Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Mauricio Stycer

BAIXO NÍVEL NA TV

"A programação de mal a pior", copyright Carta Capital, 4/03/02

"O exemplo vem do México – logo do México, que se tornou sinônimo, no Brasil, de televisão popularesca, de baixa qualidade. Uma organização não-governamental, com um nome que já é uma carta de princípios, a Associação a Favor do Melhor, conseguiu convencer 32 empresas a não anunciarem seus produtos na versão mexicana do Big Brother, que a gigante Televisa, a Globo local, exibe a partir deste domingo 3 de março.

Entre as empresas que aderiram ao boicote publicitário, lêem-se os nomes de grandes grupos, como Pepsi, Quaker, Colgate, Domecq, além dos bancos Bancomer (do grupo espanhol BBVA) e Banamex. Foram convencidos com base no argumento de que o Big Brother ?atenta contra a dignidade das pessoas?.

A Televisa não deu o braço a torcer e, na semana passada, informava que o boicote não iria afetar o programa. Ao contrário, diz a emissora, o número de empresas interessadas em anunciar no Big Brother é superior ao espaço disponível.

Qualquer que seja o saldo final desse embate com a Televisa, a simples associação de entidades da sociedade civil com grupos industriais e financeiros parece apontar para um caminho. Além de discursos, sugere que há algo efetivamente a ser feito para deter a queda na qualidade da programação de tevê – no caso, no México.

No Brasil, o quadro é desolador. Os principais grupos de pressão da sociedade civil não são ouvidos fora da universidade ou de outros fóruns de alcance reduzido. O poder público, em particular o Congresso, que poderia impor um Código de Ética às tevês, não ousa desagradar às emissoras. Grandes anunciantes e agências de publicidade parecem babar de alegria com o nível reinante. E quem faz tevê de qualidade no País está perplexo e não sabe onde enfiar a cara.

A atual disputa entre Big Brother Brasil, levado pela Rede Globo, e Casa dos Artistas, do SBT, é apenas a ponta de um iceberg. O nível da programação da tevê brasileira nunca esteve tão baixo – e nada indica que vai melhorar. Ao contrário, todos os sinais apontam para uma progressiva e decidida caminhada ladeira abaixo.

O nível subaquático atinge a todos os extratos da programação, do jornalismo aos infantis, alcançando o auge na chamada linha de shows e programas de auditório, com a adesão de todas as emissoras (exceção feita às educativas, que se mantêm à margem da disputa, com reflexos inevitáveis na quase sempre baixa audiência).

?A continuidade e a massificação do mau gosto e da baixaria também criam hábito e acostumam as pessoas a um ritmo desqualificado de contemplação do entretenimento?, lamenta Jorge da Cunha Lima, presidente da TV Cultura, de São Paulo. ?E isso acontece em todas as classes sociais, que se deleitam com os brothers de todas as espécies.?

Há quem veja, talvez por excesso de ingenuidade, como Nelson Motta, o atual quadro como a prova de que, finalmente, ?o povo chegou na tevê?. É uma balela. ?O mau gosto não é uma exigência das classes sociais; tem sido uma imposição das emissoras?, diz Cunha Lima.

?Por que temos que nivelar o nosso povo por baixo??, pergunta Silvio de Abreu, reconhecidamente um dos principais autores de telenovelas do País. ?Por que temos de achar que o que é popular é necessariamente sem qualidade??

A última novela criada por Abreu, a comédia As Filhas da Mãe, foi retirada do ar dois meses antes do previsto por ter audiência insuficiente. Pesquisas mostraram que os espectadores não estavam entendendo a novela.

?Estou cada vez mais perplexo?, diz Abreu. ?Sou um profissional que sempre quis fazer o melhor, cercado por excelentes atores e diretores, procurando levar ao público um entretenimento de qualidade. Hoje isso já não é mais um valor e nem motiva a audiência?, lamenta.

Na visão de muitos analistas, duas são, basicamente, as razões que levaram a programação da tevê brasileira ao seu mais crítico patamar em 50 anos de vida. Elas seriam: 1. A entrada da classe D no mercado de consumo, ocorrida nos últimos anos, favorecida pelo Plano Real. 2. A adesão da Rede Globo ao padrão popularesco de qualidade.

A estabilidade da moeda, avalia Jorge da Cunha Lima, introduziu no País 40 milhões de novos aparelhos de televisão – 50% dos quais para as classes D e E. ?O mercado, por uma leitura atravessada do Ibope, pressupõe que esses espectadores desejam o pior, e uniformemente pior?, avalia o presidente da TV Cultura.

O jornalista Sérgio Augusto também faz uma leitura crítica desses números. ?Como a televisão não opera no vácuo, sua programação piorou porque o País, como um todo, também piorou – sobretudo depois que o mercado cultural se entregou totalmente às preferências de quem, antes do Plano Real, não tinha condições de comprar discos, CDs, jornais, revistas, etc.?

O sempre inteligente José Simão também vê o problema de uma forma bem ampla: ?A televisão brasileira só piora porque a indi-gestão do FHC só piora?, sintetiza, do seu jeito bem-humorado.

Dito de outra forma, por Silvio de Abreu: ?O Plano Real ampliou o número de bens de consumo para os brasileiros, principalmente de aparelhos de televisão, mas não melhorou em nada a nossa cultura. Com isto, a classe D/E se tornou consumidora, mas não teve como melhorar seu nível cultural?.

Para além desse diagnóstico, Sérgio Augusto vê na adesão da classe média ao mau gosto um fator determinante na crise atual. ?A classe média soltou a franga, liberou a sua espessa vulgaridade?, diz o crítico. ?É ela, afinal, que assegura o sucesso de revistas do gênero Caras, consolida o ibope de programas voyeurísticos, como Casa dos Artistas e Big Brother Brasil, e promove festas de aniversário ao estilo Jade, a cafona árabe da novela O Clone.?

Big Brother Brasil é, em todos os aspectos, um marco. A Globo coleciona em sua história episódios de programas de gosto duvidoso, quadros de nível mais que questionável e gafes monumentais. Mas quase todos podiam ser vistos como acidentes de percurso – caso dos sempre citados quadros do sushi erótico e com um personagem chamado Latininho, usados de forma abjeta no programa do Faustão para enfrentar a concorrência do Gugu.

Os recursos investidos em Big Brother Brasil, um programa indefensável em termos de bom gosto, mostram que a emissora claramente aderiu a um novo padrão. ?O padrão globo de qualidade é uma estética que já se esboroou?, atesta o crítico Eugênio Bucci.

Consagrada durante o regime militar, sob a direção do hoje aposentado Boni, essa estética, na visão de Bucci, supria a função ideológica de construir em interação com o público uma imagem de país e de moralidade.

?Daí ser indissociável dessa estética o seu servilismo ao Estado, sobretudo ao regime militar?, diz. ?Ela funcionava como complemento do autoritarismo político. Essa estética vetava, censurava mesmo, tudo o que fosse popular ou sexualmente problemático.?

Nesse raciocínio, a concorrência abusada (do SBT e da Record, principalmente, mas também da RedeTV!, Gazeta e agora da Band, com o jornalístico Brasil Urgente) e a ampliação do universo de espectadores começaram a expor a fraqueza da visão de mundo que era oferecida pela Globo, até então de forma hegemônica, quase monopolista. Tem início então uma corrida pelo popularesco. ?Esse filão inexplorado pela Vênus Platinada (e alquebrada) virou o flanco de ataque preferencial dos novos bárbaros da tevê?, avalia Bucci.

Os primeiros sinais significativos foram sentidos pela Globo nas seguidas derrotas na medição de audiência, especialmente nos confrontos com o SBT aos domingos. As surras do Faustão diante do Gugu, primeiro, e depois do Fantástico perante a Casa dos Artistas causaram uma certa preocupação e fizeram bastante espuma.

O problema maior, que de fato moveu a emissora carioca, foi a percepção de que os anunciantes não se mostravam refratários à baixaria exibida pela concorrência. ?A líder monopolista da televisão brasileira, despreparada para essas áreas mais sombrias, atrapalhou-se toda quando o mercado, de repente, autorizou esse tipo de apelação?, observa Eugenio Bucci. ?O monopólio piscou.?

Piscou e partiu para a ação, mobilizando todas as empresas do grupo na promoção do Big Brother Brasil. O sucesso comercial da empreitada é indiscutível. Segundo a repórter Adriana Mattos, na Folha de S.Paulo da quarta-feira 27, o programa da Globo e o seu rival do SBT vão movimentar R$ 100 milhões em publicidade, o maior montante do gênero em 2002.

É esse sucesso que alimenta os prognósticos de que a programação da tevê brasileira vai piorar. Feliz da vida, a Globo já está gravando um novo reality show, a ser exibido no programa de Luciano Huck. E nada indica que planeja refrear o ritmo – para não falar dos seus concorrentes, cada vez mais animados.

Pessimismo? Talvez. Na avaliação de Paulo Camossa, diretor de mídia da AlmapBBDO, uma das principais agências de publicidade do País, a situação não mudou muito nos últimos anos. ?Não acho que a programação da televisão tenha hoje um padrão de qualidade dramaticamente inferior ao que tinha ontem?, diz. ?Honestamente não vejo muita diferença.?

Camossa acha que os excessos saturam e perdem espaço com o tempo. ?O Ratinho já foi um programa de duas horas diárias. O Faustão já teve cinco horas de duração. O Silvio Santos já ocupou o domingo todo?, lembra.

Os números do mercado, porém, desmentem uma parte importante da análise do publicitário, para quem ?a abordagem popularesca e grotesca de alguns programas dificultam sua aceitação publicitária?.

Alternativas? ?Recuso-me a acreditar que não exista uma saída e que a indigência da programação atual seja, realmente, a cara do povo brasileiro?, roga Silvio de Abreu. ?A baixaria é um anabolizante. A ressaca virá?, prevê Eugenio Bucci.

No campo das idéias, uma alternativa é oferecida pelo diretor de tevê Wagner Bezerra, autor de Manual do Telespectador Insatisfeito (Summus Editorial). Bezerra, que prepara o volume 2 do livro, propõe que o governo faça constar na grade das escolas o estudo da televisão como matéria oficial. Essa medida iria propiciar, para jovens e adolescentes, ?o descobrimento e o exercício da cidadania diante do que é ofertado à população pelos meios de comunicação?.

Uma alternativa, num estágio um pouco mais avançado, foi oferecida no final de dezembro de 2001 pelo deputado federal Marcos Rolim (PT-RS), que apresentou um projeto de lei propondo a criação de um rigoroso Código de Ética para a tevê brasileira.

Com base em legislações semelhantes de outros países, especialmente da Europa, Rolim sugere a instituição de uma Comissão Nacional pela Ética na Televisão. Ela seria formada por 19 representantes de entidades variadas, com o poder de julgar e punir as emissoras que desrespeitem regras básicas do código, referentes a exatidão, privacidade, dignidade, proteção à criança, violência, sexo, drogas e preconceitos de um modo geral.

Pergunte a Rolim, um jornalista e militante dos direitos humanos, de 41 anos, quais são as chances de o seu projeto de lei vir a ser aprovado: ?Nulas. Na correlação de forças do Congresso, hoje, são nulas as chances do projeto?. Pessimismo? Ou realismo? Pergunte então a José Simão o que o futuro nos reserva: ?Onde vamos parar depois de Big Brother e Casa dos Artistas? NO HOSPÍCIO! Rarará!?

NO ZAPPING, POR TRÊS HORAS

Flashes de uma noite com o controle remoto na mão, observando o que as emissoras da tevê oferecem de melhor a seus espectadores

Segunda-feira, 21h12, Marcos Mion (Band): ?Frank Aguiar, o Cãozinho dos Teclados no Descontrole?.

21h15, Casa dos Artistas (SBT): A Feiticeira entra numa banheira onde já se ensaboam André Gonçalves e Xis. André lambe a sola do pé da Feiticeira. ?Comigo não vai rolar nada aqui?, ela desafia.

21h20, Casa dos Artistas: Syang avisa: ?Assim que eu sair daqui, vou colocar peito?. ?Quanto??, alguém pergunta. ?220 ml?, ela responde.

21h30, Ratinho (SBT): ?Ela se entregou para ele. E ainda era virgem?, avisa o apresentador. ?Quem será o cantor que é o pai dessa menina?, faz suspense Ratinho. A mãe, ele informa, se chama Fremilda.

21h54, Ratinho: O marido e a mulher de um lado, a ex-namorada dele do outro. O pau come. A ex-namorada xinga a rival de ?gorda?. A resposta vem logo: ?Sou gorda, mas me garanto. Quem casou com ele fui eu?.

21h57, Luciana Gimenez (RedeTV!): ?Professor muito louco continua revelando os segredos da matemática?.

22h, Marcos Mion: Depois de descobrir uma rua sem asfalto na periferia de São Paulo, o apresentador avisa: ?A gente vai para um breve intervalo e volta para resolver essa parada de Itaquera?.

22h06, Clodovil (Gazeta): O ex-costureiro anuncia o seu novo programa: ?Vem cá, até onde você já entrou na intimidade de alguém??

22h08, O Clone (Globo): A câmera dá um close num produto Nivea, depois em Yvete (Vera Fischer), que espalha o creme nos braços. ?Como vai você??, pergunta a personagem Laurinda para a de Vera. ?Iluminada, hidratada e muito bem tratada?, responde Yvete.

22h10, Raul Gil (Record): ?Aqui você vê os futuros grandes cantores do amanhã?.

22h12, Luciana Gimenez: ?Big Brother e Casa dos Artistas: reality show ou apelação na tevê??

22h16, Ratinho: ?Traçou a mulher do primo quando tava mamado e agora vem aqui resolver esse babado?.

22h19, Luciana Gimenez: Apresentada como crítica de tevê, Rosana Hermann observa sobre o primeiro Casa dos Artistas: ?Nunca vi o Frota lavando a mão depois do xixi?.

22h21, Big Brother Brasil (Globo): Cristiana desabafa: ?É foda, cara!? Estela, chorando, responde: ?Só tô preocupada com a minha dignidade aqui?.

22h25, Drica Lopes (Gazeta): ?Dá um take na panturrilha dela?, pede a apresentadora do Mundo Clipper. Trata-se da perna da fisiculturista Bete Tessuto. ?Uau! 42 centímetros!?, comemora Drica.

22h29, Big Brother Brasil: Frases desconexas: ?Eu não sou desonesta? (Estela, chorando). ?Quem é o pentelho? (Vanessa). ?Ninguém vai conseguir mudar o que você é? (Helena). Cristiana canta: ?Bota na boca, bota na cara, bota onde você quiser?.

22h40, Luciana Gimenez: Debate-se a situação de Mariana Kupfer em Casa dos Artistas: ?Eu sou de família pobre alta. Ela não tem culpa de ser de uma família legal?, explica Rosana Hermann. A empresária de Mariana confidencia: ?Ela levou 50 calcinhas. Acho que foi a Patrícia Coelho que deu esse toque?.

22h52, Hebe Camargo (SBT): Diálogo entre a apresentadora e uma mãe que perdeu a filha depois de uma lipoaspiração. Hebe: ?Sua filha foi tirar pneuzinho? Uma coisa simplinha?? Mãe: ?Uma coisa simplinha?. Hebe: ?Quanto tempo depois dessa coisa simplinha ela morreu?? Mãe: ?Seis dias?.

22h53, Raul Gil: ?O Raul perguntou, você não acertou, pega o seu banquinho e saia de fininho?.

23h10, Raul Gil: O cantor Sérgio Reis diz para quem ele tira e para quem não tira o chapéu. ?Para o ministro José Serra eu tiro o chapéu.?

23h13, Luciana Gimenez: A apresentadora entrevista a dançarina Rita de Cássia, que diz: ?Eu tava tomando anfetamina direto. Tava no ar há dois anos. Não podia deixar a peteca cair?. Luciana: ?Atinge a memória?? Rita de Cássia: ?Atinge. Atinge?.

23h17, Hebe Camargo: ?Vou fazer uma fofoquinha?, anuncia a apresentadora. ?Acho que a Syang não tá fazendo nada. Não fede nem cheira. Uma vez ela veio aqui no meu programa e o ibope caiu 5 pontos.?

23h23, Raul Gil: Sérgio Reis propõe: ?Vamos criar uma lei simples. Três anos de prisão, sem sursis, inafiançável, para quem comprar CD pirata?.

23h32, Drica Lopes: A apresentadora comenta o corpo da Feiticeira: ?De repente, ela tomou uma cervejinha e ficou inchada. É fundamental falar desse assunto?.

23h34, João Kleber (RedeTV!): ?Já, já, no Teste de Fidelidade, noivo do Rio quer saber se sua noiva de São Paulo não pula a cerca?.

23h37, Hebe Camargo: A apresentadora comenta a notícia de que o chamado Maníaco do Parque vai se casar: ?Seu juiz, não permita que esse verme tenha mulher! Chega!?

23h45, Hebe Camargo: Uma representante do Instituto Pró-Queimados comenta a lei que proibirá a venda de álcool líquido: ?É uma medida importante tomada pelo ministro José Serra?.

23h48, João Kleber: Julio Sérgio e Natasha, casados há nove anos, discutem no programa sobre a recente separação. Júlio: ?Não me larga, Natasha. Volta pra nossa casa?. Natasha: ?Julio Sérgio, agora a casa está do jeito que você quer: vazia?. Ele: ?Olha o que eu fiz: estou num programa de tevê, ao vivo, fazendo uma declaração de amor para você. Não é qualquer homem que faria isso?. Ela: ?Se olhe no espelho e tenha amor por você primeiro?.

0h07, Amaury Jr. (Record): Ele apresenta o grupo Adryana e a Rapaziada. Trava-se o seguinte diálogo. Amaury: ?Sei que você está namorando há mais de sete anos um muçulmano.? Adryana: ?É. O Mohamed?. Ele: ?Você já foi pra lá?? Ela: ?Quando você começa a namorar um árabe, o pessoal já fala: ?Não deixa ele te levar pra lá?. Eu ainda não fui pra lá?.

0h14, João Kleber: ?Julio Sérgio, está claro que a Natasha quer liberdade?."