Monday, 24 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Nahum Sirotsky

COBERTURA DE GUERRA

“Correspondente iG: A inesquecível Al-Jazeera”, copyright Último Segundo (www.ultimosegundo.com.br), 5/04/03

“Meios de comunicação permitem, por meios digitais, transmitir batalhas em tempo real que enxergam melhor do que o repórter. Existe, como sempre, a censura. Em outros tempos, o bom jornalista fazia de cada despacho uma história na qual misturava-se o humano com fatos permitidos.

Os colegas das agências de notícias tinham tarefa mais difícil. A Agência serve veículos para diferentes países e correntes de pensamento. O colega obriga-se se fixar nos dados apenas para que possa ser aceito por jornais de qualquer país. E é censurado nos países em guerra que só querem notícias que favoráveis ao seu lado.

Poucos hoje têm talento para humanizar as lutas. Urge falar de experiências individuais. Só gente que tem cara, sentimentos, sofre. O herói é aquele que sobrevive a um gesto em benefício dos companheiros. Não há divertimento nas guerras. Existe a alegria de sobreviver a mais uma manobra. Emoção que exige narradores e espaço nos jornais. São raros os colegas escritores. A explosão de talento vem depois, não raro em obras primas. Mas sob fogo é raro.

Mas, para que toda esta conversa? O século passado foi de inúmeras guerras e fabuloso progresso nos meios de comunicação. A internet, o telefone digital, o vídeo digital. Mas tudo depende do talento do jornalista e da censura. Em casa, por cabo ou satélite, podemos literalmente ver o mundo bebendo uma bira gelada, mas só nos mostram a parte da verdade autorizada a ser transmitida.

A guerra do lado americano é acompanhada passo a passo por correspondentes bem preparados. A BBC, por exemplo, quando mostra o lado iraquiano, não deixa de avisar que o repórter é sujeito a limites a censura. Todos somos. Do lado americano vê-se uma guerra higiênica. Maquinas, soldados que sabem o que podem dizer, correspondentes de boa pinta. As moças na frente são da gente querer aplaudir. Calmas, controladas, bonitas. Já morreram muitos colegas.

Kelly, do Washington Post, ontem parou o carro para um ?pipi? e pisou numa mina. Lembro de Robert Capa, o maior de todos os fotógrafos de guerra, que tem um museu com sua obra. Viajava despreocupado num jipe, numa das guerra de Israel. A estrada estava limpa. O jipe explodiu em cima de mina. As fotos de Capa contavam tudo. Bastava vê-las para sentir a guerra. Kelly estava a caminho da grandeza.

As regras impostas pela censura estão castrando talentos. Todos narram fatos autorizados. É uma guerra de garotos corajosos e jornalistas valentes. Do maior número de mulheres reportando da frente, onde também lutam soldadas. Mas há grande semelhança no que todos contam.

A informação é uma arma. A censura visa a fazer com que seja a favor. A guerra americana é higiênica. Pouco se vê dos efeitos sobre os vivos. A Al-Jazeera, a emissora árabe a que se assiste em toda esta região e vai ao mundo, exagera no posto. Suas imagens mostram o horrível das guerras. As vítimas de todas as idades. Corpos deformados e destroçados. A morte. Ela chegou a ser expulsa do Iraque por certas imagens que não favorecem o que os homens de Saddam querem mostrar. As dolorosamente horríveis imagens servem para provocar reações no mundo árabe. Não convém mostrá-la aos iraquianos que ainda vão lutar.

As imagens da Al-Jazeera, do pequeno Catar, são as que vão permanecer na memória do mundo árabe. E a invasão de Bagdá, um pais árabe, por tropas de outra religião. Sofreu a última por volta do ano 1.250 pelas cruéis tribos mongóis com suas facas curvas ultra-afiadas.

Blair, da Grã-Bretanha, previne que as vitórias de hoje não são o fim. A guerra ainda vai durar, disse. Nova mudança na conversa. Agora Saddam é irrelevante. Não é a Saddam que se quer. É o desmonte do regime.

Sempre repito, pois se esquece fácil. No Oriente Médio ainda se pratica a lei do ?olho por olho?. E as organizações extremistas não foram derrotadas.”

“?Não adianta esconder?”, copyright O Globo, 5/04/03

“Não adianta esconder das crianças as imagens da guerra no Iraque: elas vão vê-las de qualquer forma, na casa de amigos e nas ruas. Serge Tisseron, psiquiatra e psicanalista, diretor de pesquisas da Universidade Paris, que acaba de publicar o livro ?Les bienfaits des images?, aconselha os pais a não tentarem explicar às crianças uma guerra que nem eles entendem. ?Para as crianças?, diz em entrevista ao GLOBO, ?o que importa é se sentirem seguras?.

Quais os efeitos das imagens de guerra sobre as crianças?

SERGE TISSERON: Não podemos saber as imagens de guerra que mais afetam as crianças sem falar com elas. Um adulto pode ficar perturbado com uma imagem que mostra um cadáver. Mas uma criança pode ficar perturbada com outro tipo de imagem, como uma que mostra um brinquedo no meio dos destroços de uma casa. O adulto não deve se guiar por suas próprias emoções para saber o que afeta a criança. É preciso dar espaço à criança para que ela diga: ?eu também estou chocado com essa imagem?. Ou: ?essa imagem não me diz coisa alguma, mas a imagem de uma criança que chora me deixa angustiada?.

Nesse diálogo, o que é mais importante?

TISSERON: O importante é que os pais dêem segurança às crianças de que estão a seu lado para protegê-las. Para que isso aconteça, é preciso que os pais superem o medo. As crianças precisam dos adultos para ajudá-los a superar seus medos.

Dizendo que as tragédias da guerra não vão acontecer com elas, por exemplo?

TISSERON: Sim. Pode-se dizer às crianças: ?essas coisas são terríveis, mas isso se passa no Iraque?. É muito importante mostrar às crianças o mapa. Trata-se de uma forma de dar segurança, provar que isso está acontecendo longe de casa e que os pais estão sempre por perto para protegê-las. Um exemplo são os contos de fada. Os pais contam histórias horríveis, mas as criançccedil;as estão calmas, se sentem seguras. O mesmo acontece com as notícias da atualidade: se os pais ajudam a criança a tomar distância em relação a um episódio, ela se sentirá segura.

Relatar a guerra como um conto de fadas?

TISSERON: (risos). Não! O que quero dizer é que uma criança pode se deparar com imagens muito angustiantes, mas se seus pais não conseguirem lidar com suas próprias angústias, a criança vai se sentir insegura e ficará ainda mais angustiada.

Difícil explicar a guerra a uma criança pequena, não?

TISSERON: Não dá para explicar uma guerra, ou compreender. Nós nem sabemos por que Bush faz a guerra. Alguns dizem que é por causa do petróleo; outros, por causa de sua moral cristã, ou para desenvolver seu modelo no Oriente Médio. Não entendemos a guerra, então não vamos tentar explicá-la às crianças. O que importa para elas não é a explicação da guerra, é a sensação de segurança, é saber que, se alguma coisa de grave acontecer no seu país, seus pais estarão lá para protegê-las, porque eles as amam.

Como detectar o trauma das crianças?

TISSERON: Quando uma criança desenha sempre o mesmo episódio e de forma idêntica, isso prova que ela está terrivelmente perturbada. Se faz vários desenhos diferentes sobre o mesmo tema, é uma demonstração de que está tentando digerir o episódio. Se não quer falar de uma imagem chocante que viu, isso prova que recebeu muito mal essa imagem.”