Tuesday, 25 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Leila Reis

BABÁ & GUETO

“Babá? e ?Gueto? são pobres, mas honestos”, copyright O Estado de S. Paulo, 16/03/03

“A Record trocou Joana, a Virgem por Um Amor de Babá e está muito satisfeita. A segunda cucaracha estreou no horário nobre com 3 pontos, ou seja, 1 ponto a mais de média no Ibope (na Grande São Paulo) e, segundo as expectativas da emissora, pode bater nos 4 pontos. É curioso comemorar números tão irrisórios, mas é assim que funciona. Na Globo, a luz vermelha acende quando um programa na faixa nobre não chega aos 30 pontos de média, mas no seu entorno a realidade é outra.

Audiências de 4, 5 e 6 pontos são comemoradas com fogos de artifícios. Isso quer dizer que há patrocinador interessado nesses números e, sendo assim, a sobrevivência no negócio está garantida.

No caso das novelas importadas, a relação custo/benefício é fator determinante. A Record paga R$ 10 mil por capítulo de Um Amor de Babá, enquanto – diz a lenda – a Globo desembolsa, em média, R$ 100 mil por edição diária de suas tramas. Dentro desse raciocínio, o retorno comercial tanto da pobre quanto da rica é proporcional.

Se 3 pontos de média são festejados, imagine quando uma atração registra 14 pontos, como a estréia da nova temporada da série A Turma do Gueto. A audiência da dramatização do cotidiano da periferia, estrelada pelo pagodeiro Netinho na Record, deve emagrecer, mas a emissora já se dá por feliz se parar nos 8 pontos de média.

O público que pára diante do aparelho de TV para prestigiar esses programas recebe produtos semelhantes. Trata-se de uma ficção simples, quase ingênua, embalada toscamente do ponto de vista técnico.

Um Amor de Babá é a história recorrente dos dramalhões cucarachos e nacionais da moça pobre que se apaixona pelo homem rico – e comprometido. Claro que ela será maltratada como uma gata borralheira durante centenas de capítulos até ser feliz para sempre nos braços do príncipe. A novela tem seu pedaço ambientado nas mansões dos ricaços, mas também tem sua quota de periferia – em Caracas -, berço da heroína.

A Turma do Gueto é movida pelo cotidiano pouco glamouroso da vida na periferia, repleto de desencontros amorosos, problemas com a violência e conflitos comezinhos dos despossuídos.

Esteticamente, os dois programas assemelham-se. Dramaticamente são colegiais. Os conflitos desenrolam-se de maneira quase recitada e os diálogos são bem pobres. A interpretação chega a ser caricata: os vilões são demônios e os bons, santos. No caso da novela venezuelana trata-se de estilo. Afinal, México, Venezuela e Colômbia tornaram-se exportadores de ficção para TV com esse modelo, esculpido a pancake e laquê. No caso da série brasileira, ao que parece, é falta de domínio da técnica, inexperiência mesmo. Dramaticidade é confundida com gritaria na turma do Netinho.

Então, o que explica a adesão desse público formado pelo padrão de qualidade da Globo?

Há várias hipóteses. A primeira é o gosto pela diversidade tão decantada nesse terceiro milênio. O telespectador é capaz de absorver vários padrões de programas e narrativas. Meio que se libertou da ditadura do sofá combinando com o vestido da heroína que a Globo impôs em suas novelas. Está aberto para o mal arrumado, aquele que encontra fora da TV.

Outra, talvez mais importante, é que parte da audiência se reconhece nessa teledramaturgia. Os pobres da família da babá Fabiana e do bairro onde leciona o professor Ricardo (Netinho) aparecem na TV de uma maneira humanizada, cidadã, e não apenas como bandidos em corredor de delegacia ou em disputas humilhantes nos shows de auditório.

Ou seja, nessa ficção importada e na brasileira, o cotidiano dos pobres tem nuances dramáticas, humoradas e até românticas. Como na vida de todo mundo.”

 

CRÍTICA DIÁRIA

“No Ar”, copyright Folha de S. Paulo

14/03/03 – Guerra para crianças

A MTV brasileira e as MTVs do mundo, ligadas à corporação americana Viacom, estão transmitindo a entrevista/debate com Tony Blair, defensor da guerra. No Brasil, é hoje, às 22h.

Enquanto isso, a MTV original acaba de recusar nos Estados Unidos um comercial contra a guerra, realizado pela premiada documentarista Barbara Kopple.

Ainda que Blair tenha sido questionado pelos jovens telespectadores convocados para o ?fórum?, não se ouviu e não se vai ouvir na MTV o outro lado, contra à guerra.

Já no ano passado havia sido assim, com o ?fórum? armado pela MTV em torno de Colin Powell, o secretário de Estado que já então defendia o ataque ao Iraque.

Jovens podem falar, questionar, mas estão ali primordialmente para ouvir os argumentos de Blair, Powell -de quem a Viacom quiser.

Ah, outra coisa: comerciais contra o ataque militar estão vetados na MTV americana, mas os de alistamento militar seguem liberados.

Blair e George W. Bush acertaram o discurso outra vez. Um e outro se reencontraram no sentimento antifrancês.

O porta-voz de Bush saiu espumando na Fox News contra a resistência francesa. Assim também fizeram os porta-vozes informais de Blair.

Mas o de Bush foi além e defendeu o boicote aos produtos franceses:

– Você está vendo o povo americano manifestar-se espontaneamente e esse é um direito do povo americano.

E assim a campanha, com todo o populismo que carrega, vai tomando ares de uma política de Estado.

Não é mais só a piada de mudar o nome das batatas fritas de ?french fries? para ?freedom fries?, omitindo a suposta origem francesa. Ou de enviar e-mails raivosos aos distribuidores de queijo.

Agora, uma parlamentar republicana entrou com projeto para permitir que os corpos dos soldados enterrados na França sejam repatriados aos EUA. E outro parlamentar republicano propôs vetar a participação da França na reconstrução do Iraque pós-guerra.

Aos poucos vai deixando de ser engraçado para se tornar grotesco.

E o esforço pacifista de Lula rendeu frutos, finalmente. Sua proposta de paz foi divulgada pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan, e ganhou destaque até na Fox News.

FHC deve estar se mordendo.

13/03/03 – Dois pobres latinos

– O foco diplomático está no Chile e no México, dois pobres países latino-americanos.

Era Andrea Koppel, na CNN, reproduzindo a informação de ?funcionários graduados? do governo americano de que oito dos nove votos necessários na ONU já estariam na mão de George W. Bush.

Falta um para conseguir a sonhada ?vitória moral?, outra expressão da CNN, e fazer a guerra mesmo com os vetos da França e da Rússia.

O problema é que nenhum dos ?dois pobres países latino-americanos? se decide.

O presidente do México, comicamente, arrumou o que foi descrito como uma ?cirurgia de emergência? de hérnia do disco, que ?pegou muitos mexicanos de surpresa?.

Ele vinha com a agenda cheia de viagens, de repente parou tudo para negociar o Iraque, ontem -e de repente, horas depois, apareceu com a cirurgia de emergência. Fica quatro dias no hospital.

No Chile, o problema é outro.

As redes americanas, bem como a imprensa e as agências de notícias, não repercutiram uma manchete do jornal londrino ?The Observer? de quase duas semanas atrás.

O jornal revelou a solicitação, feita por uma das agências de inteligência dos EUA, para que os diplomatas dos países ?pobres? do Conselho de Segurança, entre eles o Chile, fossem grampeados.

Angola e outros engoliram o grampo. O Chile, não.

O presidente Ricardo Lagos exigiu uma explicação, cobrou de Tony Blair e outros durante a semana toda.

Mas o Chile é um pobre país latino, na expressão da CNN -que já anunciava ontem como está sendo feita a ?negociação? do nono voto no Conselho de Segurança:

– O Chile quer um acordo de livre comércio com os EUA. Isso é algo que a administração Bush pode tentar acelerar… Não será, necessariamente, dinheiro duro, frio.

Mas será dinheiro.

E, se o Chile e o México não se venderem, ainda assim é possível para os EUA sonhar com uma ?vitória moral?, pequena que seja.

Ontem o porta-voz de Bush, Air Fleischer, em entrevista coletiva mostrada pela Fox News, insistia que a maioria real no Conselho de Segurança da ONU é de oito votos:

– Nas Nações Unidas você precisa de uma ?supermaioria?, que são nove.

Suposto líder latino, o Brasil não é citado em lugar nenhum.

12/03/03 – Com ou sem

Duas semanas atrás, uma pesquisa da ABC trazia a maioria dos americanos dizendo que o país devia se esforçar pelo apoio da ONU.

Não mais. Na pesquisa da CBS, ontem, a maioria já se dizia contra a própria ONU. Metade quer ?ação militar já?, nas palavras da rede.

De novo, a luta pelos corações e mentes americanos vai sendo vencida pela direita.

As vozes liberais -no sentido americano da palavra- não são mais ouvidas, inclusive as de ABC e CBS.

A conservadora Fox hoje vence em audiência, muitas vezes, as outras três grandes redes de TV aberta. E a Fox News, canal de notícias da Fox, deixou a CNN para trás.

Se o 11 de setembro representou um ponto de revolução, como se disse tanto, foi na opinião pública americana.

Hoje, para cada Martin Sheen que fala contra a guerra, há um John Travolta que fala em favor dela, na Fox News.

Pesquisas como a da CBS permitem que Donald Rumsfeld, o secretário de Defesa, afirme que França e Alemanha são ?velha Europa?. Isso, semanas atrás. Ontem, foi além.

A BBC retratou o horror do governo britânico com a declaração de Rumsfeld de que os EUA estão preparados para atacar o Iraque ?com ou sem? a Grã-Bretanha:

– Se puderem participar, serão obviamente bem-vindos… Se não puderem, há maneiras de contornar.

Ao contrário do que dizem as vozes liberais, W. Bush não está isolado em sua obsessão pela guerra. Tem os EUA com ele.

Um membro do governo israelense disse à TV israelense que o comando das forças americanas já deu ordem para atacar na próxima terça, 18.

Era o que o site conservador -e sensacionalista- Drudge Report berrava ontem.

Boris Casoy criticou mais uma vez, ontem, ?a execução lamentável, as trombadas, os desencontros? do Fome Zero. O programa vai mal em quase toda a opinião pública.

Só vai bem, com torcida aberta e acrítica, na Globo. Era lá que se ouviam, esta semana, coisas como:

– Combater a fome combatendo o desperdício: os produtores de caju do Nordeste querem que o alimento seja incluído no Fome Zero…

Ou então, noutro dia:

– Comida: uma riqueza que não precisa ser armazenada, mas também não precisa ir parar no lixo…

Era uma sugestão para sobras de restaurantes.”