Friday, 01 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Leonel Brizola

VEJA vs. BRIZOLA

"?Veja?: liberdade de imprensa ou terrorismo?", copyright Jornal do Brasil, 10/11/01

"Investigar, denunciar irregularidades, seja na vida pública, seja na esfera privada, é uma atividade inerente ao desempenho da imprensa como instituição democrática. Poder fazê-lo, assim como divulgar idéias, são os fundamentos da liberdade de imprensa que nós, que combatemos a ditadura, tanto lutamos por reaver. Usar, porém, essa franquia do estado de direito, para distorcer, intrigar e infamar, sem qualquer escrúpulo, os adversários políticos, aqueles que não se tornam dóceis à coação ideológica dos conglomerados empresariais de comunicação, não é apenas uma contrafação da liberdade de imprensa: é o próprio terrorismo midiático, com todo o poder econômico e político desses impérios, capaz de causar estragos em vidas e reputações construídas ao longo de décadas.

Muitos devem ter visto como procedeu, em sua edição passada, a revista Veja. Arremessou contra a minha honra sete páginas de insinuações maldosas, obtidas da maneira mais torpe possível, servindo-se inclusive de situações de natureza familiar e privada, que só como pai e avô, e não como homem público, me atingem. Felizmente, trata-se de uma revista desacreditada e decadente, descredenciada perante as pessoas mais bem informadas e a própria imprensa, por uma história de manipulações e falta de ética. Por isso, tudo o que publicou foi, praticamente, ignorado por quem faz jornalismo com um mínimo de seriedade. O que pretendia ser um petardo contra o Leonel Brizola, fartamente espalhado por out-doors em todo o Brasil, saiu chocho e desmoronou-se, e não devo ter a hipocrisia de negar que teria de ser assim, pois se chocou contra uma vida pública honrada e honesta, sobre a qual nem a ditadura, com todo o seu poder discricionário, pôde lançar máculas.

Com efeito, o que a revista divulgou é tão falso, tão distorcido e tão apegado ao seu propósito de caluniar, que nem ela própria ousa acusar-me de nada, claramente. Fica, maldosamente, no pântano das insinuações. Não afirma, induz. Não revela, oculta. Não informa, distorce. Trata como escandalosa uma evolução do patrimônio herdado por minha querida Neusa que foi apenas fruto de nosso trabalho, meu e dela, e de uma vida austera e marcada pelos sofrimentos do exílio. Omite que, aplicado aquele patrimônio numa simples caderneta de poupança, sem esforço nem risco, o resultado seria o mesmo. Ou que, se estivesse em dólar, mesmo na mais modesta aplicação, teríamos oito vezes mais. Esquece a renda obtida pela produção das fazendas – e são no Uruguai porque Neusa teve de vender as terras gaúchas, que valiam três vezes mais, por conta da ditadura e do exílio. Talvez, acostumados com suas propriedades de lazer, achem que o campo só sirva para jogar golfe. Os fotógrafos que lá mandou bisbilhotar não encontraram senão uma casa simples, sem luxos – porque em lugar deles, sempre investimos na produção – e nada tiveram a publicar senão retratos do campo aberto.

Tudo o que possuo e o que foi transferido aos meus filhos provém do patrimônio herdado por minha esposa e, até, parte disto perdeu-se com as perseguições e dificuldades que vivemos com a ditadura e o exílio. O restante foi administrado como pudemos, aprendendo com nossos erros e tentando acertar com nosso próprio esforço. De volta ao Brasil, continuamos a cuidar, e muitas vezes o fato de eu ir ao Uruguai, zelar pela nossa fonte de sobrevivência e de segurança para minha família, foi motivo de intrigas e deboches de meus adversários políticos, alguns deles, sim, enriquecidos na vida pública. A própria Veja jamais deixou de, podendo, tratar essas viagens para o campo, para cuidar e acompanhar a faina do campo, como se fossem viagens de lazer por salões iluminados do exterior.

Conforta-me saber que os homens de bem, a imprensa em geral, a opinião pública e até meus adversários leais repudiaram essa sordidez. É muito para mim, mas não é o bastante, como não será, perante a Justiça do meu país, responsabilizar a revista e seus agentes – chamo assim em homenagem à maioria dos jornalistas dignos e comprometidos com a verdade – responsáveis por essa torpeza.

Eles vieram buscar uma luta que, com todo o seu poder e meios de comunicação, não são capazes de vencer. E não são porque o árbitro dessa disputa, aquele que vai fazer o julgamento, é o povo brasileiro. Perante esse povo, ao qual jamais me eximi de dar esclarecimentos ou explicações, sou capaz de exibir e justificar o que possuo e a origem do que possuo. Afora os proventos dos cargos que exerci e das pensões legais deles advindas, nenhum tostão recebi dos cofres públicos, muito menos favores e concessões. Meus detratores podem fazer o mesmo? Podem explicar como um grupo de aventureiros que transitou dos Estados Unidos para a Argentina e que de lá veio tocado para o Brasil, cresceu tanto que se tornou esse império de negócios? Os Civita podem explicar quanto e como engordaram seu patrimônio nos tempos do autoritarismo? As concessões e verbas publicitárias que receberam, canais, terrenos para seus hotéis? Podem resistir os Civita aos retratos que fazem deles os que os conheceram bem, como faz o jornalista Mino Carta em seu livro O Castelo de Âmbar?

Apenas está começando um confronto entre a verdade e a mentira, entre a honradez e o mundo das espertezas e vantagens, entre um império construído com a riqueza de um país e de um povo ao qual jamais amou e defendeu e um homem que, com os defeitos e críticas que possa, como todo ser humano, merecer, nunca deixou de servir com coragem e dignidade ao povo brasileiro e a esta nação. Quem enfrentou uma ditadura, o poder armado, o exílio e continua enfrentando hoje esses núcleos poderosos da banda podre das elites brasileiras, como é o Grupo Abril, não há de se intimidar com denúncias falsas de um jornalismo de quinta categoria que, por ordem dos seus donos ou dos chefetes que os servem, Veja manda fazer contra mim. (Leonel Brizola é ex-governador do Rio de Janeiro e presidente de honra do PDT)"

 

"Brizola quer processar filho, Abril e PT gaúcho", copyright Folha de S. Paulo, 8/11/01

"O presidente nacional do PDT, Leonel Brizola, disse ontem que vai processar seu filho José Vicente Brizola, o governo do Rio Grande do Sul e a família Civita, proprietária da revista ?Veja?.

Brizola identifica seu filho e o governo gaúcho, do PT, como as fontes da reportagem publicada pela ?Veja?, que aponta um crescimento supostamente irregular de seu patrimônio pessoal.

Os processos serão de natureza criminal, para responsabilizar os autores da reportagem, e cível, para exigir indenização por danos a sua imagem. Segundo ele, o governo gaúcho quer difamá-lo para tentar desviar a opinião pública da crise criada pelas denúncias de ligação do governo de Olívio Dutra (PT) com o jogo do bicho. Seu filho José Vicente se filiou em 2000 ao PT gaúcho e é diretor da Loteria Estadual.

Brizola nega qualquer irregularidade em seu patrimônio.

A Folha não conseguiu entrar em contato ontem à noite com a assessoria de imprensa da editora Abril para comentar as acusações.

O chefe da Casa Civil do Rio Grande do Sul, Flávio Koutzii, afirmou que as denúncias publicadas na reportagem de ?Veja? contra Leonel Brizola não partiram do governo gaúcho. ?A revista sempre faz a política do palácio do Planalto. Acho que o governador Brizola atacou o palácio errado?, disse.

A Folha entrou em contato ontem à noite com a assessoria de José Vicente Brizola, que prometeu localizá-lo. Até às 21h, não obteve retorno."