Thursday, 29 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

Luiz Orlando Carneiro

JORNAL DO BRASIL

"Deu no JB", copyright Jornal de Brasil, 3/11/01

"Males do ensino e bom senso

A posição do JB sobre os graves acontecimentos ainda em curso relacionados com o vestibular da Universidade Federal do Rio de janeiro, tendo como pano de fundo a prolongada greve dos professores universitários, foi objeto de críticas de vários leitores. Selecionamos duas, publicadas com observações que consideramos apropriadas.

Vestibular

?Achei um absurdo o editorial Apelo à razão, de 25/10. Eu, que estudo em um dos melhores e mais caros colégios da Zona Sul, era a favor do adiamento do vestibular e penso que isso não seria injusto para nenhuma das partes. Nós das escolas particulares conseguiríamos continuar a rever algumas matérias, enquanto os colegas das escolas públicas estariam revendo apressadamente os conteúdos. Só com isso, já estaríamos em vantagem. Como disse o editorial, somos, sim, preparados para atingir o clímax na data marcada. No entanto, certamente esqueceu-se o editorialista de que a UFRJ faz o segundo vestibular do ano, após a primeira fase do vestibular da Uerj, e de que a UFF, antes do adiamento, teria a sua última prova no meio de janeiro, o que nos impediria de diminuir substancialmente o nosso ritmo de estudo. Deve-se considerar também a questão social: o vestibular já é injusto pela má qualidade do ensino público em nosso país. E não devemos aumentar essa disparidade contribuindo para elitizar ainda mais as universidades públicas, pois os estudantes de escola pública são os que teoricamente têm renda mais baixa e os que talvez não tenham dinheiro para pagar cursinho no próximo ano. Outro ponto que deveria ser levantado é que o adiamento do vestibular não é um fato isolado: universidades federais de vários estados já pensam ou já até reformularam o calendário de provas. Em muitas universidades a decisão partiu do próprio reitor, como nos casos da UFF e da Uni-Rio. Devemos, sim, fazer um apelo à razão, mas que essa seja a do senhor reitor da UFRJ?. Ana Luiza Braule, Rio de Janeiro.

?Se podemos falar em apelo à razão, nos parece que foi exatamente o que faltou ao editorial do JB em 25/10. Assim como os intransigentes ministro da Educação, Paulo Renato Souza, e reitor da UFRJ, José Henrique de Souza Vilhena, o editorial desconsiderou que nem todos os candidatos ao vestibular da UFRJ são alunos de escolas particulares. Temos também alunos de ensino médio nas instituições de ensino federais de segundo grau ? os Cefets e os colégios técnicos ? que perante a Constituição devem também ter assegurados os seus direitos, como cidadãos, de particular com eqüidade de condições do processo seletivo da UFRJ ou de qualquer outra instituição de ensino do Brasil, como procurou assegurar o procurador-geral dos Direitos do Cidadão em atenção à solicitação feita pelo Conselho Universitário da própria UFRJ, Vale esclarecer que o reitor da UFRJ ? assim como os de todas as instituições de ensino superior, tanto públicas quanto particulares ? deve acatar as decisões de seus Conselhos; esses sim, os órgãos máximos de uma universidade. O editorial trata com muita deferência dos direitos dos alunos das escolas particulares do ensino médio e dos ?cursinhos?, ambos com preços aviltantes, representantes fiéis que são da educação como um grande negócio?. Os possíveis candidatos oriundos das escolas públicas também ficariam prejudicados com o não adiamento dos processos seletivos porque, se não concluíram a terceira série do ensino médio em suas escolas de origem, como poderiam também eles prestar os exames? Entendemos que, se o adiamento das provas da UFRJ para final de janeiro e início de fevereiro de 2002 não atende os interesses dos candidatos de segundo grau das escolas particulares, também não deveria ? como fez esse editorial do JB ? ser considerado prêmio para os candidatos das escolas públicas. Portanto, ao editorial resta também um ?apelo à razão?, à razão crítica e à auto-análise do papel da imprensa em relação à sociedade, que por vezes só tem como saída a greve e o desgaste junto à ?opinião pública?, devido à espera de meses de paralisação para ser recebida pelas devidas ?autoridades competentes?. ? Ricardo J. Porfírio de Andrade, Belo Horizonte.

JB ? No editorial em questão, o JB disse que havia chegado a hora ?da farta distribuição de culpas no deplorável episódio do vestibular?, e assinalou: ?A situação de impasse decorreu da incapacidade de transigir nas solução da greve, para evitar o pior. E se prolongou pela mesma razão. De um lado, os dirigentes, professores e funcionários de estabelecimentos federais de educação, de outro a hierarquia oficial, com o ministro à frente. O desentendimento dentro da própria UFRJ, com o Conselho de Ensino e Graduação e o reitor entrincheirados na intransigência, também contribuiu. Não há isentos, são todos culpados?. O que se viu depois só reforçou o ?apelo à razão?proposto no editorial.

Filantropia

?Fiquei estarrecido com o que li na edição de 24/10. Se o inteiro teor da matéria que trata dos ?julgamentos? do Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS) ? pretéritos e presentes ? guarda total correspondência com a realidade dos fatos, estamos diante de mais uma atitude de lesa-pátria com certificado e carimbo oficiais. Se é mesmo verdade ? e creio que seja ? o que está na reportagem como sendo o que consta dos documentos que instruem os ?processos? administrativos apreciados pelo CNAS (fiscalização do INSS e da Receita Federal), estamos diante de uma peculiaríssima relação de ?filantropia da filantropia?, ou seja: O CNAS fazendo julgamentos filantrópicos para entidades filantrópicas. E tudo com o agravante de que quem paga a conta somos todos nós, contribuintes brasileiros, uma vez que a ?bolada?que deixa de ser recolhida aos cofres públicos, posto que ?perdoada? pela nossa ?filantropocracia? federal, é verba que poderia ? e deveria ? estar sendo canalizada para resolução dos inúmeros problemas nacionais, e que ? logicamente ? não são os problemas do Sr. Paiva Neto. Mais uma vez, a triste conclusão é a de que aqui também, até em matéria de filantropia com o bolso do alheio, nós é que pagamos. Oswaldo Mesquita , Rio de Janeiro.

JB ? A reportagem comentada tinha como título Filantrópicas se livram de cassação/Conselho decide renovar certificados. Dava conta de que o plenário do CNAS havia rejeitado relatórios de fiscalização do INSS, apontando irregularidades, além de pareceres do setor de análise do próprio conselho, decidindo, assim mesmo, renovar os certificados de entidade filantrópica da Faculdade Fundação Armando Álvares Penteado, de São Paulo, e da União Sul Brasileira de Educação e Ensino (Usbee) ? está última ligada à Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul."