a Globo neste segmento.

* Sociedade com os maiores grupos midiáticos brasileiros de norte a sul, firmemente conectados às forças políticas dominantes e dependentes da boa vontade da Rede Globo para mantê-los como retransmissores de sua programação.

Sobram: o Grupo Estado, o Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Diários Associados, Isto É, O Dia, Diário Popular. Com exceção do primeiro, empresa solidamente implantada e respeitada, os demais veículos ou grupos (por diferentes razões) não têm condições para constituir uma opção ao pensamento único emitido e imposto pelo cartel.

Na área televisiva, só a Record e o SBT apresentam um conjunto de circunstâncias materiais para assumirem-se como alternativa à corrente cartelizadora, mas carecem dos atributos subjetivos e políticos para ensaiar qualquer movimento autonomizador.

A ofensiva do cartel na última semana foi marcada pelos seguintes lances:

* Longa entrevista no Jornal Nacional (na quarta-feira, 15/11) do autor da telenovela, Manoel Carlos, condenando a ação do Ministério Público e do Juiz da 1ª Vara da Infância e da Adolescência. Argumentação capciosa, sem qualquer contraponto de opiniões contrárias, evidentemente manipulada para confundir a já desnorteada opinião pública. Num dos maiores grupos jornalísticos brasileiros não apareceu ninguém para dizer que decisão judicial enfrenta-se com outra decisão judicial, censura só existe em regimes de arbítrio onde os censurados não podem recorrer.

* Editoriais de Arnaldo Jabor e Jô Soares na mesma tecla reducionista e ardilosa.

* Organização de um "Ato Político Contra a Censura" na Gávea (Rio de Janeiro), não muito longe da sede da Rede Globo, ao qual compareceram apenas 100 artistas, todos funcionários da TV Globo, mas com repercussão de gigantesco ato na mídia do cartel. Destaque com foto no alto da primeira página de O Globo (dia seguinte, 17/11) e legenda informando sobre "a presença de escritores e políticos" (nenhum é nomeado). Paginas internas (a 13 inteira e um pedaço da seguinte), enorme matéria "É proibido proibir", onde o mirrado grupo de funcionários da Globo, melancolicamente acompanhado pelo indefectível vereador Carlos Minc, faz gestos contra a censura. O editorial deste dia é exemplar em matéria de falácias: mistura a ação do Ministério Público com a portaria do Ministério Público e com a portaria classificatória do Ministério da Justiça (amparada na Constituição), tentando confundir alhos com bugalhos e criar a sensação de que a Globo é um baluarte na luta contra a intolerância.

A operação estendeu-se à Época do fim de semana seguinte: título forte na capa ao lado do logotipo ("Censura ameaça novela das 8") e quatro páginas com o mesmo coquetel para lavagem cerebral, agora acrescido do lamento dos pobres astros globais contra a ameaça de desemprego. A única coisa menos indecente da matéria é o box onde estão relacionados abusos de outras redes de TV em matéria de programação.

A Veja (pg. 166-167) ostensivamente desprezou a oportunidade para lembrar seus esquecidos brios. Encolheu-se, fingiu de neutra.

A parceria Globo-Folha evidenciou-se mais uma vez no fim de semana: sábado, o jornal paulista joga a discussão para o âmbito sentimentaloide demagógico ("atores mirins falam do veto") e, no domingo, o carioca (sempre no alto da primeira página) bate na mesma tecla: "A rotina sem cenas dos atores mirins". No suplemento "TV Folha" (domingo), um dos assuntos dominantes é o caso dos atores mirins, como se fosse o cerne da questão.

Demonstração clara de como o cartel pode ser enfrentado está nas primeiras paginas de sábado do Estadão e do JB: basta assumir que o leitor não é um idiota e quer informação equilibrada e isenta de interesses.

Leia também:

Horror à controvérsia – lá e aqui – A.D.

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