Monday, 24 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Laura Mattos e Cláudia Croitor

REDES EM CONFLITO

"Choque de freqüências", copyright Folha de S.Paulo, 20/3/03

"Há 12 anos, na Guerra do Golfo, a rede norte-americana CNN surgiu para o mundo, quando a Al Jazeera ainda nem era nascida. No ataque ao Afeganistão, em 2001, a emissora de TV árabe alcançou fama mundial ao transmitir pronunciamentos do terrorista Osama bin Laden.

Agora, a cobertura da ação contra o Iraque é encarada pelas duas emissoras como a grande chance de atrair novos telespectadores e mudar a ordem mundial do mercado de TV. A CNN, que formaria pool com concorrentes para transmissão das primeiras horas da batalha, quer voltar a ser líder absoluta em seu país e manter sua supremacia internacional. Já a Al Jazeera pretende se consolidar mundialmente lançando um canal em inglês.

À Folha, Chris Cramer, presidente da CNN Internacional, e Dima Khatib, chefe de redação da Al Jazeera, falam dos planos jornalísticos para a guerra e de sua provável influência na disputa global por audiência.

Al Jazeera já prepara novo canal em inglês

Sediado em Doha, no Qatar, o canal de notícias Al Jazeera, a ?CNN árabe?, como ficou conhecido após o conflito no Afeganistão, prepara-se para um grande passo em sua expansão internacional: lançará em breve um canal de notícias em inglês.

Diferente do que ocorreu durante os bombardeios no Afeganistão, quando levou vantagem por ter um escritório em Cabul, a emissora, que transmite em árabe, enfrenta agora, no Iraque, o desafio de concorrer de igual para igual com as grandes redes de notícia dos Estados Unidos.

A seguir, trechos da entrevista à Folha concedida por e-mail por Dima Khatib, chefe de redação do canal, em Doha. (CC)

Folha ? O que mudou na Al Jazeera após o conflito no Afeganistão?

Dima Khatib ? Após a guerra, a Al Jazeera passou a não ser mais endereçada apenas a telespectadores árabes. Ficamos com mais credibilidade e percebemos nosso impacto internacional. A emissora está se expandindo, estamos abrindo escritórios pelo mundo.

Folha ? Como a Al Jazeera se preparou para a guerra?

Khatib ? Enviamos repórteres para vários lugares do Iraque e região, estamos estabelecendo contatos com analistas e personalidades do mundo árabe.

Folha ? Como o canal imagina que será o impacto da guerra, em termos financeiros e de audiência?

Khatib ? O impacto provavelmente será grande. Mas é difícil especular. O que posso dizer é que estamos trabalhando duro para dar à nossa audiência a melhor cobertura. Certamente será mais transparente que a cobertura da Guerra do Golfo, quando Al Jazeera ainda não existia.

Folha ? Em seu site, a Al Jazeera diz oferecer um jornalismo independente. O canal resiste à tentação de ser a ?voz árabe? no mundo?

Khatib ? Acho que a Al Jazeera representa o mundo árabe, tem a confiança desse povo. Somos a voz dos árabes de todo o mundo.

Folha ? Qual é a estratégia de expansão do canal?

Khatib ? O primeiro passo será um serviço de notícias na internet, se tudo der certo, em abril. Mais tarde, programamos o lançamento de um canal em inglês.

Folha ? Na Guerra do Afeganistão, a Al Jazeera teve seu escritório em Cabul bombardeado. Como o canal vai proceder desta vez?

Khatib ? Vamos permanecer no Iraque. Mas em nenhuma circunstância iremos colocar a vida de nosso pessoal em perigo. Penso que as circunstâncias dessa guerra são muito diferentes das do conflito no Afeganistão, pois não somos os únicos no Iraque.

?Não fazemos dinheiro com a guerra?, diz CNN

Com um orçamento em torno de US$ 35 milhões destinado só para a cobertura da guerra, a CNN ainda deverá ser a voz norte-americana de mais impacto no mundo, apesar da forte concorrência que sofre nos Estados Unidos.

A rede, que tenciona transmitir o conflito para mais de 200 países, em 250 milhões de domicílios, tem a expectativa de, assim, consolidar-se internacionalmente. Mas, a exemplo de todas as grandes TVs, teme a fuga em massa de anunciantes. ?Diferentemente do que muitos pensam, não fazemos dinheiro com a guerra?, disse Chris Cramer, presidente da CNN Internacional. Leia entrevista que concedeu à Folha, por telefone, de Atlanta. (LM)

Folha ? Como a CNN se preparou para a guerra contra o Iraque?

Chris Cramer ? Temos cerca de 500 profissionais em treinamentos especiais para trabalhar na guerra. Não vou dar números e estratégias exatas, algo que meus concorrentes adorariam saber.

Folha ? Que tipo de treinamento?

Cramer ? A CNN prevê que esse será o confronto mais perigoso que os jornalistas deverão cobrir em toda a história da TV. Então, ninguém irá à guerra sem treinamento. Todos aprendem primeiros socorros, a auxiliar feridos, evitar sequestros e lições sobre armamentos, não para uso, mas para reconhecimento. Eu fiz o curso. São aulas realistas, que assustam.

Folha ? Na Guerra do Golfo, a CNN se firmou. Grandes eventos trazem telespectadores. Para o sr., quais podem ser os impactos financeiros e de audiência?

Cramer ? As redes não fazem dinheiro com essa cobertura. A idéia de que a guerra pode ser boa para os negócios é até ofensiva. Esperamos, claro, que mais pessoas assistam à CNN e continuem conosco após a guerra. Mas a função de noticiar uma crise mundial não é negócio, é serviço público.

Folha ? O 11 de Setembro marcou o crescimento da Fox News e o início da competição acirrada com a CNN nos EUA. Como avalia que será o impacto da guerra nessa disputa?

Cramer ? A Fox News é um concorrente nacional, não internacional. Estão fazendo um bom trabalho nos EUA, mas, quanto ao mercado internacional, há outros concorrentes que me deixam acordado, e a Fox não é um deles.

Folha ? Os ataques terroristas também marcaram o crescimento de uma visão conservadora na TV dos EUA, que se mantém agora.

Cramer ? A CNN se baseia numa cobertura imparcial. Não tenho tempo para direitas ou esquerdas. O telespectador quer um noticiários imparcial e compreensível e visões de ambos os lados."

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"TVs dos EUA se unem para os primeiros momentos", copyright Folha de S.Paulo, 20/3/03

"A dificuldade de manter jornalistas em Bagdá obrigou as principais redes de TV dos Estados Unidos a organizarem um pool de cobertura para os primeiros momentos do confronto.

Dos cerca de 450 profissionais da imprensa que estavam na cidade na semana passada, metade teve de se retirar nos últimos dias.

Algumas emissoras, entre elas a NBC e ABC, decidiram voluntariamente solicitar a suas equipes que deixassem o local, que deverá ser o principal foco dos bombardeios. Outras, como a Fox News (que vem sendo chamada de ?TV do Bush? devido à cobertura ?nacionalista?), acabaram sendo expulsas pelo governo iraquiano.

Nesse início de conflito, as redes dos Estados Unidos deverão ter imagens de Bagdá apenas da CNN e da CBS, cujos profissionais ainda permaneciam na cidade até a manhã de ontem.

A agência de notícias Reuters, da Inglaterra, também contava com cerca de 20 pessoas na capital. A maioria, no entanto, reside no local e foi contratada pela empresa como free-lancer.

Outra inglesa, a BBC mantinha sete funcionários em Bagdá até ontem de manhã.

Entre os que permanecem no país, o clima é de alerta. Se a hostilidade se agravar, poucos deverão permanecer na cidade. Os correspondentes da árabe Al Jazeera também permanecem lá. Mas podem voltar à sede da emissora, no Qatar, em caso de perigo.

A maior parte dos jornalistas deverá enviar reportagens dos países vizinhos do Iraque. O principal ponto será o Qatar, onde está o Comando Central dos Estados Unidos. Na região, foi montado até um cenário, avaliado em US$ 1,2 milhão, equipado com ar condicionado e telões. Será o lugar em que o general norte-americano Tommy Frank dará entrevistas coletivas.

Brasil

Do Brasil, apenas Globo e Bandeirantes pretendem enviar equipes próprias ao Iraque. Na TV aberta, a transmissão do conflito deverá ficar restrita ao programas jornalísticos, flashes ao vivo e alguns especiais.

As melhores opções para acompanhar a guerra estão na televisão por assinatura, principalmente para quem paga os pacotes mais caros.

Dos brasileiros, os canais de notícias Band News (TVA/DirecTV) e Globo News (Net/Sky) planejam exibir notícias do conflito nas 24 horas do dia.

Dentre as principais redes estrangeiras, estão disponíveis no pa&iaiacute;s a CNN Internacional (em todas as operadoras), Fox News (apenas na Sky), além da BBC World (Net, Sky e DirecTV).

A árabe Al Jazeera também poderia ser captada por antena parabólica no Brasil.

Para isso, seria necessária a instalação de um receptor no aparelho de TV, além da compra de um cartão de assinatura semestral. Os serviços, no entanto, ainda são precários."

"Nova TV noticiosa para concorrer com a Al-Jazira", copyright Público, 20/3/03

"Chama-se Al-Arabiya e transmite desde o início do mês a partir do Dubai. Os seus promotores dizem querer ?oferecer uma alternativa sensata, equilibrada e inteligente? à Al-Jazira, a televisão do Qatar considerada a CNN do Médio Oriente e que se tornou conhecida ao emitir os vídeos com mensagens de Osama bin Laden, após os atentados do 11 de Setembro.

A Al-Arabiya está a emitir por satélite durante apenas 12 horas por dia, mas passará para canal de informação contínua de 24 horas dentro de poucas semanas ? ou mais cedo ainda, assim que estalar a guerra no Iraque. Tem blocos de informação todas as horas, dos quais três são jornais principais de 60 minutos cada, bem como debates diários para comentar a actualidade. ?Vamos oferecer aos telespectadores árabes uma alternativa, assegurando uma cobertura da actualidade ao abrigo de qualquer provocação deliberada?, disse à AFP Ali Al-Hedeithy, responsável pela Middle East News (MEN), proprietária da Al-Arabiya.

O principal accionista da MEN é um parente próximo do rei Fahd da Arábia Saudita, mas o canal Al-Arabiya é financiado essencialmente por investidores sauditas, kuwaitianos, libaneses e de outros países pró-americanos do Golfo. O seu orçamento médio anual para os próximos cinco anos é de cerca de 60 milhões de dólares.

A MEN detém também a estação por satélite Middle East Broadcasting Center (MBC), criada há quase dez anos, e o MBC-2, um canal de lazer em inglês a emitir desde Janeiro a partir do Bahrein.

O director da MBC News ? departamento responsável pela informação da Al-Arabiya ? Salah Negm, afirmou numa entrevista recente que o novo canal vai buscar a sua inspiração ao estilo da BBC, caracterizado pela ?precisão primeiro que a velocidade?, e ao da CNN, ?a prontidão acima de tudo?. A dificuldade estará em ?combinar os dois conceitos?. ?Queremos ser um espelho que reflete as notícias tal como elas acontecem sem as colorir?, disse o director, um egípcio com larga experiência no meio, e que já trabalhou na BBC e na Al-Jazira. ?Queremos apresentar as notícias e a actualidade num modo interessante e não através do sensacionalismo. Queremos dirigir-nos ao homem que trabalha na rua e ao decisor; apresentar todos os ângulos da questão.?

Pelos ecrãs da Al-Arabiya irão passar rostos conhecidos dos espectadores dos países árabes: o novo canal terá, por exemplo, ?pivots? da Síria, Líbano, Jordânia, Marrocos, Palestina e Egipto, que transitam de estações locais. Ao todo, o canal dispõe de cerca de 400 profissionais. A MEN tem uma rede de 32 delegações encarregues da cobertura da actualidade em diversas regiões do mundo, incluindo o Iraque, Israel, territórios palestinianos e Estados Unidos, enunciou Ali Al-Hedeithy.

?Liberdade responsável? e ?debates racionais?

Ali Al-Hedeithy afirma que a Al-Arabiya se guiará pela ?liberdade de informar?, e assegura que ?não há restrições a esta liberdade desde que ela seja uma liberdade responsável e que os debates sejam racionais?, numa alusão à alegada guerra feita pela Al-Jazira contra alguns regimes da região. O canal qatari caracteriza-se, desde o seu lançamento, em 1996, por uma franqueza de linguagem que tem escandalizado os regimes árabes, de tal modo que alguns expressaram o seu desacordo com tal atitude retirando os seus embaixadores de Doha (capital do Qatar) e até o próprio governo do Qatar já lhe fez algumas reprimendas. A Al-Jazira tem mantido no ar alguns ?talk shows? controversos em que os espectadores telefonam para o canal e, em directo, fazem duras críticas aos vários governos da região e aos Estados Unidos.

Por seu lado, a Al-Jazira diz que outros países árabes, nomeadamente a Arábia Saudita e o Bahrein, impedem a acreditação dos seus jornalistas, privando-a de cobrir directamente a actualidade desses países. ?As tentativas de mandar calar a Al-Jazira são inúmeras. Temos cerca de 200 queixas oficiais contra nós?, disse à AFP o director-geral do canal do Qatar, Mohammad Jassem Al-Ali. Interrogado sobre o lançamento da Al-Arabiya, este responsável afirma ?não ter temer a concorrência?.

?A Al-Arabiya vai roubar à Al-Jazira uma parte dos telespectadores que, por curiosidade, são atraídos por tudo o que é novo?, considera um especialista árabe em matéria de informação, sublinhando que a durabilidade de um meio de comunicação social se mantém não apenas pela sua credibilidade, mas também ?pela sua segurança financeira e política?. ?Entre o tom monocórdico, a insanidade dos ?media? controlados pelos governos e as guerras de palavras na Al-Jazira, há decerto espaço para outra estação de televisão?, afirma Hussein Amin, presidente do Departamento de Jornalismo e Comunicação de Massa da delegação da American University no Cairo. ?Se a Al-Arabiya conseguir tirar vantagens da plataforma de liberdade de imprensa aberta pela Al-Jazira, terá com certeza sucesso.?

?Contamos dotar a Al-Arabiya de um conselho de sábios que será responsável pela política do canal e da respectiva linha editorial para que ela fique ao abrigo da influências dos seus accionistas?, afirmou Ali Al-Hedeithy. Assegura que a Al-Arabiya estará em condições ?de se bater? com os outros ?media? estrangeiros que se destinam aos países árabes, sobretudo após os atentados do 11 de Setembro de 2001, como a rádio americana SAWA e os projectos de canais de TV americanas, israelitas e iranianas a emitir em árabe. A BBC e a Al-Jazira, por exemplo, assinaram recentemente um acordo de cooperação que lhes permitirá trocar informações e partilhar recursos. A BBC poderá também usar o canal satélite da Al-Jazira em Cabul e deverá ajudar a Al-Jazira a lançar um ?site? em inglês, e fornecer-lhe conselhos em matéria de formação e segurança.

As Alternativas às ?Grandes?

As pretensões do novo canal do Dubai podem até parecer de senso-comum para as audiências ocidentais acostumadas a emissoras independentes e a um simples premir de botão para obter um bom canal alternativo, mas são uma lufada de ar fresco na bolorenta filosofia de ?media? do mundo árabe. Outras estações da região, como a Abu Dhabi TV e a argelina Khalifa TV, tentaram competir com a Al-Jazira, mas a rede de 55 correspondentes da televisão do Qatar espalhados por mais de 35 delegações pelo mundo é um trunfo difícil de combater no campo das notícias de última hora.

A Abu Dhabi TV, que tem 25 correspondentes, está actualmente a emitir oito horas de informação e dispõe de vários correspondentes em Bagdad. A Khalifa TV está a transmitir 12 horas por dia desde Novembro passado e preparara-se para passar a 24 horas de informação contínua. Em Fevereiro passado, Al-Alam, uma estação iraniana iniciou também as suas emissões experimentais, e irá competir directamente com a Sahar, outra televisão do mesmo país.

Por outro lado, há também televisões árabes com a política contrária: dirigir-se a espectadores não-árabes. Como é o caso da saudita Al-Majd 2, o primeiro canal islâmico por satélite em língua inglesa, que começou a transmitir em Novembro último, a partir de estúdios na Cidade de Media do Dubai, de Riad."