Tuesday, 18 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

O Estado de S. Paulo

ROLO HISTÓRICO

"Diretor diz que revista se baseou em 3 fitas", copyright O Estado de S. Paulo, 9/03/01

"O diretor de redação da revista IstoÉ, Hélio Campos Mello, afirmou ontem que a versão do diálogo entre o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), seu assessor e procuradores da República publicada pela revista é fruto da audição de mais de uma fita: as duas que foram gravadas por um dos procuradores presentes, Luiz Francisco de Souza (que teriam sido pisoteadas e destruídas depois) e à fita entregue ao perito Ricardo Molina, gravada na sala contígua ao local onde ocorreu o diálogo. ?Os repórteres tiveram acesso às fitas que posteriormente foram destruídas?, disse. ?Eles ouviram e anotaram, ouviram e anotaram.?

A ?soma? dos diálogos audíveis seria a explicação para a divergência entre os trechos publicados pela revista e a transcrição feita pelo perito Ricardo Molina. ?Existe diferença formal, mas não de essência?, observou. ?E as diferenças são fruto da junção entre as fitas destruídas com a fita gravada na sala contígua, mais a entrevista do procurador Luiz Francisco.?

Primeira edição – Mello destacou que a primeira edição da revista sobre o caso não mencionou fitas, apenas os diálogos. A edição seguinte, ainda nas bancas, é que trouxe as transcrições, com o título de ?A fita do procurador?.

?Está ocorrendo uma natural discussão bizantina e diversionista, para tirar o foco da questão?, afirmou Mello. O diretor garantiu que os procedimentos adotados pela revista nas reportagens sobre o caso serão explicados ao leitor na próxima edição."

"Depoimento de perito favorece ACM", copyright O Estado de S. Paulo, 9/03/01

"A precariedade da gravação da conversa do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) com procuradores da República desmontou a estratégia da base governista e do PMDB de tentar constranger o ex-presidente do Senado. A transcrição da fita apresentada ontem pelo foneticista Ricardo Molina à Comissão de Fiscalização e Controle do Senado praticamente enterrou a possibilidade de abertura de um processo por falta de decoro parlamentar contra ACM.

O motivo é que a degravação apresentada por Molina não traz a passagem publicada pela revista IstoÉ, na qual ACM teria confidenciado a três procuradores a existência de uma lista sobre quem teria votado a favor e contra a cassação do ex-senador Luiz Estevão. Na fita analisada pelo técnico, só é possível ouvir ACM dizendo: ?Eu tenho todos que votaram nele.? Na reportagem da revista, a frase é: ?Eu tenho a lista de todo mundo que votou a favor e contra o Luiz Estevão.?

A suposta confissão a respeito da lista seria o principal argumento para cassar o mandato de ACM. De acordo com a revista, o senador teria afirmado ainda que a senadora Heloísa Helena (PT-AL) votou contra a cassação de Estevão. Na transcrição apresentada ontem, no entanto, o ex-presidente do Senado diz apenas: ?Heloísa Helena votou nele … eu tenho todos que votaram nele.?

No depoimento, o foneticista negou veementemente que tenha feito a transcrição da mesma fita publicada pela revista. ?A transcrição que fizemos difere bastante da que a IstoÉ fez?, disse. ?Há divergências entre as duas transcrições: ou a revista editou falas esparsas ou publicou os trechos da conversa que são ininteligíveis?, explicou o perito.

A degravação apresentada por Molina também não traz a passagem na qual ACM teria dito aos procuradores da Repúbllica que, se o sigilo telefônico e bancário de 1994 do ex-secretário-geral da Presidência Eduardo Jorge Caldas Pereira fosse quebrado, acabaria atingindo o governo e o presidente Fernando Henrique Cardoso.

Autenticidade – O foneticista garantiu que a fita da conversa é autêntica, não foi adulterada nem editada. Segundo Molina, a gravação que lhe foi entregue por repórteres da IstoÉ é original e tem quase uma hora de duração – mas só foi possível transcrever entre 70% e 75% da conversa. Ele contou ainda que a fita foi feita a cerca de três ou quatro metros do local onde ocorria a conversa.

?A gravação não foi feita no mesmo ambiente, mas tenho certeza de que a fita não foi fruto de nenhuma manipulação?, afirmou. No laudo entregue à comissão, o perito também atestou que as vozes na gravação são de ACM e dos procuradores Luiz Francisco de Souza, Guilherme Schelb, Eliana Torelly, além do ex-secretário de Comunicação do Senado Fernando Cesar Mesquita.

Molina explicou que foram transcritos somente os trechos mais claros. E disse que, em vários momento, ficou claro que ACM iniciava uma frase que era concluída por Fernando Cesar. Ele também fez questão de esclarecer que as reticências na degravação não são partes inaudíveis da fita. E citou como exemplo o trecho da transcrição em que ACM fala ?…Heloísa Helena votou nele… eu tenho todos que votaram nele.?

Segundo Molina, as reticências foram utilizadas porque o ex-presidente do Senado fala pausadamente, não porque tenha dito algo antes. O líder do PFL, senador Hugo Napoleão (PI), levantou durante o depoimento a possibilidade de que ACM poderia ter dito ?dizem que a Heloísa Helena votou nele…?. ?São reticências normais e, no trecho que eu degravei, não faltam palavras?, respondeu o foneticista.

?O Senado deveria ter sido poupado desse triste espetáculo da Comissão de Fiscalização e Controle. Toda a celeuma criada visava apenas a me atingir, numa fase em que estou apresentando denúncias graves?, reagiu ACM. ?Fernando Henrique deve estar, hoje, com remorso de ter demitido dois ministros em função de coisas inexistentes?, completou o ex-presidente do Senado, que assistiu a todo o depoimento de Molina em seu gabinete, na companhia do governador da Bahia, Cesar Borges. O presidente demitiu, há duas semanas, dois ministros baianos apadrinhados por ACM – o senador Waldeck Orn&eaceacute;las (PFL-BA), da Previdência Social, e Rodolfo Tourinho, de Minas e Energia -, logo após a divulgação da reportagem da IstoÉ.

Decepção – A precariedade do áudio e da transcrição da fita apresentada por Molina decepcionou os senadores. ?A fita está muito tênue em relação à reportagem?, disse o Pedro Simon (PMDB-RS). ?ACM tem motivos para comemorar. Foi uma palhaçada montada pelo governo para esvaziar qualquer possibilidade de CPI e constranger o ACM?, afirmou José Eduardo Dutra (PT-SE). ?Está claro que ele (ACM) não tem a lista de quem votou contra ou a favor da cassação do mandato de Luiz Estevão?, sustentou o senador petista.

Já o PMDB, partido do presidente do Senado, Jader Barbalho (PA), principal inimigo de ACM, desdobrou-se para tentar incriminar o pefelista. A tarefa ficou a cargo do líder do partido, senador Renan Calheiros (AL), que chegou a dizer que o teor da conversar entre ACM e os procuradores, publicado pela IstoÉ, era ?quase literal? com relação à transcrição apresentada ontem por Molina.

?O perito Molina praticamente ressuscitou uma fita inaudível, comprovou que não houve montagem?, ressaltou Renan. ?Pode ser que se chegue, sim, à cassação. Mas isso só poderá ser aprovado pela Comissão de Ética e Decoro Parlamentar e não por esta comissão?, acentuou Ney Suassuna (PMDB-PB), relator do caso na Comissão de Fiscalização e Controle, presidida por Romero Jucá (PSDB-RR).

Para fazer frente à estratégia montada pela base governista, ACM designou uma ?tropa de choque? do PFL para acompanhar o depoimento do perito na comissão. O mais enfático foi Ornélas, que fez de tudo para desacreditar o teor da fita – e qualificou a IstoÉ de ?mentirosa e descarada?. ?Vamos arquivar essa bobagem?, reivindicou o senador.

O líder do PFL, Hugo Napoleão (PI), e o senador Bello Parga (PFL-MA) também se dedicaram à defesa de ACM. A tropa de choque teve a participação dos deputados pefelistas da Bahia José Carlos Aleluia, Ursicino Queiroz, Jorge Koury e Paulo Magalhães.

A estratégia da base governista e do PMDB, que montaram verdadeira parafernália para constranger o ex-presidente do Senado, não deu certo. Como o áudio da fita era muito ruim, não era possível entender a conversa e, por isso, a gravação não foi ouvida integralmente. A reunião foi aberta e transmitida ao vivo pela TV Senado, que passou a tarde inteira repetindo o depoimento de Molina. ?Como ainda estou no espírito de carnaval, esta reunião recebeu nota 10 em alegorias e adereços e nota 0 em enredo?, concluiu Dutra. (Colaborou Gilse Guedes)"

"Os modelos, velhos e novos", copyright Jornal do Brasil, 10/03/01

"Imprevisíveis são os relatos parabólicos. Como as antenas parabólicas, podem levar a conclusões e desfechos inesperados. Fui surpreendido com as dúvidas e ansiedades suscitadas pelo último artigo. Imaginei que as duas alegorias — montadas a partir do noticiário — estavam suficientemente desenhadas e a mensagem, recebida. Engano. Parabolé e parabállein, do grego, têm a ver com a noção de ?atirar para o lado?, percurso balístico circular através do qual pode-se até acertar no alvo mas nunca diretamente. A exposição figurada converteu-se numa charada.

A decisão de voltar a Sansão e Isaías foi tomada há dias, no Leblon, quando uma senhora agarrou-me pelo braço e perguntou: ?Mas quem é Isaías ??. Demorou até que eu entendesse a razão da pergunta e como recomendam os manuais, saí-me com outra: ?Para a senhora quem é Sansão??.

Foi categórica: ?Ora, Sansão é o procurador Luís Francisco de Souza?. Minha perplexidade foi igual à do pianista que depois de tocar uma peça de Debussy ouve alguém suspirar — ?que romântico?. Reconheci naquele exato momento que tinha falhado na armação metafórica. Como o tal pianista, as notas e os tempos estavam corretos mas errara no uso dos pedais.

?Minha senhora, descrevi Sansão como a representação da força desorientada pela raiva, ressentimento disfarçado em ousadia, brutalidade cega, narcisismo suicida, herói às avessas. Ficou conhecido como aquele que derruba as colunas do templo e acaba soterrado junto com os adversários. Até o descrevi como rotundo, lembrei. Ora, o procurador Luís Francisco não chega a ser atlético mas nada tem de obeso e rechonchudo como os lutadores de sumô…?

?É o ACM, óbvio, ululante !? E foi embora tão feliz com a decifração do enigma que esqueceu a dúvida original — quem seria Isaías ?

É Mário Covas. E assim não apenas encerro este folhetim bíblico mas presto a homenagem explícita e escancarada, impossível de manifestar num texto escrito enquanto agonizava. Aos leitores que perceberam a analogia Covas-Isaías e estranharam a justaposição de um homem de estado com um profeta recorro rapidamente às Escrituras para recordar que Moisés embora não seja classificado canonicamente como profeta é tido como tal por muitos exegetas e a maioria de filósofos e artistas. Pela sua capacidade de buscar a verdade – em ações e palavras — e enxergar o desdobramento das situações.

É simplista a noção do profeta como pregador-adivinho. O verdadeiro visionário pode ser um homem de ação, capaz de sonhar, intervir e prevenir. Profeta não pode mentir, tergiversar, ludibriar. Seu compromisso é com a exatidão, a sinceridade e a verdade.

Mário Covas sempre foi retilíneo, franco, limpo. Há uma rusticidade e uma sofisticação na sua forma de ser e agir que o projetam naturalmente como o antípoda de ACM. E não apenas no plano dos mitos e símbolos. Os seres verdadeiramente grandes transmitem grandeza. A emoção que a morte de Covas está causando mostra como funciona este tipo de transferência e identificação. A homenagem das multidões anônimas desvenda um processo de intercambio, entre as melhores porções dos homenageadores e do homenageado. ACM é tão somente a irradiação de poder, magnetismo da pistola na cintura, arsenal ambulante para mandar e desmandar.

Sansão-ACM assim como Covas-Isaías representam produtos opostos do gênero humano. Conflitam-se de alto a baixo — em matéria de liberdade e democracia, ética e moral, respeito humano e amor ao próximo, eficácia e senso de dever. E, se por acaso, num curto período, defenderam pontualmente as mesmas posições, o fizeram de forma tão antagônica e discrepante que mais pareciam inimigos.

O atual duelo político está tão intenso que os analistas políticos ainda não tiveram tempo para esmiuçar as manifestações de pesar dos adversários políticos de Covas. O único ausente foi o ex-governador, hoje empresário de comunicação, Orestes Quércia. Em meio a tantos e tão expressivos gestos de galantaria, elevação e solidariedade — naturais ou formais — sobressai esta rude exibição vindicativa.

Em qual arquétipo bíblico encaixar o ausente — Caím ? Como seu homônimo grego ou na tipologia de Shakespeare como um eventual Brutus ou Iago ?

A ponte entre literatura e política é extremamente rica, tanto para leitores como para políticos. Entre outras vantagens é lúdica, salutar exercício cultural com a vantagem de redimensionar um cenário ultimamente achatado por atuações pouco alentadoras.

E para encerrar o ciclo parabólico uma personagem e a sua exata denominação: na última quarta-feira alguém subiu à tribuna do Senado e, com uma retórica forjada em séculos de sofrimento e injustiças, como há muito não se ouvia naquela casa, fez esta arrebatada proclamação:

?…Chamei Vossa Excelência de canalha porque é a única maneira do senhor entender e ouvir. O senhor foi muito mal acostumado, assustando gente com síndrome de capitão-do-mato. Nasci negrinha neste mundo para não me dobrar para ninguém e arrombar a porta da senzala. Fui educada mas não domesticada para servir aos grandes…?

Joana DArc, Judith ou Anita Garibaldi ? Heloísa Helena, PT-Alagoas."

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