Monday, 24 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Mídia reforça distorções

INTERESSE P?BLICO

EDUCAÇÃO FÍSICA

José Renato Gomes Castro

Venho atuando no campo da Educação Física há 16 anos, e caminho para o doutoramento ? com ênfase nas pesquisas relativas ao "Imaginário social e representações sociais". Atualmente sou proprietário de uma academia de ginástica, na qual trabalho, prioritariamente com idosos, hipertensos, revascularizados e outros clientes em condições especiais de saúde. Sou docente numa unidade militar aeronáutica (como funcionário público federal civil), docente numa instituição isolada de ensino superior ? ministrando a disciplina Fundamentos de Sociologia e Perspectivas Sociológicas na Educação Física e nos Esportes.

O Observatório na TV, nos programas número 6 a 12, exibidos entre 9/6/98 e 21/7/98, registrou preocupações Copa do Mundo, Futebol e Bebida, Atletas e Bebida, Overdose de Futebol. Vejo portanto a atenta preocupação dos editores com um "fenômeno na mídia que assume dimensões planetárias", o esporte influenciando a sociedade.

A partir deste reconhecimento pretendo propor, de forma questionadora, um debate que denuncie o universo desconhecido da Educação Física. E as dimensões ideológicas na história da Educação, o papel da Educação Física como colaboradora na formação de uma cidadania acrítica, a Educação Física que potencializa níveis competitivos destruidores, o desporto competitivo, que cria uma cultura de "drogadição" (drug addiction), com uso de cocaína e bebida. E também dos esteróides anabólico-androgênicos, e a Educação Física escolar, que perdeu lugar na nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB), a Educação Física escolar que deveria visar a dimensão da corporeidade-motricidade, mas parece que só joga bola, a Educação Física que deveria promover uma visão de totalidade transpessoal do Homem-Cosmos, mas sempre fragmentou a existência humana por ter colaborado e reproduzido o paradigma newtoniano-cartesiano e o espírito explorador da industrialização capitalista.

É possível até ressaltar a contribuição ou "deseducação" de programas como Malhação, da Rede Globo, e o real valor dos programas esportivos de todas as emissoras.

Hoje se pode observar, pela onda de fitness e wellness, a vertente alienante-alienadora, que assumida pelo discurso e prática dos profissionais da Educação Física, da área médica, fisioterápica, psicológica, empresarial-administrativa e de propaganda e marketing, potencializa o crescimento e a supervalorização distorcida do trabalho em academias de ginástica, clubes, spas e clínicas de estética.

Sem destaque

Neste ponto cabe formular algumas questões: quem se lembra o que aprendeu com a Educação Física na escola? Esporte é Educação Física? Recreação e lazer é Educação Física? O que é Educação Física e Ciência da Motricidade Humana? A televisão explicita guerras entre torcidas, dopping de ídolos nacionais e internacionais da juventude, venda de pessoas no livre comércio de empresas/clubes, torcidas organizadas que depredam bens públicos e desprezam vidas humanas ? tudo isso deve ser parte das reflexões no campo da Educação Física.

Este debate pede a colaboração de uma equipe de profissionais de imprensa, que enquanto agentes socializadores de conhecimento e fomentadores de uma visão crítica ampliada podem fazer com que a sociedade brasileira leia jornal de forma diferente, aprenda sobre seu corpo de forma diferente, viva a corporeidade e a motricidade valorizando a afetividade partilhada. O apoio de um programa como o Observatório da Imprensa ajudaria a mudança paradigmática na Educação Física, denunciando os apelos da mídia desportivista-capitalista.

É relevante para a sociedade perceber que os conhecimentos que contribuem para a melhoria da saúde e da qualidade de vida dos freqüentadores de academias de ginástica deveriam ser socializados, principalmente, para as pessoas que freqüentam assiduamente as filas para atendimento médico do Sistema Nacional de (falta de) assistência à saúde. As crianças deveriam aprender conteúdos e dinâmicas práticas que as auxiliassem no gerenciamento da saúde e da qualidade de vida pessoal e coletiva.

Então, seria possível proporcionar a crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos melhores níveis de "vida terrenal" (assumindo a linguagem boffiana), além de poder economizar medicamentos, leitos e vidas enfermas. Seria possível minimizar o nível de "violência belicosa", que a postura competitiva no esporte amplia com os "ídolos" criados e perpetuados pela mídia.

O epistemólogo português Manuel Sérgio Vieira e Cunha há mais de 30 anos anuncia a estruturação do novo paradigma na Educação Física. No Brasil temos grandes nomes, como Manuel José Gomes Tubino, José Guilmar Mariz de Oliveira, Nilda Teves Ferreira, João Paulo Subirá Medina, João Baptista Freire, Lino Castellani Filho e uma expressiva "coleção" de exemplos de pesquisadores comprometidos com a reconstrução da Educação Física brasileira. Vejo que estes acontecimentos não recebem o devido e merecido destaque da mídia, o que diminui significativamente as possibilidades de melhoria de qualidade do ensino da Educação Física.

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