Thursday, 13 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1291

Nahum Sirotsky

COBERTURA DE GUERRA

“Correspondente iG: Não dá para informar com precisão, diz BBC”, copyright Último Segundo (http://ultimosegundo.ig.com.br/useg/), 27/03/03

“Quando se vai à frente de batalha, acompanha-se um grupo relativamente pequeno de guerreiros. Ninguém vê milhares deslocando-se. Vê-se, na melhor das hipóteses, passando diante dos olhos do correspondente em posição estática.

Nas manobras – avançar ou recuar – o repórter acompanha um grupo de poucos e faz o que eles fazem. Não há tempo para conversa. Cada um cuida de si. Se for atentar ao companheiro do lado não terá os reflexos para reagir ao perigo. O homem da frente só tem uma idéia do que faz. E daqueles que acompanha fica sabendo depois, no descanso.

Aí, cansado da corrida, ou da emoção de enfrentar a morte, precisa respirar fundo, recuperar a calma e, só depois, trocar impressões com os homens ao seu lado. O repórter da frente vai para ver indivíduos em batalha. Sentir com eles o que sentem. Falar do João. Ele informa sobre emoções e atos de uns poucos. A guerra só é compreendida nos postos do Comando, diante do mapa geral onde se registram todos os deslocamentos se, claro, tiver sido previamente informado do que se pretende e como se imagina realizar o objetivo.

A informação exata das manobras da tropa não pode ser transmitida antes de concretizadas. Seria prevenir o inimigo. Um ato de traição. As conversas com indivíduos valem pelas histórias recolhidas, contanto que não contenham detalhes que possam servir ao serviços de inteligência do lado oposto.

Estes contam com gente que concluí de cada movimento quase o mesmo que um bom rastreador lê no solo. Ele identifica estilos de operar, prováveis objetivos. Os dados passam a ser como a identidade da tropa analisada. Sem um bom serviço de inteligência, as mais poderosas forças armas podem cair em ciladas. E sofrer derrotas por pequenos grupos de guerrilheiros.

Todo este prefácio é para que se compreenda que pouco da verdade é informado antes de ser história. Mas aí é noticia de ontem, pois novos movimentos terão sido realizados posteriormente.

Para acompanhar uma guerra, mesmo a moderna, o repórter tem que estar consciente dos limites a que está submetido. E não ter preconceitos políticos. E também, dependendo de sua missão, tem que ter um preparo físico e intelectual adequado. Reflexos. Não deve arriscar-se desnecessariamente, o que qualquer soldado veterano sabe.

Jornalista morto não pode contar coisa alguma. E, no máximo, seu veículo ?chorará? sua perda numa nota de primeira pagina ?pois o show deve continuar?. Ele pode até ser um dos viciados na emoção de arriscar a vida e sentir-se vivo depois. Nada se compara ao que se sente. Ele promete a si mesmo nunca mais meter-se numa destas.

Mas é sempre voluntário. Na frente do Iraque, do lado atacante, o da Coalizão, reconheço, pelos nomes, muitos que não conseguem sequer aceitar trabalhar na retaguarda. Há muitos na idade do juízo, nos 50 ou mais, competindo com a meninada, homens e mulheres, no seu primeiro teste do gosto de viver perto da morte.

Nesta guerra de poucos dias, já morreram mais colegas do que nas guerras do Afeganistão e na primeira do Golfo. Azar de uns e despreparo de outros. E mais cairão, pois a guerra tende a ser prolongada e violenta. Já ocorreram muitas mortes de fogo amigo, como se qualifica a ação que mata companheiros por confundi-los com o inimigo.

A tropa é muito bem treinada. Mas, novamente parafraseando o grande Didi, ?treino é treino, guerra é guerra?. O soldado sem prévia experiência tende a sofrer de dúvidas e tremedeira nos primeiros confrontos. Tem um dedo nervoso no gatilho. Pode ser mais perigoso do que o inimigo.

Mas os que forem sobrevivendo terão tempo de aprender. Os próprios Bush e Blair admitem que será um longa guerra. Até se anuncia a chegada de mais tropas em março. As presentes, como informei, são insuficientes. A superioridade numérica é essencial às tropas atacantes. As na defensiva montam posições das quais criam obstáculos de difícil superação. E é pior quando a luta é em centros urbanos, nos quais o inimigo está em todos os cantos e defende sua própria vida. No caso de Bagdá existe, além de tudo, a grande dúvida: que armas empregará Saddam?

Daí a importância do que diz o diretor dos noticiosos da BBC de Londres. O nome é Richard Sambrook. E ele concorda que existem dificuldades ?em informar com precisão?. Um veterano acusou seus colegas de distorcerem a verdade. Ele diz que ?ninguém, incluindo a mídia, tem uma compreensão do quadro da batalha?.

Paul Adams,um dos seus mais experientes correspondentes, acusou colegas de exagerarem as perdas da Coalizão. Uma porta-voz da BBC repeliu a acusação do diário ?The Sun?, de Londres, de que a cobertura tinha um preconceito contra guerra. Sambrook explicou-se dizendo que é muito difícil transmitir notícias ao vivo 24 horas ao dia pois não há tempo de decidir – ao vivo, em tempo real – o que é verdade e o que não é. E, sem dúvida alguma, mesmo com tempo suficiente, a BBC teria de escolher as verdades que pudessem ser transmitidas sem favorecer ao inimigo. Todos têm esta obrigação, que assumem.

A guerra ao vivo, em tempo real, na televisão, acaba repetindo imagens. E sofrendo os mesmos problemas das guerras anteriores: censura prévia ou, respeitando as normas, a auto-censura do repórter. Veremos como se resolverá o dilema na batalha decisiva, que será a de Bagdá, que deve ser sangrenta. E na qual o jornalista de frente será menos bem-informado do que seu público, e muitos mais serão sacrificados. A guerra pode ser bonita em imagens, mas não é brinquedo.”

“Correspondentes”, copyright No mínimo (htttp:// nominimo.ibest.com.br), 27/03/03

“A guerra anglo-americana ao Iraque vai provocar uma definitiva revisão do papel, da utilidade e do conceito do correspondente de guerra. Acabou de vez, definitivamente, para sempre – e há muito tempo, se por acaso as pessoas não haviam percebido – a figura romântica, hemingwayana dos repórteres que vão à luta pela notícia no front, tentam contar o que vêem e, sobretudo, procuram oferecer a leitores, telespectadores e, agora, internautas o significado de tudo aquilo.

A torrente de informações que estamos recebendo sobre a guerra vai de irrelevantes e comezinhas descrições do dia-a-dia de repórteres que, na verdade, não sabem nada, até à cobertura facciosa transformada em propaganda deslavada (veja-se a Fox News, disponível nos sistemas de TV paga Sky e Net). No meio, a espetaculosidade gratuita e vazia: de que nos servem repórteres dependurados em tanques rumando para Bagdá, mostrando imagens por videofone?

Cobrir uma guerra é difícil, dificílimo – um dos supremos desafios do jornalismo. Não se pretende fazer pouco de quem tenta cumprir essa tarefa. Mas na verdade poucos são os jornalistas que, à custa de imenso sacrifício, estão conseguindo ser realmente úteis à compreensão da avalanche de informações ora desabando sobre o cidadão comum.”

“Cobertura para francês ver”, copyright Valor Econômico, 29/03/03

“Fato raro no plenário do Conselho de Segurança da ONU, os aplausos entusiastas ao discurso anti-guerra proferido recentemente pelo ministro de Relações Exteriores francês, Dominique de Villepin, não foram ouvidos pelos americanos. Os canais CNN, Fox News e MSNBC julgaram de bom tom não exibir a manifestação aos seus telespectadores, diferentemente da mídia francesa, que a explorou ao máximo. Já na Espanha, as numerosas passeatas pacifistas do dia 15 foram transmitidas ao vivo pelos canais privados locais, mas foram solenemente ignoradas pela TV pública do governo José María Aznar, favorável ao ataque contra o regime de Saddam Hussein.

Entre os diversos slogans ressonados nas ruas espanholas, um revelava um protesto contra outro tipo de conflito, travado por meio de imagens: ?Television, desinformación!?. A França, país que se impôs como líder na oposição ao belicismo de George W. Bush, ficou fora do front de guerra, mas está presente na luta pela informação, com enviados especiais em inúmeros pontos da região, Bagdá inclusive, e uma abundante cobertura televisiva do conflito. Depois da Guerra do Golfo, em 1991, a mídia francesa sofreu uma avalanche de críticas e fez um certo mea-culpa por ter caído nas armadilhas da manipulação da informação durante a cobertura. O que mudou em 2003?

Para Sylvie Braibant, editora-chefe no canal TV5 do programa Kiosque (um debate dominical com correspondentes estrangeiros baseados em Paris), nada mudou: ? Depois da primeira guerra do Golfo, sempre ouvi nas redações as pessoas dizerem ?agora vamos fazer melhor, não vamos repetir os mesmos erros de antes?, mas acho que caímos nos mesmos desvios ? , diz. Segundo ela, o fluxo ininterrupto de imagens exbidas na programação, obtidas de forma limitada pelos cinegrafistas, e acompanhadas das opiniões dos mesmos ?experts? militares, é ?desesperador?. ?Falta profundidade à cobertura francesa e um distanciamento maior do factual. É preciso dar mais espaço à discussão, e não se contentar com a troca de palavras entre militares que se interrogam sobre se o terceiro batalhão já avançou 100 metros ou não?, defende.

Em relação ao grau de imparcialidade da cobertura, ela também é definitiva: ?Nenhuma TV francesa faz uma cobertura neutra. Foi adotada a posição do governo francês. Não sei se é consciente, mas não vejo nos debates televisivos muitos convidados com pontos de vista contrários à posição adotada pela França. É mais flagrante na France2 e France3 (canais estatais), mas no geral há um tomada de posição, mesmo que não seja confessa?. Quanto às imagens, Sylvie não vê muita diferença em relação aos diversos canais: ?Dispomos de todas as imagens, e a Al-Jazeera não é melhor do que a CNN, será sempre uma fonte única. E os enviados especiais com informações transmitidas por telefone, hoje, são mais numerosos. Mas será que dizem coisas diferentes dos outros? Hoje, tendo a assistir menos à televisão e a escutar mais o rádio.?

Pesquisador especialista em mídia do Centre National de Recherches Scientifiques (CNRS), Jean-Marie Charon diverge: as TVs francesas aprenderam, sim, algumas lições desde a guerra do Golfo. ?Hoje, a cobertura é mais prudente. A maioria dos jornalistas revela a origem das fontes e assinala que elas estão envolvidas no conflito. Os repórteres estão mais precavidos, usam mais o tempo condicional?, diz. Isso não significa, porém, mais informação. ?Muitas cenas são filmadas em meio à ação, temos a impressão de viver a guerra no seu desenvolvimento militar, mas não sabemos do que se trata?, denuncia.

Os canais estatais France2 e France3 substituíram as expressões oficiais amplamante utilizadas em guerras passadas: ?danos colateriais? cedeu lugar a ?vítimas? e ?limpar a área? foi trocado por ?destruir?. Mas será que isso teria ocorrido se a França estivesse integrada à coalizão de guerra? Jean-Marie Charon concorda que há uma tomada de partido por parte das TVs: ?A tendência da mídia francesa é ser institucional, mas nesse caso, como o país não está engajado no conflito, teria menos razões para sê-lo. No entanto, quando vemos, nos debates, os jornalistas e ?experts? com opiniões similares, podemos nos perguntar o que esse consenso esconde. Numa síntese da linha das maiores TVs francesas, Charon vê uma tentativa das redações em sustentar duas idéias: de um lado, o objetivo da guerra anglo-americana talvez não seja tão legítimo, os aliados parecem ter se engajado em uma aventura, e a guerra não é tão simples como parecia; de outro, o regime iraquiano não é defensável.

O jornalista Patrick Denaud, autor do livro ?Iraque – Guerra Permanente? (que acaba de ser lançado no Brasil pela Qualitymark), tenta amenizar as críticas ao trabalho dos enviados especiais. Ele fala com conhecimento de causa: participou da cobertura da guerra Irã-Iraque para a TV americana CBS, esteve também na Guerra do Golfo e depois retornou várias vezes à região para reportagens. ?O trabalho das TVs estrangeiras é muito limitado. Você é completamente enquadrado pelo Ministério da Informação Iraquiano, está sempre sob o controle de alguém do governo. As imagens dos correspondentes americanos, censuradas pelos iraquianos, não fornecem informações objetivas. E ainda há os rumores, a desinformação. Ele relembra que, na guerra de 1991, com exceção de Peter Arnett (CNN) e de alguns freelancers, não havia jornalistas em Bagdá: ?Hoje, há pelo menos uma centena e, mesmo que sejam controlados, conseguem passar alguma informação, embora não possa ser a mais completa.? Se depender das fontes iraquianas, o problema será similar: ?Depois de um bombardeio, eles não vão nos mostrar os estragos militares e os mortos da Guarda Republicana, mas apenas as vítimas civis.?

O crítico de TV do jornal ?Le Monde?, o polêmico Daniel Schneidermann, recorre à ironia para ilustrar a evolução da cobertura de guerra nas TVs francesas: ?Pode-se notar mudanças para melhor. Hoje, quando os jornalistas não sabem, eles dizem ?não sei?. É só o que se ouve do início ao término dos telejornais.? Schneidermann critica a ?interminavel? programação diária sobre a guerra nas TVs francesas, pobre em informações, e dispara: ?Não me sinto informado pela televisão. Sinceramente, acho que a TV não encontrou seu lugar na informação dessa guerra.?”