Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Mau jornalismo no Globo Esporte

MÍDIA ESPORTIVA

Cristhian dos Santos Camilo (*)

Na terça-feira, dia 1? de abril, o jornalista Renato Maurício Prado, de O Globo, noticiou em sua coluna a contratação de um dos filhos do técnico Mário Jorge Lobo Zagallo como técnico das seleções de base da CBF. O jornalista questionava a competência do "Zagallinho" (perdão, o nome agora me escapa) como técnico de categorias juvenis, mas, principalmente, questionava a ética de sua contratação, uma vez que seu irmão (de cujo nome também não me recordo) tem como ofício a atividade de empresariar jogadores. Ora, num país em que a revelação de jovens craques é disputadíssima por empresários ansiosos por vender nosso "pé-de-obra" a clubes estrangeiros, o cargo de técnico de seleções juvenis da CBF é um estratégico ponto de negócios, já que interessa aos empresários que seus clientes sejam convocados para serem expostos aos centros consumidores. Logo, um técnico que tem como irmão um empresário de jogadores encontra-se sob forte suspeita.

Mas não se pretende discutir aqui a ética no futebol, mas no jornalismo.

Na sexta-feira, dia 4 de abril, o Globo Esporte, programa exibido na hora do almoço de segunda a sábado e, por estar na grade da "nave-mãe", é brindado com alta audiência, exibiu reportagem sobre o nepotismo no futebol, falando sobre técnicos que trabalham com seus filhos (ou outros parentes) em suas comissões técnicas. A matéria abordava exatamente a situação do "Zagallinho", que havia pedido demissão da CBF na noite da quinta-feira, 3 de abril. Entretanto, a matéria afirmava categoricamente que "Zagallinho" estaria se sentindo injustiçado por causa dos boatos que davam conta de que sua contratação teria ocorrido por indicação de seu pai. Não foi sequer aludida a questão do irmão empresário.

Trata-se de duas falhas graves da equipe responsável pelo noticiário esportivo da Rede Globo de Televisão:

1) A matéria claramente foi decorrente da nota publicada por Renato Maurício Prado, e a controvérsia foi suscitada pela questão do irmão-empresário. No entanto, deliberadamente a equipe, por assim dizer, jornalística, "mutilou" a notícia, deixando de prestar a informação como deveria: de forma completa, posicionando o telespectador sobre todos os aspectos da polêmica contratação. Preferiu omitir da audiência a questão ética que envolvia seu trabalho e a posição privilegiada que seu irmão teria, ao menos em tese. Vale dizer: em nenhum momento, os irmãos Zagallo foram acusados de desonestidade. Foi apenas questionada a ética de suas relações profissionais e familiares. "A mulher de César, além de ser honesta, deve parecer honesta."

2) A reportagem agiu como meio de defesa do Zagallinho, com direito a socorro apaixonado do pai.

Uma provocação

Temos, então, um exemplo de como uma notícia pode acabar distorcida e preparada para ser servida ao consumidor, mas ao gosto de quem serve. A atuação do jornalista foi, mais do que irresponsável, desonesta. É sabido que a mídia televisiva dispõe de alcance muito maior do que a impressa e, por lançar mão de imagens e sons, também tem poder muito maior de convencimento do que a simples palavra escrita ? até porque é de mais fácil assimilação. Aproveitando-se, portanto, desse efeito maior da notícia televisionada, a equipe de jornalismo do Globo Esporte apresentou sua muito particular verdade dos fatos primeiramente revelados no jornal O Globo.

A equipe do Globo Esporte deu aula de como não fazer jornalismo: manipulação dos fatos (ao tentar demonstrar que a polêmica se originou da suposta influência de Zagallo, o pai), omissão de informação (quanto ao irmão empresário) e, principalmente, negando-se a produzir o debate ético que Renato Maurício Prado pôs a descoberto e que é muito mais interessante do que discutir se um pai deve ou não trabalhar com seu filho num mesmo clube de futebol.

Para finalizar, uma provocação: se realmente não há nenhuma relação entre o Zagallinho técnico e seu irmão empresário, por que a reportagem foi ao ar com esse formato, sem se preocupar em apresentar esse assunto? Já que o Globo Esporte não se importou em discutir, fiquemos todos à vontade para imaginar o que quisermos.

(*) Estudante universitário, Brasília