Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Mario Vargas Llosa

LE MONDE NA JUSTIÇA

“Minha vida com ?Le Monde?”, copyright O Estado de S. Paulo / El Pais, 6/04/03

“Nos seis anos que vivi em Paris, li religiosamente Le Monde, de segunda a sábado, às 3 da tarde, em algum café de meu bairro. Minha admiração por esse jornal não tinha limites; parecia-me que ele encarnava tudo o que havia me tornado, desde muito jovem, um afrancesado convicto e confesso: sua visão planetária da atualidade, seu espírito plural e aberto à controvérsia, a seriedade de suas análises; sua recusa do sensacionalismo e da frivolidade, a importância das idéias e da cultura em suas páginas e sua posição favorável às causas de esquerda, sem por isso deixar de registrar uma atitude crítica diante do comunismo e da União Soviética. Era, no mais, um dos poucos diários – por acaso o único na Europa – que nos anos 60 informavam sobre a América Latina. Os artigos de Claude Julien dedicados aos problemas latino-americanos eram, em geral, rigorosos e iluminadores.

Quando me mudei de Paris para Londres, no fim dos anos 60, continuei lendo Le Monde, mas com menos entusiasmo do que antes e de maneira mais crítica.

Começou a distanciar-me do vespertino francês sua atitude sistematicamente favorável às tendências revolucionárias latino-americanas – guerrilheiras ou não – até mesmo contra governos democráticos, os quais, como o de Fernando Belaunde no Peru, as ações de insurreição dos grupos castristas contribuíram para derrubar, abrindo as portas do poder não ao socialismo, e sim às ditaduras militares que nos anos 60 se estenderam por quase todo o continente. O periódico mantinha um alto nível intelectual, mas parecia-me que sua linha ideológica representava exemplarmente essa posição hemiplégica de tantos progressistas europeus, que defendiam para seus países e a Europa um socialismo democrático, mas para a América Latina e o Terceiro Mundo, em compensação, a Revolução ou, nas palavras de Gunther Grass, ?seguir o exemplo de Fidel Castro?. Nos anos 70, não creio ter lido Le Monde senão excepcionalmente, só quando acontecia algo grave na França. Este distanciamento me pareceu mais do que justificado durante a campanha eleitoral peruana de 1990, na qual fui candidato, a cada vez que, nas informações do prestigiado diário de meus amores juvenis, eu via reproduzidos alguns dos piores ataques e calúnias que os apristas e comunistas fabricavam contra mim no Peru.

No entanto, em meados dos anos 90, meu secreto e algo traumático divórcio de Le Monde experimentou uma reconciliação. Descobri que nossas posições – perdão pela petulância – se haviam aproximado muitíssimo, até, em muitos temas, identificarem-se. O diário atacava a ditadura castrista e outras satrapias de esquerda com tanta ou mais severidade que a dedicada às ditaduras militares de direita e, em economia, aceitava o mercado, a livre empresa, a globalização, as privatizações. Em outras palavras, o odiado liberalismo de antanho. Em política, seu compromisso com a democracia já abarcava não só o mundo desenvolvido mas também o Terceiro Mundo, e seu rechaço dos nacionalismos – incluído o francês – parecia bastante firme. Em boa hora! Voltei a converter-me em leitor de Le Monde e com satisfação descobri, certa vez, que suas páginas até reproduziam algumas de minhas colunas, Pedras de Toque.

Inquisição – Essa evolução da linha editorial em direção ao que eu chamaria de modernidade democrática e realismo político é uma das coisas mais reprovadas em Le Monde pelos jornalistas Pierre Péan e Philippe Cohen no livro La Face Cachée du Monde (A Face Oculta do Monde).

Sua duríssima inquisição pretende demonstrar que, além de trair suas origens, o diário francês acumulou tanto poder e incorreu em práticas tais que se transformou numa verdadeira ameaça à institucionalidade democrática da França. Li (com esforço) as 634 páginas do volume e essa tese não só não está provada nelas: muitas vezes, o tipo de argumentação que pretende justificá-la resulta autodestrutivo. O pior dos capítulos, nesse sentido, é o 19, ?Ils n?aiment pas la France…? (?Eles não gostam da França?), segundo o qual, insistindo em retomar de quando em quando o tema dos abusos e crimes cometidos durante a guerra na Argélia ou da cumplicidade de muitos franceses com o regime de Vichy, Le Monde estaria realizando uma tarefa derrotista e injuriadora da nação, algo equivalente à traição da pátria! Os autores do livro parecem bastante mal informados sobre a cultura francesa, que tem entre suas manifestações mais admiráveis justamente essa capacidade autocrítica, que, de Montaigne a Sartre, de Pascal a Rimbaud, de Voltaire a Gide e dos surrealistas a Foucault, tem submetido sistematicamente a uma revisão implacável todas as instituições, os sistemas, os valores, as idéias e as formas, graças ao que essa cultura tem se mantido viva e atual. Que, graças a Le Monde, os intelectuais e políticos franceses se debatam consigo mesmos, revisando seu passado e confrontando-o com o presente, é uma saudável tarefa profilática, tanto política quanto moral, na grande tradição da cultura francesa, e o melhor serviço que um jornal pode prestar à democracia.

Boa parte das acusações que o livro de Péan e Cohen apresenta como espetaculares revelações é de uma profunda ingenuidade, pois parte de uma premissa impossível, aquela que, como dizia Sartre, estabelece que, embora todos os melros sejam pretos, este – Le Monde – teria de ser branco. Se um periódico adquire uma grande influência, ou seja, uma cota determinada de poder, é cabível supor que ele não a use? No paraíso dos utópicos, talvez, mas não nesta crua e dura realidade do século 21. Le Monde, ou, melhor dizendo, os três malvados da história – Jean-Marie Colombani, Alain Minc e Edwy Plenel, a quem o livro acusa de terem estabelecido uma ditadura totalitária no jornal – parecem tê-lo feito, por exemplo, para obter certos privilégios fiscais para a empresa ou para facilitar a aquisição de outros órgãos de imprensa, mas nenhuma dessas operações tão laboriosamente descritas em La Face Cachée du Monde tem a matiz de delito com que está apresentada, nem parece exceder o marco frio e às vezes cruel no qual funciona a competição empresarial numa economia de mercado.

Antipatia pessoal – Há no livro, por outro lado, o emprego de algumas armas proibidas, intoleráveis sob a ética mais elementar, como usar as biografias dos progenitores de Colombani e de Plenel – o primeiro foi, ao que parece, partidário da incorporação da Córsega à Itália nos tempos de Mussolini, e o segundo, simpatizante dos independentistas da Martinica – como parte do contencioso pelo qual os filhos são responsabilizados. É como se estes, sem mais nem menos, trouxessem nos genes herdados dos antepassados a vocação para o delito e o antipatriotismo.

O livro de Péan e Cohen enumera muitos casos nos quais, por antipatia pessoal, descuido, cálculo comercial ou preconceito político, Le Monde provocou dano, ofendeu e causou prejuízos, às vezes grandes, a determinadas pessoas. Estou seguro de que, em muitos dos casos citados, isto é verdade, e portanto criticável e lamentável. Não deveria ser assim, fique claro, é bom que esse gênero de abuso, infelizmente tão freqüente, seja denunciado e – se for o caso – punido pela justiça, ou ao menos pela opinião pública. Se uma sociedade é aberta e plural, se existe nela uma justiça digna desse nome, o risco desse tipo de abuso ser cometido diminui, embora não desapareça, mas isso já não tem a ver tanto com o funcionamento das instituições, e sim com a natureza das pessoas – que, como sabemos, não são anjos, e sim seres impregnados de instintos, paixões, ambições, vaidades que se infiltram irremediavelmente na atividade profissional e às vezes a condicionam.

Não deveria ser assim, é claro. Mas sempre foi – inclusive, sem dúvida, na época em que Le Monde era dirigido pelo lendário fundador, Beuve-Méry, que, segundo os autores, deve estar agora remexendo-se de indignação no túmulo ao ver no que seu jornal foi transformado. Mas acredito que, se Le Monde tivesse continuado, na atualidade, sendo o que foi no princípio segundo os autores, receoso do dinheiro, da competição, da expansão e da modernização, puritano e monástico, teria desaparecido há tempos, varrido pelo mercado implacável, ou sobrevivido à margem da vida francesa, com um devoto e insignificante número de leitores, como um exótico anacronismo.

Este é o mundo em que vivemos, gostemos ou não, e, a menos que optemos pelo da ficção – belíssimo mundo ao qual dedico a maior parte de meu tempo, aliás -, neste do aqui e agora, Le Monde, com todos os defeitos que tenha e os erros e atropelos que possa ter cometido, é um jornal magnífico, um dos poucos que souberam resistir à horrenda maré do sensacionalismo e da banalização que foi destruindo tantos de seus colegas na Europa e na América, até fazer do jornalismo um puro espetáculo, sem idéias, sem princípios e às vezes até sem gramática.

Esse tipo de jornalismo sério, de análise e de debate intelectual, em cujas páginas há um esforço cotidiano para fazer a atualidade passar pelo crivo da razão e para transcender o puramente episódico, tratando de diferenciar o substantivo do adjetivo na história que se faz e desfaz a cada dia, já é uma avis rara em nosso tempo, e um de seus defensores mais tenazes é Le Monde.

Não só a França, mas a informação e a cultura em si mesmas estariam pior sem ele.

É claro que nem Le Monde nem nenhuma instituição devem estar a salvo da investigação e da crítica. Mas o que Péan e Cohen levam a cabo parece muito mais um ato de vingança do que um exame isento e objetivo do que eles chamam, com ironia, de ?periódico de referência?. Sua suscetibilidade é excessiva. Por exemplo, a mim acusam de ter feito elogio injustificado à glória de Jean-Marie Colombani, por ter comentado nesta coluna, favoravelmente, seu ensaio Tous Americains? (Todos os Americanos?), algo pelo qual, segundo eles, o diário teria me retribuído – num pacto mafioso – com uma boa resenha de meu último romance. Quando a suspeita chega a tais extremos, a argumentação perde seriedade e se transforma numa pura manifestação de aversão pessoal. O ?periódico de referência? sobreviverá a esse impropério – e também, creio, meu momentâneo idílio com Le Monde. (Tradução de Alexandre Moschella)”

“?Le Monde? vai à Justiça contra livro”, copyright O Estado de S. Paulo, 4/04/03

“O Le Monde apresentou ontem num tribunal superior de Paris uma ação por difamação contra os autores do livro La Face Cachée du Monde (A Cara Oculta do Monde) e seus editores. Na ação, reivindica US$ 1 milhão por perdas e danos aos denunciados, os escritores Pierre Péan e Philippe Cohen, a editora Fayard e seu presidente, Claude Durand. No livro, um dos mais vendidos na França, o Monde é acusado de ter, em alguns momentos, estabelecido sua linha informativa e editorial conforme seus interesses empresariais.”