Monday, 24 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

O ACM do cerrado

RORIZ vs. CORREIO

Vera Silva (*)

"A confusão da SSP não se restringiu aos números sobre a violência no carnaval. Ao decidir promover uma coletiva para apresentar o balanço da criminalidade durante os dias de folia, a secretaria também resolveu excluir o Correio Braziliense de sua convocação. Tanto é assim que os outros órgãos de comunicação foram avisados da entrevista […] por meio de fax […] Só este jornal não foi informado pela SSP. […] a Assessoria de Comunicação da SSP negou, nos vários telefonemas feitos por este jornal, a realização da coletiva […] o Correio soube da entrevista […] destacou um repórter […] ele teve de esperar […] até ser autorizado a subir […] Quando o repórter […] entrou na sala […] o coronel Carlos Cunha estava concluindo a entrevista."(Correio Braziliense, 1/3/2001, página 3).

Este é o retrato da liberdade de imprensa no DF sob o governo Roriz. Há muito tempo o Correio Braziliense vem relatando em suas páginas o cerceamento de seu direito de informar o que acontece no âmbito do governo do DF, mas, como acontece às mulheres assediadas por maníacos, ninguém se importa. Até que ela seja estuprada e morta. Todos choram o assassinato, se lamentam, dizem que não entendem como uma pessoa tão boa (o assassino) foi se descontrolar assim. Outros acusam a mulher de ter contribuído para o crime, dando corda ao pobre assassino. Nada novo, tudo muito previsível e freqüente. Você já se perguntou por que isto ocorre?

A liberdade de imprensa é discutida em prosa e verso no mundo inteiro em tese, porque no mundo inteiro jornalistas são presos, mortos e jornais queimados, censurados. Algo muito palpável e visível. Mas liberdade de imprensa mesmo, na prática, é o quê? Quem assegura isto? Em qual momento nós e a lei consideramos que ela está ameaçada? Pelo visto, somente quando ocorre a morte, a tortura.

Pequenos exemplos são lidos e vistos o tempo todo aqui mesmo no Observatório. Na edição de 28/2/2001, vários telespectadores informaram ao programa O.I. na TV que o livro Memória das Trevas não podia ser encontrado na Bahia. A omissão da crítica ao livro é outro exemplo.

A questão da guerra aberta do governador Roriz contra o Correio Braziliense vem se intensificando desde sua posse. Quem faz alguma coisa? Como se faz alguma coisa? Até ameaças contra a vida e a família do diretor de Redação já foram feitas e executadas, mas a tendência maior é considerar isto "arroubos do espírito combativo do governador, que não gosta de levar desaforo para casa". Ou seja, nossa tendência é considerar este comportamento violento de cercear a liberdade de imprensa como um simples comportamento de macho contrariado.

Não vi ainda, por exemplo, o Judiciário ou o Legislativo distrital tomarem alguma medida, na prática, para punir o governador, que já mandou seus seguidores não comprarem o jornal, que já ameaçou os militantes do PT instigando seus seguidores a expulsá-los e rasgar-lhes as faixas contrárias. Este comportamento é próprio de um governador? É possível a um governador ter comportamento deste tipo sem que se possa fazer nada? Se ele detém maioria absoluta no Legislativo, ele pode fazer tudo o que quiser, até mesmo arrepiar a lei e a ética? Parece que sim.

Na sua entrevista ao O.I., Joca, como é chamado, disse que o jornal foi atingido assim, abre-se fogo contra o jornalista e sua família, cortam-se os anúncios e depois é só esperar a ruína. O Correio Braziliense é um grande jornal, tem muitos leitores, mas não devemos pensar que possa lutar sozinho contra o governador Roriz e seus parceiros políticos. É um grupo que tem dinheiro, poder e poucos escrúpulos. Não pode ser menosprezado nem tratado como mosquito incômodo. Está na hora de começarmos a ajudar o jornal, porque debaixo dessa guerra suja há muita coisa contra o cidadão comum e contra Brasília, que será atingida.

É bom lembrar que até a segurança e a privacidade do presidente da República já foram afetadas pelas invasões de terra ao redor do Palácio da Alvorada. As vias de saída do Palácio do Planalto e acesso ao Palácio da Alvorada estão paulatinamente sendo obstruídas pelas invasões e pela construção da terceira ponte do Lago. Quem grita contra isto o faz no Correio Braziliense, portanto não é somente o jornal que está ameaçado, é também um veículo de expressão do contrário, da oposição, esteja quem esteja no governo.

Creio que devemos, como observadores, ir além da observação no nosso cotidiano. A ação democrática é mais do que denunciar, é agir para proteger os direitos à livre expressão, à liberdade de ser diferente, enfim para proteger a fraternidade, pois ser irmão é mais do que ser igual, é poder manter a individualidade do ser. Eu não conheço outra maneira de desenvolver a cidadania.

(*) Psicóloga