Saturday, 25 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Lucas Figueiredo

Autores, idéias e tudo o que cabe num livro

Morcegos negros – PC Farias, Collor, máfias e a história que o Brasil não conheceu – Editora Record, 436 pág., R$ 28,00 – <www.editorarecord.com.br>

Dezembro de 1992. Os escândalos de corrupção no governo levam o presidente da República, Fernando Collor de Mello, a ser destituído do cargo pelo Senado e a ficar oito anos impedido de se candidatar a cargos públicos. Nas ruas, o povo comemora e canta o Hino Nacional, com a certeza de que um novo Brasil está nascendo. Uma pergunta, no entanto, fica sem resposta: onde foi parar o dinheiro – US$ 1 bilhão, segundo cálculos da Polícia Federal – que o chamado Esquema PC faturou durante o governo Collor?

Agosto de 2000. Menos de oito anos depois do impeachment, sem nunca ter sido condenado pela Justiça, Fernando Collor volta à cena política nacional. O empresário alagoano Paulo César Farias, ex-tesoureiro de campanha de Collor, está morto, mas o dinheiro arrecadado em nome do ex-presidente nunca foi recuperado.

Durante quatro anos, o jornalista Lucas Figueiredo, repórter da Folha de S.Paulo, buscou pistas para decifrar os mistérios do Esquema PC. Nesse período, reuniu provas na Itália, na Suíça, nos Estados Unidos, na Argentina e no Uruguai – e também em Alagoas, é claro – que revelam que os negócios do ex-tesoureiro de Collor iam muito além de corrupção.
Em Morcegos negros, Lucas Figueiredo mostra que o Esquema PC tinha conexões com o crime organizado internacional. Vasculhando documentos sigilosos no Brasil e no exterior, o jornalista teve acesso a dados referentes às movimentações financeiras entre PC Farias e seus parceiros: mafiosos italianos pertencentes a uma das maiores redes internacionais de narcotráfico. São transações frenéticas, feitas em quase uma dezena de países espalhados por três continentes.

Morcegos negros também revela como as instituições brasileiras tiveram acesso a muitas dessas informações e, mesmo assim, deixaram impunes crimes que vão de tráfico de drogas a assassinato – incluindo o de PC Farias e sua namorada, Suzana Marcolino. Ao final do livro, o leitor poderá concluir por que o dinheiro do Esquema PC nunca foi recuperado – apesar de parte dos recursos ter sido identificada em contas bancárias no exterior, conforme
mostra um fluxograma, até agora inédito, preparado pela Polícia Federal brasileira a partir de informações fornecidas pela Itália.

O leitor saberá ainda como Collor conseguiu atravessar os oito anos do seu exílio político de forma suave e sem problemas financeiros. E também saberá como elle prepara sua volta.

O autor

Mineiro de Belo Horizonte, 31 anos, Lucas Figueiredo é repórter da Folha de S.Paulo desde 1994, trabalhando em São Paulo e Brasília. Especializou-se em coberturas investigativas, e participou, com destaque, da apuração de diversos casos de repercussão nacional, como o escândalo do Sivam, o tráfico de influência na privatização da Telebrás, o massacre de Eldorado de Carajás e diversos episódios de desvio de dinheiro público. Começou a investigar os negócios de PC Farias e Fernando Collor depois de participar da cobertura da morte de Paulo César em Maceió, em 1996. Em março de 1997, revelou, em
reportagens publicadas na Folha, a existência de transações financeiras entre Paulo César Farias e mafiosos italianos pertencentes a uma das maiores redes internacionais de narcotráfico.

Clóvis Rossi

[Prefácio para Morcegos negros – PC Farias, Collor, máfias e a história que o Brasil não conheceu, de Lucas Figueiredo. Título da redação do Observatório]

Morcegos negros parece uma novela policial. Pena que não seja. Parece também uma novela política. Pena que também não seja.

É, sim, uma história política e uma história policial. Mas não é novela, não é ficção. É a dura e triste realidade a que foi reduzido o Brasil no período Fernando Collor de Mello: a política transformada em noticiário policial. Uma situação, aliás, de que o país não mais conseguiu emergir, pelo menos até o momento em que o livro do jornalista Lucas Figueiredo foi impresso.

Por isso mesmo, não se trata de uma peça de arqueologia jornalístico-literária, que revisita idos de um passado que já parece distante. Trata-se de uma espécie de dissecação das entranhas de um sistema de poder apodrecido ao ponto do inimaginável.

Li as provas do livro de uma tacada só, a bordo de um vôo entre Buenos Aires e Auckland (Nova Zelândia). Ao terminar a leitura, a memória voou automaticamente para a Bolívia. Lá, nos anos 80, um dos incontáveis golpes da história boliviana conduziu ao poder um sinistro personagem chamado Luís García Meza, coronel.

Logo descobriu-se que se tratava de um agente das organizações criminosas, que, talvez cansadas de intermediários, resolveram apossar-se diretamente do poder.

Acompanhei, como jornalista, os eventos que cercaram o antes, durante e depois do golpe de García Meza. Lembro-me de ter pensado à época, com assumido preconceito: "Essas coisas só acontecem na Bolívia".

Sou obrigado a admitir que não é assim. Acontecem também no Brasil.

O que à época se batizou como "Esquema PC" não passou, na verdade, da ocupação do poder – de todos os espaços possíveis de poder – pela máfia. Lucas Figueiredo reproduz o seguinte – e definitivo – trecho do chamado "inquérito-mãe" do caso PC Farias:

"A ação desse grupo acabou envolvendo funcionários públicos, empresários, industriais, comerciantes e particulares, num quadro de corrupção, concussão, exploração de prestígio, extorsão, usurpação de função, entre outros crimes, com total desapreço aos princípios que regem a administração pública".

Pois muito bem. Apesar dessa lista de crimes, o leitor verificará pela leitura do livro que "ninguém foi condenado: nenhum empresário, nenhum político, nenhuma autoridade".

Acaba sendo até um pecado neste livro o que deveria ser uma qualidade: a leitura é agradável, inclusive pelo formato de novela que o autor empregou. Não deveria ser agradável. Deveria funcionar como um soco na boca do estômago do leitor, pelo que revela não só de impunidade generalizada, mas também de incompetência, de má vontade ou falta de recursos para investigar o que quer que seja, de complacência com a criminalidade, de convivência de empresários supostamente de bem com esquemas inequivocamente mafiosos.

Não é o Brasil de ontem que está retratado no livro. É um Brasil ainda muito presente. É óbvio que a corrupção no país não começou com o "Esquema PC". Mas o livro deixa claro que, nesse período, ela ganhou uma dimensão e um alcance extraordinários.

Por isso, mais a impunidade, persiste até hoje a sensação colhida pelo tenente-coronel Angioto Pellegrini, chefe da Direzione Investigativa Antimafia na Calábria, em frase que abre um dos capítulos: "O Brasil se tornou um santuário para os mafiosos".

Cabe ao leitor concluir, após a leitura do livro, se o tempo do verbo é adequado ou se seria melhor usar o presente."

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