Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

"Livros demais, leitores de menos", copyright Folha de S. Paulo, 13/05/01

ARMAZÉM LITERÁRIO

Autores, idéias e tudo o que cabe num livro

ENTREVISTA / ROGER CHARTIER

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Considerada a grande estrela da 10? Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, junto com o espanhol Manuel Vázquez Montalbán, o historiador francês Roger Chartier está surpreso com os números da feira que será aberta na quinta-feira no Riocentro. Num país em que cada pessoa compra em média 0,9 livro por ano (tirando os didáticos) é realmente de espantar que mais de 450 mil pessoas sejam esperadas num evento em que devem ser lançados cerca de 1.200 títulos novos. Chartier não quer, de forma alguma, estragar a festa dos outros. Mas não se furta a refletir sobre que modelo de mercado editorial estaria por trás de números tão grandiosos.

?A multiplicação de títulos não é necessariamente uma indicação de saúde editorial?, disse o maior especialista em história do livro e da leitura ao Jornal do Brasil, dias antes de embarcar para o Rio de Janeiro. ?Em toda parte do mundo, e creio que o Brasil não seja exceção, tem sido observada uma redução das compras de livros pelos leitores. Não uma redução do total de livros vendidos, mas da porcentagem de exemplares por leitor?, esclarece. Essa gradativa diminuição é verificada com mais ênfase no meio intelectual, que tradicionalmente comprava muitos livros.

Segundo Chartier, o fenômeno demonstra uma transferência dos gastos dessa parcela da sociedade para outras atividades culturais, como a música, o cinema, o teatro, o turismo e a internet. ?A resposta dos editores tem sido a multiplicação dos títulos, de forma a atrair a atenção dos leitores para algum tema ou autor e, assim, compensar as perdas com a queda do número médio de exemplares vendidos por título?

O resultado é que os livros ficam mais caros, já que as tiragens são reduzidas. E aumenta-se a necessidade de publicar best sellers, grandes êxitos editoriais que possam ajudar a manter no catálogo outros títulos sem apelo comercial. ?Uma das preocupações dos editores tradicionais é, que dentro das grandes corporações editoriais, que hoje estão tomando o mercado mundial, há uma tendência a exigir que cada livro seja rentável?, comenta Chartier. ?Já na velha economia, havia uma idéia de que os best sellers serviam para garantir ao editor a publicação de livros de importância cultural que não tivessem alcance comercial imediato.? O mercado editorial internacional – e o brasileiro está entre os 10 maiores do mundo – viveria hoje um dilema: como medir sua rentabilidade? Pela vendagem de cada livro publicado ou ou pelo equilíbrio entre os livros que deram lucro ou prejuízo?

Outro problema verificado pelo pesquisador, pioneiro dos estudos sobre o livro e a história da leitura, é a desvalorização do hábito de ler entre os jovens. ?Particularmente entre os homens, há uma resistência em se apresentar como leitor de romances. Mesmo os que vão à universidade estão deixando de comprar livros, preferindo as fotocópias, as apostilas e mesmo com os empréstimos em bibliotecas?, afirma.

A única forma de reverter esse quadro, segundo Chartier, é uma política de incentivo à leitura efetiva. Para ele, Bienais, como a do Rio de Janeiro, são poderosos veículos de divulgação e valorização do livro. ?Percebo que inciativas como essa têm tido muito êxito. Os editores contam que, muitas vezes, no período de uma feira do livro, vendem mais do que em todo o ano. É preciso incentivar a presença da cultura escrita na vida das pessoas. Para isso, é necessário fazê-la visível?, assinala.

Exemplo perfeito de academic star, Chartier esteve até domingo na Feira do Livro de Buenos Aires, na segunda deu uma passadinha nos Estados Unidos, onde dá aulas na Universidade da Pensilvânia e na terça embarcou para a França, onde orienta uma série de pesquisas na École des Hautes Études en Sciences Sociales. De lá, ruma ao Brasil, país que visita pela quinta vez, e onde deve desembarcar hoje. Durante uma semana, o historiador terá agenda cheia: autografará seu último livro publicado aqui, Cultura escrita, literatura e história, fará uma conferência no dia 20, na Bienal do Livro, sobre Linguagem e literatura na idade da textualidade e participará do seminário Os desafios do texto: do leitor ao navegador, de 22 a 25 de maio, no Centro Cultural Banco do Brasil."

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"- O senhor não estaria menosprezando a revolução promovida pela informática quando diz que ela nem se compara com a grande revolução do livro, que não foi nem a de Gutenberg, mas a passagem do rolo ao códex?

– Certamente a passagem do rolo ao códex foi, até agora, a mais importante, porque transformou dos hábitos de leitura e nos legou o livro tal como o conhecemos. Nesse sentido, as coisas não mudaram muito depois de Gutenberg. Por exemplo: a idéia de um livro com páginas, numeração, índice, capa, surgiu com essa primeira revolução, que também liberou o leitor para escrever ao mesmo tempo em que lê, coisa impossível quando se segurava o rolo com as duas mãos.

– Quais as principais mudanças trazidas pelo computador?

– São três: a leitura descontínua, a leitura hipertextual e a leitura tematizada. Na tela do computador, a prática de leitura se organiza geralmente a partir de temas. Os textos eletrônicos são consultados mais como banco de dados do que como obra. Com isso, há uma tendência à fragmentação, porque perde-se a referência à obra completa, como início, meio e fim. Outra coisa interessante desse suporte é o hipertexto, que oferece a oportunidade para o leitor de romper com a ordem seqüencial do texto impresso e praticar uma leitura particular, que continuamente introduz textos dentro de outros textos. Com isso, a leitura de um texto de história, por exemplo, pode transformar-se totalmente. O leitor pode consultar documentos digitalizados, conferindo as notas do autor com as próprias fontes.

– Em quanto tempo o senhor acredita que a informática seja capaz de produzir um livro eletrônico perfeito? Como ele seria?

– A questão diz respeito ao suporte, ao objeto em que se transmite o texto. Atualmente, o livro eletrônico não é um livro, mas um computador. Como tal, ele vem correspondendo bem aos textos de natureza enciclopédica, que supõem uma leitura fragmentada, já que não foram feitos para se ler da primeira página até a última. Há uma adequação perfeita do suporte a este tipo de livro e, por isso, algumas enciclopédias, como a Britânica, não conhecem mais a edição impressa. Mas, para romances e ensaios, em que se supõe uma leitura mais contínua, é preciso aquele tipo de livro que possa ser levado para todo lugar, para a mesa, para a cama, para o jardim. Se cai um livro, não há problema, se cai um computador …

– Mas o lançamento do e-paper pode mudar esse cenário, não?

– Sem dúvida. Pela primeira vez seria possível desvincular a difusão do texto eletrônico da tela do computador. Com o papel eletrônico e a tinta eletrônica, seria possível utilizar qualquer suporte para transmitir e recarregar um texto. Uma vez carregado, o papel poderia ser usado num livro, numa parede, numa roupa. Seria uma revolução profunda. Em vez de ser jogado fora ou guardado numa biblioteca, o livro seria simplesmente recarregado. Encontrei os pesquisadores do MIT que inventaram essa tecnologia e o mais interessante é que seu objetivo é recuperar a forma do livro tal como a conhecemos – com páginas para folhear, por exemplo -, de maneira que não se quebrem velhos hábitos de leitura. Um livro feito com papel e tinta, ainda que eletrônicos.

"Produzida para a coleção Espacios de Lectura, da Fondo de Cultura Económica, esta tradução das entrevistas entre Roger Chartier e quatro intelectuais mexicanos de formação diversa, (antropólogo, editor, historiador, crítico literário e pedagogo – todos envolvidos com pesquisas sobre história da leitura), revela-as curiosamente densas para o gênero e, ao mesmo tempo, generosas com quem deseja conhecer tanto as idéias do pensador francês, quanto compreender melhor a complexidade da história da cultura escrita.

O livro tem um prólogo do entrevistado e está dividido em cinco jornadas temáticas que, no entanto, se trançam durante todo o registro, como supõe a liberdade da palavra oral. Apresenta ainda um epílogo, remetendo ao núcleo das preocupações de Chartier, cuja bibliografia em francês e espanhol aparece em apêndice.

Não é compreensível que esta edição brasileira não haja acrescentado as traduções de obras do historiador em português: História cultural entre práticas e representações (Difel, l989); A ordem dos livros (UnB, l994); Práticas de leitura (Estação Liberdade, 1996); A aventura do livro (Unesp, 1998), além das obras partilhadas, como História da vida privada (Companhia das Letras, 1997); História da leitura no mundo ocidental (Ática, 1998); O poder das bibliotecas (Editora UFRJ, 2000) e Leitura, história e história da leitura (Mercado de Letras).

Na primeira jornada, os diálogos se desdobram sobre a história da cultura escrita, abrangendo as principais mudanças que ao longo dos séculos afetaram a forma do objeto escrito, desde sua produção e reprodução, às modalidades de sua circulação e às práticas de leitura, convergindo para a chamada crise do livro entre os sonhos e pesadelos de uma biblioteca universal.

Passam depois ao inventário dos lugares, ou seja, ao mapeamento desta história do livro, segundo a geografia de sua ocorrência, numa perspectiva forçosamente comparativa, dada a diferença de experiência cultural entre o europeu e os americanos ao dialogarem sobre o tema. Não será possível omitir a discussão sobre o papel dos intelectuais e a relação do livro com a educação que se tornou indissolúvel na sociedade moderna.

A terceira jornada se ocupa da literatura e da leitura, recorrendo os usos estéticos da escrita e da impressão, abrindo espaço para um tema favorito de Chartier: o papel do leitor e da leitura, segundo ele ignorados pela crítica literária, mesmo quando se trata de obras canônicas como as de Molière e Shakespeare. Não faltará a recorrência a Borges, clamando pela dependência que a obra tem de seus leitores para existir, tal como já o lembrara Sartre em sua reflexão sobre o que é literatura, impondo a questão da abordagem deste ato efêmero mas decisivo.

Para além desta apropriação, digamos, privada, pelo leitor, há outra de caráter mais público e político, desenvolvida a partir do Iluminismo, com o aparecimento da crítica, tema desenvolvido na quarta jornada. É como um inventário, agora das práticas de leitura que incidem sobre a formação e controle da opinião, sobretudo das que são oriundas do aparecimento do jornal. Chartier, historiador de eventos mais que de monumentos, detém-se sobre os registros que, segundo ele, na ordem da imprensa, pesaram tanto quanto a invenção de Gutenberg.

Por fim, não podem fugir ao debate sobre os efeitos produzidos pela revolução do texto eletrônico na organização da escrita e suas conseqüências sobre pensamento a respeito de criação, propriedade, recepção.

Procurando alcançar com seus velhos leitores, uma conversa mais pessoal, Chartier provoca um epílogo para falar das relações entre historiadores e ficcionistas, que, partilhando formas retóricas na estruturação dos relatos, têm, no entanto, cada qual a seu modo, compromissos de apontar as várias legibilidades do mundo nos novos horizontes da leitura e da escrita no século atual.

É um livro deve sair das estantes universitárias e acadêmicas para ajudar a sociedade a pensar os poderes que a cultura escrita (impressa) engendrou. Suas limitações não se referem pois, aos temas e sua abordagem, mas às próprias fronteiras do gênero escolhido. E até nisto é coerente com seu objetivo. (Eliana Yunes é doutora em Letras e Lingüística pela PUC-Rio e pesquisadora de Teoria da Leitura)"

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