Sunday, 21 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

O apagão e a Bienal do Livro

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ARMAZÉM LITERÁRIO

Autores, idéias e tudo o que cabe num livro

COBERTURA LITERÁRIA

Deonísio da Silva

1

Será que, decretado o apagão, o Brasil vai viver o caos descrito nas três primeiras frases da Bíblia, o livro dos livros, denominadas equivocadamente versículos? "No princípio Deus criou os céus e a terra, mas esta era informe e vazia e as trevas cobriam a face do abismo. Deus disse: faça-se a luz! E a luz foi feita!". Foi o célebre Fiat Lux.

Versículo é um verso pequeno. A Bíblia não está escrita em versos. Alguns de seus livros, sim, mas não todos. E os tradutores do livro de Salman Rushdie acertaram o título da obra que rendeu ao autor, em momento de escuridão dos regimes islâmicos, condenação à pena de morte. Versos Satânicos. E não versículos.

Fiat Lux é marca de fósforo. Antigamente vinha escrito nas caixinhas que a média era de 45 palitos. Daí alguns aposentados de Jundiaí, que têm tempo para tudo, tiveram a paciência de contar os palitos e chegaram à conclusão de que não havia os 45 palitos regulamentares nas caixas examinadas. Os aposentados de Jundiaí são figuras à parte. Foram criados por Augusto Nunes e Elio Gaspari. São pessoas que lêem jornais e revistas de ponta a ponta e descobrem erros que passaram pelo mais atento dos revisores. E, entre outras tarefas, contam quantos palitos tem uma caixa de fósforo.

Vigilantes os aposentados de Jundiaí! Alguns deles devem estar lendo este texto à procura de um engano. Não há discussão possível com alguns leitores. É melhor concordar com eles. Certa vez um deles me disse que eu escrevera errado o nome de Umberto Eco numa resenha que fizera para O Estado de S.Paulo. "O senhor escreveu Umberto com U e o certo é Humberto, com H!" Retruquei que o nome do autor estava escrito na capa do livro com U. O aposentado treplicou que era erro de tradução. Mantivemos longa e curiosa correspondência. Quando eu pensei ter dado a resposta final, dizendo que encontrara o autor na Feira do Livro em Frankfurt e constatara que o nome dele aparecia grafado com U inicial em todas as traduções de O nome da rosa, o aposentado brandiu-me seu penúltimo argumento: "Então, todas as traduções estão erradas".

O tempo passou e o professor Roberto Vecchi, da Universidade de Bologna, veio ministrar palestra na Universidade Federal de São Carlos. À beira de copos de vinho, depois de uma agradável conversa com os alunos, ele me contou que era colega de Umberto Eco e que o famoso escritor e professor dedicava uma hora por dia exclusivamente para atender alunos. Perguntei-lhe se tinha visto algum documento com o nome dele. "Claro", me disse Roberto. Contei-lhe a história do varão de Jundiaí que me corrigia sempre que eu escrevia o nome de Umberto Eco. " O nome do Umberto é com U, evidentemente", me disse Roberto, sem entender muito a dúvida.

Escrevi uma cartinha ao aposentado, meu correspondente, e a resposta que tive obrigou-me a parar por ali: "Quer dizer que até os próprios pais do escritor erraram o nome do filho e permitiram que o escrivão registrasse o menino com nome errado? Bem, não me admiro de nada disso, a Itália virou uma bagunça depois que Mussolini morreu!". Entendi o meu correspondente, se é que vocês me entendem. Que agora deve estar festejando a eleição de Berlusconi.

2

Os aposentados de Jundiaí vão ler à luz de velas este ano. O apagão vem aí. E a causa é a de sempre: deixamos para amanhã o que deveríamos ter feito ontem. Parece que começamos a deixar tudo para depois, ou para o dia seguinte, ainda antes do descobrimento do Brasil. Dia 8 de março de 1500. Lisboa tinha 60 mil habitantes e 270 ruas. Toda a corte, liderada pelo rei Dom Manuel, o Venturoso, estava lá no cais junto com o povo para prestigiar a partida da frota de Pedro Álvares Cabral. Foi uma grande festa, segundo os cronistas da época. Eram 13 as naus, número de azar. E fala-se em caravelas, mas Pero Vaz de Caminha não usa a palavra uma única vez em toda a Carta. E ele sabia escrever. Se escreveu naus e navios, não eram caravelas.

De repente, veio o aviso. As correntes marítimas e os ventos eram contrários. E a esquadra não pôde deixar o rio Tejo aquele dia. Teve que partir no dia seguinte, segunda-feira, ao alvorecer. E ali o projeto Brasil foi deixado para depois pela primeira vez. "Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje", nos aconselha o provérbio. Um provérbio é uma espécie de sabedoria em frasco pequeno, uma enciclopédia portátil. Em geral foi extraído da experiência.

3

Na mídia só se fala de um apagão. Que por sorte ainda não veio. Por enquanto é apenas ameaça. E por que não aproveitamos a ocasião para falar de outros apagões? Aliás, antigamente era black out. Depois da entrada do Brasil para o Mercosul, por influências do espanhol apagón, adotamos apagão.

O apagão dos livros é um dos mais incompreensíveis. O Brasil é o segundo mercado editorial das Américas, tendo ultrapassado o México e o Canadá, que estavam tradicionalmente na dianteira. Hoje, o Brasil só perde para os Estados Unidos. Vamos de vento em popa, navegando fagueiros pela Galáxia de Gutenberg no alvorecer deste 2001, fazendo a odisséia do livro. Castro Alves, ainda no século 19, já previra nosso êxito editorial, escrevendo O Livro e a América: "ó bendito o que semeia / livro, livros à mão cheia / e manda o povo pensar".

Mas, sem sabermos por quê, nossa mídia não destaca esses avanços. Antes, apaga-os com um silêncio atroz. As sucessivas diretorias da Câmara Brasileira do Livro, os Sindicatos de Livreiros, de Editores, de Escritores e entidades afins mendigam espaços na mídia, mas nossos suplementos, com as exceções de praxe, só querem saber de música.

Pois agora, com o apagão, melhor é editar livros para serem ouvidos. Desculpe, também isso os editores já fizeram. Ouvi os livros de Rubem Fonseca no carro. Cid Moreira gravou a Bíblia inteirinha. É vendida nas bancas.

Se a mídia não a espelha, a coisa não foi, não é, não será. Ou melhor: apagadas, as coisas são do conhecimento dos poucos que têm outras luzes, não as da mídia.

Exemplos? Claro, pois não! Passo Fundo (RS) faz há vinte ? 20! ? anos as já célebres Jornadas Literárias. São realizações bienais. Na última delas, em 1999, os organizadores tiveram que armar um circo para caber os quatro mil ? 4000! ? inscritos. Alguns dos principais escritores brasileiros estiveram lá. E várias celebridades internacionais do meio livreiro, também. Sua líder, a professora Tânia Rösing, é candidata ao "Prêmio Multicultural Estadão" este ano!

Pois a mídia está apagando jornadas, organizadores, palestrantes e participantes. Vai apagar de novo este ano? Espero que não. O maior prêmio da literatura brasileira ? R$ 100.000,00 pelo melhor romance publicado no ano no Brasil ? é patrocinado pela prefeitura municipal de Passo Fundo desde 1999. Este ano está em sua segunda edição. Os leitores sabiam? Como? Poucos jornais o noticiaram.

Nem vou falar de escritores, hoje, está bem? Mas seria bom pautá-los para ver o que estão achando da cobertura que lhes dá a mídia. Nem todos os escritores são uns chorões vaidosos que só sabem se queixar. O Brasil vive uma das fases mais exuberantes de sua história literária. No exterior, seus temas e problemas são discutidos, analisados e comentados com muita seriedade em várias universidades e institutos especializados. Nos contatos que venho mantendo com vários deles, a queixa é uma só: não encontram material de pesquisa em nossa imprensa. Aliás, encontram muito pouco.

Vamos parar com esses apagões? Nós, o povo, precisamos saber como anda a Bienal Internacional do Livro, do Rio. Mãos à obra, por favor!

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