Monday, 24 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

"Mário Covas, homem público", copyright iG (www.ig.com.br)

MEM?RIA

ASPAS

MÁRIO COVAS, 1930-2001

"Mário Covas, homem público", copyright iG (www.ig.com.br), 6/03/01

"Se ser bom político é ser matreiro, jeitoso, agradar a todos ao mesmo tempo, Mário Covas não foi um bom político. Ele foi, isso sim, um homem público. E dos raros. Sua vida na política tinha o sentido servir ao público – no coletivo. Não se via numa ação de Covas algo que tivesse beneficiário único. Para a política ele levou sua formação de engenheiro – a racionalidade.

Com esse sentido, Mário Covas usou suas principais características. O deputado Ulysses Guimarães dizia que Covas era teimoso – ?teimoso como uma mula?, disse certa vez. Pois a teimosia foi como enfrentou essa doença. Até ser vencido.

Fernando Henrique disse, recentemente, que Covas era turrão. É fato. Com esse jeito turrão, ele barrava muita coisa. Como, por exemplo, deixar o seu partido, o PSDB, apoiar o governo Collor. Turrão era o mesmo que intransigente em determinadas coisas.

Em cargos executivos, via-se que Mário Covas era meticuloso. Calculava tudo- orçamento, gastos, receita. Tinha tudo de memória. Era capaz de citar, diariamente, a arrecadação de São Paulo, os gastos, e, nos últimos tempos, calcular qual seria o saldo para investimentos. ?Eu sou engenheiro?, dizia, com forte sotaque paulista.

Mário Covas estava feliz com o resultado do governo em São Paulo. ?As coisas estão pipocando pelo Estado inteiro?, disse-me há duas semanas. ?Vamos ter R$ 7 bilhões para investir?, comemorava. Ele listava as obras e os feitos. ?Tem muita coisa acontecendo na Educação e na Saúde?, disse ele, reconhecendo que o ponto fraco de seu governo ainda era a segurança pública – mesmo com tantos avanços obtidos em termos de construção de novas prisões.

No dia 17 de fevereiro, junto com a jornalista Sônia Racy, do Estado de São Paulo, fui convidada a almoçar com Mário Covas na residência oficial do Horto. Ele se sentia muito bem. ?Estou me sentindo bem; estou me recuperando, mas essa doença é traiçoeira…? Sua pretensão era reassumir o governo de São Paulo na Quarta-Feira de Cinzas. E junto com o governo, se envolver na discussão política do momento – a crise dentro da base governista e os problemas do PSDB.

Nos últimos tempos, Mário Covas demonstrava preferência por assuntos administrativos a assuntos políticos. ?O nível da política nunca esteve tão baixo?, disse, neste dia, referindo-se à briga entre Jader Barbalho e Antonio Carlos Magalhães. Mas ele preferia deixar a política para depois do Carnaval. ?Hoje não se fala de política?, disse, mas, logo, se traindo e comentando os últimos episódios. Ele pretendia entrar em cena para fortalecer a pré-candidatura de seu preferido no PSDB, o governador do Ceará, Tasso Jereissati. ?Ele pode até perder dentro do partido, mas não será fritado?, afirmou.

Mas tinha noção exata da força de suas intervenções na política. Foi assim que barrou a ida do PSDB para o governo Collor; que enfrentou Antonio Carlos Magalhães quando este disparava críticas a Fernando Henrique, e também como enfrentou manifestantes em protesto diante da Secretaria de Educação de São Paulo. Para ele, na política era preciso perceber ?o recado das urnas?. Quando perdeu a eleição presidencial de 89, alguém quis queixar do resultado e ele interveio. ?O povo não erra nunca; se votou como votou foi para mandar algum recado; eu preciso agora entender esse recado?, comentou.

Mário Covas foi desses homens públicos raros. Gostava de dizer que o político precisava ter pelo menos três princípios: honestidade, espírito público e apreço pela democracia."

"Um político raro", copyright iG (www.ig.com.br), 6/03/01

"Coerência e dignidade são palavras que os brasileiros dificilmente associam aos seus políticos. Pois elas estão associadas a Mário Covas, o governador de São Paulo que nos deixa após um período de tocante luta contra uma doença incurável.

O político Mário Covas nem sempre tomou as posições mais adequadas ao imenso dinamismo do mercado em que vivemos, é bom que se diga. Mas Covas marcou o seu pensamento e a sua ação política pela defesa da democracia e pela procura de soluções para atender preferencialmente o interesse coletivo.

Sua coerência política, muitas vezes chegando à intransigência, levou-o a criar um espaço próprio dentro de seu partido e na política brasileira, e a ganhar a fama de ?turrão?. Mas foi ela que, em contraste com o festival de alianças oportunistas que marca a política brasileira, reservou a Mário Covas uma posição proeminente nas grandes decisões que reconduziram o País à vida democrática nas últimas três décadas, criando em torno dele uma aura de credibilidade respeitada à sua direita e à sua esquerda.

O governador Mário Covas arrumou a casa em São Paulo. Não tivesse sido prematuramente afastado do cenário político, seria um dos principais atores no processo de sucessão presidencial que já está em curso – ele mesmo, o mais credenciado dentro de seu partido para disputar o cargo ocupado por Fernando Henrique Cardoso.

Mário Covas enfrentou a doença além do limite das forças humanas e exigiu que a população estivesse sendo o tempo todo esclarecida sobre a sua evolução. Essa foi a última das suas turronices: um raro caso de político brasileiro que, ao vislumbrar o final da vida, pensou no direito do público antes do seu direito à privacidade. (Matinas Suziki Jr. é vice-presidente do iG)"