Friday, 21 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Luiz Weis

COBERTURA DE GUERRA

“A mídia na mira de Bush”, copyright O Estado de S. Paulo, 26/02/03

Saindo de sua seara, o colunista econômico Paul Krugman, do New York Times, comentou outro dia a cobertura ?chapa-branca? da questão do Iraque na televisão americana, em especial na Fox, o canal de notícias de maior audiência, e o impacto sobre a população desse jornalismo feito para ?vender a guerra?, não para discuti-la. Acertou no alvo.

Embora os Estados Unidos tenham pencas de publicações e sites com notícias confiáveis e debates substanciosos, a TV, também ali, é a fonte primária de informação do público. Por isso, Washington cuida que a mídia de massa ecoe as verdades oficiais e omita as outras. O resultado é a grande maioria daqueles americanos que só conhecem das coisas do mundo o que lhes diz a televisão e o rádio é a primeira a apoiar a ação militar contra Bagdá.

A mídia eletrônica alinhada com Bush é rápida no gatilho. Tão logo os homens do presidente começaram a bombardear a França por sua oposição à guerra, o ar se encheu de ameaças e ofensas. Um radialista do Tennessee teve a primazia de propor o boicote aos produtos dos ?traidores?. Na Fox, quando um comentarista chamou os franceses de ?pérfidos?, outro se apressou a emendar que eles também são ?indignos de confiança? – socorrendo os espectadores que não sabem o que significa perfídia.

A linha da Fox se explica porque ela pertence ao império global de comunicações do ultradireitista australiano Rupert Murdoch. Nos Estados Unidos, muitos dos empresários da mídia fecham com Bush porque compartilham da mistura incandescente de patriotismo e religião que emana da Casa Branca.

Semanas atrás, ao comparecer a uma convenção nacional de emissoras religiosas, Bush foi recebido em clima de apoteose e apresentado como ?nosso irmão em Cristo?.

No relato do Washington Post, ?a platéia gritava ?amém? ao que ele dizia e se balançava ritmicamente como durante os hinos que antecederam o seu discurso?. A certa altura, o presidente se declarou honrado em estar com aqueles que dedicaram a sua vida a divulgar a Boa Nova (?the Good News?). E foi ali que ele disse – para horror dos seus críticos – que a guerra ao Iraque é coerente com ?as mais altas tradições morais de nosso país?.

A submissão a Bush da mídia americana que o povão sintoniza reflete e reforça o espantoso carisma que ele demonstrou depois da catástrofe do 11 de setembro. Neste último ano e meio, apesar da sua desastrosa política econômica e da sucessão de escândalos empresariais que respingaram no seu governo, Bush se tornou o presidente mais popular da história dos Estados Unidos. Nenhum outro tampouco foi tão poderoso.

No ?Estado de segurança nacional? em que a América se transformou, como bem diz o filósofo Richard Rorty, da Universidade Stanford, a liderança de Bush combinou-se com o medo geral de novos atos de terror e com a mentalidade autoritária do politburo neoconservador da Casa Branca para submeter à avassaladora hegemonia do Executivo as demais instituições da democracia jeffersoniana, como se os Estados Unidos se tivessem transformado numa monarquia eletiva.

O Legislativo se omite e o Judiciário parece dar razão ao procurador-geral John Ashcroft, para quem os protestos contra a erosão dos direitos civis no país ?só ajudam os terroristas?. O proverbial sistema de freios e contrapesos à concentração da autoridade, que pressupõe uma imprensa forte e independente, está travado. Basta comparar a desenvoltura imperial do governo Bush com as provações do seu antecessor.

Quase sempre por maus motivos, a velha América se abateu impiedosamente sobre Bill Clinton. O que há de mais hidrófobo, reacionário e fundamentalista na política, na sociedade e na mídia americana se uniu contra ele, sob os aplausos do interesse econômico organizado. Depois, graças a uma decisão judicial facciosa, essa falange de senhores do universo se instalou no governo. Graças a Bin Laden, adquiriu poderes extraordinários. E, graças a Saddam, se prepara para incendiar o Oriente Médio.

Na frente interna, em nome da ?guerra ao terrorismo? – que não tem prazo para acabar -, qualquer cidadão americano pode ficar preso indefinidamente, sem uma acusação formal, direito a julgamento ou a um advogado. Basta que, com um mínimo de alegações não sujeitas a verificação, o presidente da República o defina como ?combatente inimigo?. Esse atentado às liberdades civis foi praticamente ignorado pela mídia de massa americana.

Não admira: o que as emissoras e os tablóides mais populares dos Estados Unidos deixam de noticiar e comentar adequadamente é uma enormidade. O grosso da população não tem como saber, por exemplo, que, no início dos anos 80, Washington se recusou a interferir junto a Saddam, com quem mantinha relações mutuamente proveitosas, para que parasse de usar armas químicas contra o Irã. (Sábado passado, a BBC de Londres reconstituiu a infame história.) E quantos americanos sabem que, apenas seis dias depois do ataque a Nova York e Washington, Bush mandou o Pentágono planejar a invasão do Iraque? Era o que queriam, desde a primeira hora, os hiperfalcões do governo. Entre os que não foram informados da decisão estava ninguém menos do que o secretário de Estado Colin Powell. ?A atual administração tem obsessão pelo segredo?, observa Chalmers Johnson, professor de Relações Internacionais da Universidade da Califórnia.

?Se alguma coisa os militaristas americanos aprenderam com a guerra do Vietnã?, escreve ele, ?é a necessidade – e a maneira – de controlar e manipular o noticiário.? Graças ao êxito de Bush nessa operação, geralmente se desconhece que os americanos fizeram tantas vítimas inocentes no Afeganistão quanto a Al-Qaeda nas torres de Nova York. (E nem sombra de Bin Laden.) A ironia é que os militaristas de que fala o professor são quase todos civis – e civis que nunca viram um campo de batalha. É o caso do próprio presidente, cujo pai o livrou de servir no Vietnã, conseguindo que fosse mandado para a Guarda Nacional do Texas, à qual ele se apresentou com um ano de atraso. Esses bravos guerreiros de escrivaninha já foram comparados a alguém que se apossa de um martelo e acha que tudo que lhe desagrada é prego.

Recentemente, o decano do Capitólio, o senador democrata pela Virgínia Ocidental Robert Byrd, de 85 anos e nenhuma afinidade com a esquerda, acusou em plenário o governo Bush de ?fraturar a aliança global antiterror? que se formou depois do 11 de setembro, ao estabelecer que os Estados Unidos ?podem legitimamente atacar uma nação que não representa uma ameaça imediata, mas talvez venha a representá-la no futuro?. Trata-se, criticou Byrd, de ?uma distorção da idéia tradicional de autodefesa?. Foi um discurso corajoso e contundente. Mas muito poucos puderam tomar conhecimento dele.”

“Saddam Hussein é líder de audiência na TV americana”, copyright Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br), 28/02/03

“Saddam Hussein foi líder de audiência na TV americana nesta quarta. Sua entrevista ao jornalista Dan Rather no programa 60 Minutes II, da CBS, foi assistida por 17 milhões de pessoas. Na conversa, gravada na segunda, o presidente iraquiano diz que prefere a morte a abandonar seu país e nega que tenha vínculos com a rede terrorista Al-Qaeada.

A entrevista bateu a audiência de programas como The Bernie Mac Show e The West Wing, além de outra entrevista bombástica: com o ator Robert Blake, direto da prisão em que está detido até o julgamento pelo assassinato de sua mulher.

A conversa com o detetive Baretta da série de TV homônima foi feita pela jornalista Barbara Walters para o programa 20/20, da ABC. A audiência do show foi de 12,1 milhões de telespectadores.

Apesar do grande público conquistado, a entrevista de Saddam perdeu feio para outras atrações exibidas na TV americana, como o documentário Living With Michael Jackson, sobre o polêmico popstar, cuja audiência foi de 27 milhões de telespectadores. Saddam também perdeu para a transmissão do Grammy, que alcançou 24,9 milhões de pessoas, e para a final do show da vida Joe Millionaire, que atraiu 34,6 milhões.”

“?The Guardian? imagina como seria um debate pela TV entre os dois inimigos”, copyright O Estado de S. Paulo / The Guardian, 1/02/03

“Tony Blair, moderador: Bem-vindos ao primeiro debate televisionado entre George W. Bush e Saddam Hussein, ao vivo do QG da ONU, em Nova York. Começaremos com cada um de vocês fazendo uma breve declaração de abertura.

Bush: Gostaria de dar boas-vindas ao meu amigo do mal na ONU, uma das grandes instituições americanas para a propulsão da liberdade no mundo todo.

Saddam: Obrigado, Grande Satã. Espero que no debate de hoje possamos encontrar algum denominador comum entre o comprometimento do povo iraquiano com a paz e o progresso humano e o desejo dos Estados Unidos de destruir o Oriente Médio.

Bush: Tenho de responder a isso?

Blair: Não. A primeira pergunta é bastante simples: o senhor tem alguma ligação com a Al-Qaeda?

Bush: Não tenho.

Blair: Essa pergunta foi para o presidente Saddam.

Saddam: Como disse ao senhor Tony Benn, se eu tivesse ligações com a Al-Qaeda e apreciasse essas ligações, então não me envergonharia de contar ao mundo, mas já que tenho vergonha de contar isso ao mundo, sucede que eu não tenho tais elos.

Bush: Nem eu.

Blair: A segunda pergunta é para o senhor Bush: se os EUA e o Iraque forem para a guerra amanhã, quem ganhará?

Bush: Essa é fácil. Os EUA, certo?

Saddam: Essa até eu sabia.

Bush: Isso porque os poderosos EUA estão do lado da corretividade e da americanidade, contra um eixo do mal composto pelo Iraque, Coréia do Norte e … quantos há neste eixo? Três?

Blair: Acho que o senhor tem direito a quantos quiser.

Bush: OK, Iraque, Coréia do Norte e França.

Saddam: Vou lhe dizer franca e diretamente que o Iraque não faz parte de nenhum Eixo do Mal.

Bush: Em quem estou pensando, então, no Irânio?

Blair: Vamos para a próxima. Saddam, o senhor está disposto a destruir seu estoque de mísseis Al-Samoud-2 em cumprimento às ordens dos inspetores de armas da ONU?

Saddam: Se o Iraque possuísse essas chamadas armas, eu nunca as destruiria, mas já que não as temos, é uma satisfação cumprir a determinação, embora essas armas não existentes certamente não excedem o alcance proscrito de 150 quilômetros. Eu mesma as testei e nós não temos nenhuma.

Blair: A última pergunta é para George Bush. Senhor presidente, há alguma maneira de Saddam Hussein evitar uma guerra? E que medidas ele precisa tomar agora para chegar a uma solução negociada?

Bush: Primeiro, Saddam tem que compilar 200% com os inspetores da ONU, e eu quero dizer compilação ativada, não compilação passivista. Segundo, ele tem que se desarmar completamente, em cumprimento à Revelação da ONU 1441 e a próxima, a 1441B, que vai exigir que ele se desarme ainda mais completamente. Depois, tem de destruir todos os mísseis Al-Samoud e quaisquer outras armas de destruição em massa que forem encontradas, ou não forem encontradas, de posse dele, sem ser solicitado. Por último, há mais uma tarefa que ele precisa executar, que não tenho permissão para desvelar.

E mesmo isso não será suficiente.

Blair: O intérprete gostaria de levar sua resposta para casa e trabalhar nela durante o fim de semana.

Bush: Ótimo, mas nós exigimos nada menos que a total desarmação.

Saddam: OK.

Blair: Desculpe, mas não tenho certeza que ?desarmação? seja a palavra.

Passo a palavra ao Encarregado do Dicionário da ONU, sr. Richard Stilgoe.

Stilgoe: Sim, podemos usar desarmação.

Saddam: Se isso significar a paz, eu o farei.

Bush: Tarde demais.”