Sunday, 21 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Mauro Mendonça Filho

BAIXO NÍVEL NA TV

"Ou a TV evolui, ou vai para o brejo", copyright Folha de S. Paulo, 3/03/02

"Que tal tentarmos a civilização?, pergunta Eugênio Bucci ao fim de sua coluna no TV Folha. A proposta soa irônica, mas é ampla em sua essência. Parece apenas mais um questionamento da qualidade da atual programação das TVs, motivado pela concorrência cada vez mais acirrada. Mas suas origens são dignas: oriundas da nossa irrestrita e cada vez mais eterna insatisfação com a falta de evolução em inúmeros setores e serviços do país, dos quais a programação da TV não pode nem deve ser excluída. Uma televisão mais atraente, divertida e construtiva há de ser um reflexo bastante positivo de um povo como o brasileiro, que sempre viveu com ela um intenso caso de amor.

Hoje, porém, essa relação anda um pouco em crise. A TV ainda corteja e seduz o brasileiro -embora ainda insista em rejeitar sua imagem-, mas o satisfaz apenas com o prazer necessário e cotidiano, sem expectativas. O povo, que antes era passivo dentro do monopólio global, saiu de baixo e agora é quem está por cima, ativo na dança da audiência e no manejo do controle remoto. Nunca foi influente ou determinante nos caminhos da programação e hoje ri com o brinquedo que tem nas mãos. De manipuladora, a TV passou a ser manipulada. Vive agora em função dos desejos de diversão do público que, carente de melhor informação, recorre a imagens e formatos ultrapassados e de gostos muitas vezes duvidosos. A demanda vem exigindo cada vez mais a oferta. As emissoras procuram atender como podem, nivelando-se e diferindo muito pouco entre si, de certa forma sem personalidade ou orgulho próprio. A sensação de regressão é forte.

O que há de se atentar é que o momento não é de todo ruim. Pode ser que estejamos no ponto de partida de uma corrida pela diversificação e renovação da programação, ativada por uma concorrência leal. A aparente regressão coloca todos próximos da estaca zero, tendo que olhar pra frente. Vivemos um momento de superexposição das nossas fraquezas morais, sociais e culturais. Um momento crucial em que OU EVOLUÍMOS OU VAMOS PARA O BREJO DE VEZ. O público/eleitor/cidadão deve ser mais exigente nas suas escolhas também, mas, para isso, é preciso que nós, profissionais, ofereçamos mais ferramentas. Se o público de TV não abre mão de ter sexo-violência-romance-humor em toda sua programação, isso não significa que a única opção seja o extremo do popularesco. Há milhares de nuances para lidar com esses elementos, e a sofisticação no tratamento não necessariamente os torna impopulares. ?Os Normais?, ?Agosto?, ?O Rei do Gado?, ?Comédia da Vida Privada?, ?A Muralha?, ?O Auto da Compadecida?. Todas essas obras, que lidam com três dos quatro elementos citados, foram ou são extremamente populares, exibiram maior qualidade no conteúdo e na realização e, de quebra, inseriram importantes informações culturais, sejam contemporâneas ou literárias.

A TV precisa ter mais personalidade e vergonha na cara. Ser mais consistente em seu conteúdo, mais sincera em suas propostas, mais responsável em evitar a bestialização. Mudar de posição e oferecer mais variações na relação com o público. A este, cabe exigir mais.

O momento é crucial. A democracia ainda não chegou à TV. Mas também não chegou às ruas, à política, aos tribunais.

Que tal tentarmos a civilização? (O autor é diretor de TV e responsável pela supervisão de dramaturgia do ?Fantástico?)"