Sunday, 03 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Nelson de Sá

“Na última reunião do TVer, a entidade criada em junho de 97 para a discussão da qualidade da TV brasileira, foi apresentada a primeira pesquisa do grupo, sobre ‘mulheres e televisão’. O resultado mais surpreendente foi que, para 79% das 253 mulheres entrevistadas no Estado de São Paulo, a programação atual não transmite a imagem da mulher ‘real e verdadeira’.

No relato bem-humorado de Paulo Roberto Ceccarelli, psicanalista integrante do TVer e doutor pela Universidade de Paris 7, ouviram-se na reunião reações do tipo ‘nossa, como as mulheres estão, hein?!’. O ‘espanto’ foi devido à ‘impressão de que é absolutamente inusitado que as mulheres possam pensar dessa forma’.

Não apenas quanto à imagem geral das mulheres, refletida na TV, mas quanto aos programas. Para 59%, a programação não tem a ver com ela própria, entrevistada. Mas nem todos os resultados foram da mesma ordem. Em outro ponto do levantamento, 51% das entrevistadas de classe C disseram que a programação da TV no país ‘deixa a mulher mais culta’, no sentido de ajudar na formação.

Para Ana Cristina Olmos, diretora do Centro de Estudos para o Desenvolvimento da Criança (Cemdec) e também integrante do TVer, esse e outros resultados semelhantes e contraditórios da pesquisa confrontam a sua própria experiência de trabalho. ‘Eles estão mais ligados à ausência de capacidade crítica’, diz.

O levantamento foi encomendado pelo TVer à CPM Market Research, empresa de pesquisas de uma outra integrante da entidade, Oriana Monarca White, como parte da discussão sobre a mulher – o primeiro tema do grupo, este ano, no esforço de ‘ajudar a formar telespectadores críticos’. O TVer, em parte devido às comemorações do Dia da Mulher na próxima segunda-feira, definiu que os primeiros meses deste ano serão dedicados à mulher.

Além da pesquisa TVer/CPM, outras ações do grupo nesse âmbito incluem questionar publicamente passagens pontuais da programação das emissoras. Foi o caso de uma carta enviada pela ex-deputada federal Marta Suplicy, coordenadora do TVer, ao presidente das Organizações Globo, Roberto Marinho. A carta, divulgada publicamente no início de fevereiro, criticava uma reportagem do programa ‘Fantástico’ em que as jovens tinham que escolher, num esquema copiado do ‘Você Decide’, entre a mãe biológica e a adotiva.

Magra, alta e loira

Para Ana Cristina Olmos, o ponto central do levantamento foi mesmo identificar que a mulher não vê a sua imagem refletida na programação oferecida atualmente pela TV brasileira. ‘Essa imagem não é inadequada apenas para a própria mulher, mas para a menina, para o homem, para o filho’, diz a diretora do Cemdec. ‘Essa mulher que é apresentada na TV não existe, seja no perfil físico, seja no psíquico.’

Segundo ela, a mulher que é mostrada na programação atual como mais desejada, por exemplo, tem pouco a ver com o biotipo da brasileira. ‘É uma mulher extremamente magra e alta, o que é muito difícil de ser atingido pela adolescente brasileira. Ela não é uma jovem nórdica, loira, de olhos claros. O ataque à auto-estima da menina começa aí.’

Embora a pesquisa não abranja as classes D e E, Ana Olmos acredita que a dificuldade de identificação de imagem se repete, da mesma maneira ou até mais, entre as mulheres mais pobres. ‘No Brasil, a menina pobre, além de não ter o perfil físico, não tem o dinheiro para comprar, por exemplo, os produtos que aparecem em ‘Malhação’, os produtos das meninas bem-sucedidas das novelas’, diz. ‘Na verdade, não tem como comprar nem mesmo os produtos das meninas malsucedidas.’

Avental

Para Paulo Roberto Ceccarelli, as mulheres não se sentem refletidas na TV porque é ‘de fácil constatação que a grande maioria dos programas tem como alvo o público masculino’. Uma opção de mercado, segundo ele. ‘É o homem que detém, majoritariamente, o poder aquisitivo’, diz Ceccarelli. ‘Logo, é ele que tem mais chances de ceder às ofertas de consumo. Grande número de publicidades dirigidas ao público feminino, curiosamente, sugere que, para terem o que desejam, as mulheres devem convencer -seduzir- o companheiro.’

Marta Suplicy comenta, nesse sentido, um levantamento feito pelo instituto de pesquisas Ibope e apresentado no jornal ‘Gazeta Mercantil’, também esta semana, indicando que a audiência feminina caiu 10% no Rio e 8% em São Paulo, entre 91 e 98.

‘A pesquisa do Ibope bate toda com a nossa’, diz ela. ‘É exatamente isso. Mostra como os publicitários estão completamente perdidos com as mulheres, hoje. A mulher que está sendo projetada na televisão não corresponde mais à mulher verdadeira, como ela se vê. Ela não quer mais ser mostrada como uma pessoa que está lá na cozinha, de avental’.

“A mulher da televisão brasileira é irreal, diz TVer”, copyright Folha de S. Paulo, 6/3/99

“Depois de protagonizar os episódios do Latininho e do sushi erótico, marcas do baixo nível na televisão brasileira, o ‘Domingão do Faustão’, da Rede Globo, acaba de adotar um código de ética próprio, resumido a um decálogo.

Pelo manual do programa, nunca mais irão ao ar episódios como o Latininho (menino deficiente físico e mental, que sofre de uma doença que impede seu crescimento, exibido em 8 de setembro de 96) e do sushi erótico (comida japonesa servida sobre o corpo de uma mulher nua – ‘Domingão’ de 26 de outubro de 97).

Documento não-oficial da Rede Globo, mas que serve para orientar os 60 profissionais que trabalham no ‘Domingão do Faustão’, o decálogo veta ‘a transformação em espetáculo do erótico, do pornográfico, do bizarro, da tragédia e da miséria humanas’, estimula o ‘compromisso social com o bom gosto, o bom senso, a clareza e a seriedade’ e repudia o ‘preconceito’. São as diretrizes de um ‘programa popular’, que ‘busca sempre a audiência e a liderança com qualidade’ (veja quadro abaixo).

Às vésperas de completar dez anos no ar, no próximo dia 28, o ‘Domingão do Faustão’ continua numa disputa acirrada pela audiência dominical com o ‘Domingo Legal’, do SBT, e tem a responsabilidade de gerar um um faturamento de US$ 150 milhões por mês (o mesmo da Record em todo o ano passado).

Foi o programa de Gugu Liberato que, indiretamente, provocou o episódio do sushi erótico, quando passou a ser exibido no mesmo horário do ‘Domingão do Faustão’ e que, pela primeira vez, tirou a supremacia da Globo nos índices do Ibope, que já durava oito anos.

O programa de Fausto Silva perdeu para o de Gugu Liberato a maioria dos programas exibidos entre outubro de 97 e abril de 98.

Em maio de 98 o placar reverteu favoravelmente para o ‘Domingão’. Desde então, a cada vitória do SBT foram três da Globo.

Mas, depois de liderar em todos os domingos de 99, a preocupação voltou à Rede Globo nos últimos dois domingos, quando o ‘Domingo Legal’ voltou a ser ao vivo.

Primeiro, em 21 de fevereiro, graças à Tiazinha Suzana Alves e aos seios nus de Elba Ramalho, o programa de Gugu goleou o de Fausto Silva por 20 pontos a 15.

No domingo passado, o placar foi 19 a 19, na Grande São Paulo, onde cada ponto equivale a cerca de 80 mil telespectadores. O ‘Domingão’ saiu dos ‘trilhos’ (como a Globo define a meta de audiência de uma atração), no caso de no mínimo 20 pontos de média.

O tira-teima será nos próximos domingos. ‘Podemos perder a audiência, mas não vamos apelar a baixarias. Fico em segundo lugar, mas não ponho a Tiazinha depilando o Dinei no ar’, promete Alberto Luchetti, 45, diretor geral do ‘Domingão do Faustão’ e autor do decálogo, se referindo a quadro do ‘Domingo Legal’ no dia 21.

Baseado no código de ética do ‘Domingão do Faustão’, o apresentador Fausto Silva chamou o intervalo, domingo passado, deixando de explorar as lágrimas do cantor sertanejo Leonardo, que ficou emocionado com depoimentos para que ele desistisse de encerrar sua carreira solo.

O código, no entanto, não impede a exploração de boatos como o do fim da carreira de Leonardo e bobagens como a de uma foto do cantor Daniel em que supostamente aparecia o ‘fantasma’ de seu parceiro João Paulo, morto em um acidente em setembro de 97.

Para Alberto Luchetti, o importante no episódio da fotografia de João Paulo era ‘que o negativo não era fraudado’, pois o programa havia providenciado um laudo da Polícia Civil de São Paulo, embora o perito não descartasse que o fantasma pudesse ser resultado de uma superexposição.

‘Quando houver um assunto desses, vou me cercar de todos as maneiras para não cometer equívocos’, diz.

A nova orientação, com o decálogo, vem trazendo segurança ao apresentador Fausto Silva.

Relatório interno da Rede Globo, obtido pela Folha, execra os episódios Latininho e sushi erótico, adjetivados como ‘tropeços’. Diz o texto que esses episódios ‘agravaram um clima de instabilidade e desagregação’, que suas marcas ainda não se apagaram na ‘memória do programa e da imprensa, gerando reflexos negativos sobre a atuação do próprio apresentador’.

‘Buscava-se a audiência a qualquer custo, privilegiando a má qualidade e equiparando-se à concorrência. Ou seja, nivelando por baixo, com derrotas em São Paulo e sérios reflexos na audiência do Rio de Janeiro’, diz o documento.”

“Domingão do Faustão adota código de ética”, copyright Folha de S. Paulo, 6/3/99

“A iniciativa do secretário Nacional dos Direitos Humanos, José Gregori, de promover e liderar a discussão sobre a qualidade da programação das emissoras de TV brasileiras parece estar agradando aos telespectadores. O indicador é o resultado de uma pesquisa encomendada pelo Grupo TVer à empresa CPM Market Research. Constatou-se, entre outros pontos, que 71% das 842 pessoas ouvidas das classes A, B, C e D, entre 14 e 39 anos, nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, acham que o governo deve interferir de alguma forma na programação da TV.

‘Isso mostra que estamos legitimados pela maioria da população’, analisa o secretário. Com a maioria dos entrevistados aprovando a interferência do governo na manutenção da qualidade da programação das TVs, foi indagado o que o executivo poderia fazer, na prática, para inibir o baixo nível dos programas. O Grupo TVer foi criado há pouco mais de dois anos pela sexóloga e ex-deputada Martha Suplicy. O grupo reúne 23 representantes da sociedade civil, entre psicólogos, advogados, psicanalistas e jornalistas, que discutem formas de contribuir para a melhoria da qualidade da programação da TV brasileira.

O resultado sugere, mais uma vez, que se está no caminho certo. Para 48% dos entrevistados, o governo deveria estimular a redação de um manual de qualidade. O manual já existe na TV Bandeirantes e, mais recentemente, foi desenvolvido pela produção do Domingão do Faustão que, a na disputa pela audiência das tardes de domingo, saiu da linha algumas vezes zombando de um deficiente físico e apresentando mulheres nuas servindo de bandeja para marmanjos saborearem um sushi.

Para 36% das pessoas ouvidas, as emissoras que apresentarem programas considerados apelativos devem ser punidas com multas severas. A opinião do telespectador, nesse caso, bate com a decisão dos donos das emissoras. No dia 10 de dezembro, sentaram-se ao redor da mesma mesa, numa reunião inédita, Silvio Santos, do SBT, João Roberto Marinho, da TV Globo, José Carlos Martinez Correa, da CNT, e Johnny Saad, da Bandeirantes. Ficou decidido que, por meio da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e TV (Abert), será criada uma comissão independente para aplicar multas às emissoras que desrespeitarem o código de ética da entidade, que também deve passar por revisão, já que data da década de 60.

Para 16% das pessoas ouvidas, o rigor deve ser ainda maior: os donos das emissoras devem ser punidos com a não renovação de sua concessão. Isso pode acontecer. Não por causa de sua programação, mas porque acumula um débito tributário e previdenciário de aproximadamente R$ 250 milhões, o controlador da TV Manchete, Pedro Jacques Kapeller, está ameaçado de não ter a concessão renovada. O ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, deu prazo até 18 de maio para a emissora saldar suas dívidas. A concessão da Manchete venceu em 1996.

A pesquisa aproveitou também para avaliar se o telespectador conhece o secretário José Gregori. Dos entrevistados, 82% disseram nunca ter ouvido falar em Gregori, enquanto 18% disseram conhecê-lo. ‘Fiquei satisfeito só em saber que não sou um anônimo’, comentou o secretário, bem-humorado. O secretário é mais conhecido entre as mulheres (84%) do que entre os homens (79%) e entre os entrevistados mais velhos, de 35 a 39 anos (27%) do que entre os mais jovens, de 14 e 15 anos (10%).

A pesquisa também quis identificar se os entrevistados sabiam o que o secretário José Gregori estava fazendo no governo. A grande maioria (79%) não soube dizer. Dentre os que responderam, a questão da TV ficou em primeiro lugar. Melhorando a programação da TV foi a resposta de 8% dos entrevistados; cuidando da reforma previdenciária foi citado por 7% e tentanto libertar presos políticos foi a resposta de 6% dos telespectadores ouvidos.

Para o secretário, a programação da TV tem sofrido melhora nas últimas semanas. Ele cita dois exemplos, ambos da TV Globo. ‘Diverti-me muito com um episódio do A Vida ao Vivo, de alto nível e que utilizou apenas uma palavra heterodoxa.’ O secretário prefere chamar palavrão de palavra heterodoxa.

O segundo exemplo citado pelo secretário é o Jornal Nacional. Para o secretário, na semana em que apresentou as cenas do massacre em Serra Leoa, na África, o telejornal poupou o telespectador das cenas mais violentas e, antes de exibir a reportagem, alertou para o seu conteúdo. ‘Isso não era costumeiro’, avalia.”

“Governo deve interferir nas TVs, aponta pesquisa”, copyright O Estado de S. Paulo, 10/3/99

“Com crise se cresce. Esse é o slogan adotado pelo SBT para entrar em sintonia com os ares do segundo mandato. Muito mais que o suposto apelo patriótico, o que ressalta na frase é o elogio da esperteza e da competição individualista que ela embute. Na crise, fatura quem tiver mais condições e menos escrúpulos para passar os outros para trás.

É mais um exemplo da aclimatação brasileira da cartilha neoliberal. Em compasso, aliás, com a política oficial de Brasília, que manda cortar o dinheiro da cesta básica dos famintos em nome do esforço fiscal.

A contribuição do SBT ao país, no entanto, não se restringe ao slogan edificante. A programação da emissora tem se esforçado para colocá-lo em prática. Tome-se o caso do ‘SBT Repórter’ da semana passada, cujo tema, em tese, seria o desemprego.

A pauta do programa, apresentado por Marília Gabriela, ela mesma, é uma espécie de achado dos novos tempos. Escolhidos a esmo sete desempregados, cada um deles foi encaminhado pela produção do programa a um ‘guia espiritual’ a fim de tentar arrumar um emprego.

Claudinei foi a uma mãe-de-santo; Rafael visitou uma vidente; Marcos Gualberto procurou um rabino; Nilson, uma cigana; Fátima foi ver um culto evangélico; Francisco tentou a simpatia do alho; Jurandir, finalmente, foi orar com o padre Marcelo, o qual, segundo Marília Gabriela, ‘tem uma oração que é tiro e queda para conseguir emprego’.

O programa tratou então de apresentar a peregrinação dos desesperados, numa espécie de transe sincrético, ao mesmo tempo em que ia ensinando ao espectador algumas simpatias destinadas a conseguir um posto de trabalho.

Ao final, ficamos todos sabendo que algumas das cobaias do SBT arrumaram seu emprego, ao passo que outras não tiveram a mesma sorte e continuavam engrossando as estatísticas do IBGE.

Não seria o caso, evidentemente, de criticar aqui a crendice popular, mas, antes, de chamar atenção para a instrumentalização esperta da miséria e do desespero pela emissora, que, a pretexto de fazer jornalismo, transforma um problema social em questão de fé e produz mistificação grosseira. Estamos, por assim dizer, no reino do imponderável.

Essa forma insidiosa com que o ‘SBT Repórter’ apresenta o drama do desemprego e encaminha a sua suposta solução pela via da superstição é um sinal de que o compromisso jornalístico foi jogado às favas em nome de alguns pontos a mais de audiência, pouco importando quanto isso possa custar.

Não deixa de ser um detalhe perverso que Marília Gabriela empreste seu prestígio como jornalista, construído muito antigamente, é verdade, para dar um verniz de credibilidade a um programa cujo efeito mais evidente é turvar horizontes e obscurecer qualquer debate sério.

Esse ‘SBT Repórter’ permite equacionar dois problemas mais amplos relativos à TV. Primeiro, a sua contaminação pela religião e pelo misticismo, que hoje vai da programação ao controle das emissoras. Isso se verifica na Manchete e na Record, obviamente, mas também na Globo, no SBT e, marginalmente, na Bandeirantes, que disputam a tapa o passe do padre popstar.

Em segundo lugar, a diluição de fronteiras entre jornalismo e ficção, com resultados que vão do mero diversionismo mais ou menos inofensivo às raias do atroz, feita para atender as exigências de uma programação supostamente popular -eufemismo para designar a sua adaptação à regressão social em curso avançado.”

“Cesta básica de ilusões”, copyright Folha de S. Paulo, 7/3/99

“Será anunciada oficialmente, dentro de duas semanas, uma mudança na área de criação da Rede Globo. Vai ser formado um conselho de criação coordenado por Daniel Filho e integrado pelos diretores-gerais de criação da emissora, Roberto Talma e Carlos Manga. Os três diretores continuarão subordinados diretamente à diretora-geral, Marluce Dias da Silva. Caberá ao conselho discutir todos os programas independentemente do horário de exibição. Como coordenador do conselho, será Daniel quem levará as decisões dos três diretores às outras áreas da empresa.

A Daniel Filho caberá também a direção da Central Globo de Criação, antes ocupada por Mário Lúcio Vaz, que agora chefiará a Central Globo de Controle de Qualidade. A Central Globo de Criação será a responsável pela implementação dos projetos escolhidos pelo conselho com a Central Globo de Produção.

Os três diretores mantêm as atuais funções executivas. Manga continua responsável por parte do que vai ar domingo, pelo ‘Vídeo show’, pela programação infantil, por dois humorísticos que vão estrear e pelo seriado estrelado por Sandy & Júnior. Roberto Talma cuida de ‘Malhação’ e de projetos na nova grade. Daniel Filho é responsável pelas novelas, seriados, alguns humorísticos e minisséries.

Mário Lúcio Vaz, que comandará a recém-criada Central Globo de Controle de Qualidade, será o executivo que avaliará o nível técnico e artístico dos programas. A ele também caberá fazer a avaliação ética das atrações, tendo poder de vetar as cenas consideradas fortes pela linha editorial dos acionistas da empresa. Mário Lúcio dará sugestões operacionais e artísticas na implantação de novos programas.”

“Rede Globo vai ter Conselho de Criação chefiado por Daniel Filho”, copyright O Globo 10/3/99

“SÃO PAULO – Os magos da televisão brasileira, responsáveis por milagrosas fórmulas de produzir audiência, deveriam prestar atenção aos resultados da pesquisa A mulher retratada pela TV feita na segunda quinzena de fevereiro pelo instituto paulista CPM-Market Research. Isso, é claro, se não quiserem perder preciosos pontos no Ibope nos próximos anos. O levantamento, que buscou a opinião de mulheres paulistas de 15 a 54 anos sobre o que é exibido na televisão, destrói o mito de que o sexo feminino se identifica com programas fúteis vespertinos ou com as fêmeas fatais protagonistas das novelas das oito.

Para início de conversa, a pesquisa – que teve uma parte quantitativa, ouvindo por telefone 253 mulheres das classes A,B e C, e uma qualitativa, com discussões em três grupos de cerca de dez entrevistadas de diferentes perfis sócio-econômicos – mostrou que essas mulheres nem assistem mais tanta novela assim. A média é de dois capítulos por semana. Das entrevistadas, 51% disseram que diminuíram o hábito de ver TV nos últimos três anos. Esses números batem com outros, do Ibope, segundo os quais a audiência média das donas de casa caiu oito pontos em São Paulo nos últimos sete anos, passando de 24% para 22% do total de aparelhos ligados, e dez pontos no Rio, no mesmo período.

Não precisa ser especialista para notar a relação entre essa queda de audiência e o número crescente de mulheres ingressando no mercado de trabalho – hoje, segundo o IBGE, elas são 40% da população economicamente ativa. O que chama a atenção, porém, nessa pesquisa da CPM-Market Research, é a postura crítica das mulheres em relação à programação da TV. ‘Elas não se identificam com o modelo feminino que lhes é apresentado’’, resume a responsável pela pesquisa, Oriana Monarca White.

Os resultados não deixam dúvidas quanto a isso: 79% das entrevistadas consideram que a programação atual transmite uma imagem de mulher que não é a verdadeira, 76% acham que essa programação não atende de forma adequada às necessidades da mulher, para 74% ela agrada mais ao homem do que à mulher. E ainda: 88% consideram que a programação erotiza as meninas antes do tempo e 59% acreditam que a mulher retratada não tem a ver com ela própria. Entre as características femininas que, na opinião das entrevistadas, deveriam ser valorizadas e que não o são pela TV estão a inteligência, o lado batalhador, a competência, a informação, a força/segurança, nessa ordem.

A pesquisa foi encomendada pelo Grupo TVer, ONG criada pela ex-deputada e psicóloga Marta Suplicy com o objetivo de analisar o conteúdo da televisão no Brasil e de que forma as emissoras estão exercendo a sua responsabilidade social. Para Marta, as mulheres fazem uma análise equilibrada da televisão, ressaltando os aspectos positivos e negativos. ‘Elas deixam claro que a TV é um bom entretenimento, tem alguns programas informativos, mas a maioria não se sente respondida em suas indagações’, diz Marta. Um aspecto que chamou a atenção dela foi a reivindicação de um papel mais ativo da TV na educação dos filhos. ‘Ou seja, as mulheres querem ajuda da TV para educar os filhos e não o que julgam que acontece hoje, que é a destruição da ingenuidade infantil e a promoção da erotização precoce.’

Outra preocupação muito presente nos grupos de discussão, lembra Marta, é a falta de informação sobre Aids na programação das tevês convivendo com um grande estímulo à troca de parceiros. ‘Quem faz a televisão acha que a mulher quer apenas relaxar e ela está muito preocupada com informação.’

Baseada em sua experiência clínica, a psicanalista Ana Cristina Olmos, especializada em infância e adolescência e integrante do Grupo TVer, acha muito importante que os modelos femininos retratados na TV sejam discutidos. Embora a televisão, segundo ela, não seja responsável por tornar alguém doente, ela pode ajudar a agravar certos quadros patológicos e mascarar sintomas de depressão, por exemplo. ‘Alguns pais podem achar natural que a criança passe horas fechada em seu mundo, dependente da TV’, explica. De acordo com Ana Olmos, ‘através do mecanismo psíquico de identificação, a criança internaliza os modelos que recebe, e que são matéria-prima para seu desenvolvimento psicológico e sua construção como adulto.’ No caso das meninas, elas podem vir a internalizar os modelos da mulher-objeto sexual, ‘esquelética e glamourizada’, que estão muito longe da realidade da maioria das mulheres e, com isso, terem problemas de baixa auto-estima.

TIAZINHA – A pesquisa perguntou às mulheres quais artistas refletiriam a imagem positiva, mais próxima da realidade delas, e quais seriam a imagem do modelo negativo, com o qual elas não se identificam. Na lista das positivas surgiram os nomes de Fernanda Montenegro, Fátima Bernardes, Regina Casé, Glória Maria e as mulheres do seriado Mulher da Rede Globo (Patrícia Pillar, Eva Wilma). E das negativas os de Tiazinha, as mulheres dos comerciais 0-900, as mulheres da piscina do Gugu e Carla Perez (com a ressalva de que é vista como batalhadora). As primeiras estariam identificadas com orgulho nacional, sucesso, autenticidade, superação do racismo, humildade. A segunda lista representaria tudo aquilo que as mulheres odeiam: sexo pelo sexo, mulher tratada com desrespeito, péssimo exemplo para as mulheres jovens, mulher despedaçada em partes do corpo, deturpação da sexualidade.

A pesquisa também traz à tona a fórmula de um programa ideal para o público feminino. Seria ele exibido às 20h, 21h (mais tarde todas estão dormindo porque têm de acordar cedo para trabalhar e à tarde estão em pleno expediente), diário, uma espécie de telejornal comentado com um pouco de Fantástico, Opinião Nacional e Silvia Poppovic.”

“Imagem e auto-estima”, copyright Jornal do Brasil, 9/3/99