Friday, 23 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1275

O Estado de S. Paulo

ELEIÇÕES 2002

“Uma vergonha”, Editorial, copyright O Estado de S. Paulo, 4/09/02

“O bordão do jornalista e apresentador Boris Casoy é a síntese perfeita do que acabou sendo – não por culpa dele, como mediador – o segundo debate entre os principais presidenciáveis, anteontem, na Rede Record. Uma vergonha, sim, porque, no lugar do confronto entre todos os envolvidos, única razão de ser desses eventos, para o eleitor, o que se viu foi uma farsa. Três dos participantes, Anthony Garotinho, Ciro Gomes e Lula da Silva, poupando-se uns aos outros, com absoluto despudor, se aliaram ostensivamente para fazer o julgamento sumário do governo Fernando Henrique e estigmatizar o seu candidato, José Serra. E ele, subestimando a inteligência do público, buscou a quadratura do círculo de aproveitar o bônus, mas desvencilhar-se do ônus dessa condição, como atalhou Lula em dado momento, numa de suas raras demonstrações de lucidez ao longo do falso debate.

Se para algo serviu a farsa foi para mostrar aos brasileiros o que tem de pior cada um dos que lhe pedem o voto para dirigir o País. Ciro, com um desdém pelos fatos que ele parece aprimorar a cada dia, escolheu para si o implausível papel de vítima, imputando a Serra ?uma campanha sórdida de agressão?, como se alguma das acusações do tucano fosse uma invencionice:

foi Ciro quem faltou com a verdade ao dizer, por exemplo, que tinha estudado a vida inteira em escola pública, que o salário mínimo quando de sua passagem pelo Ministério da Fazenda equivalia, à época, a US$ 100 e que tinha sido agraciado no exterior por seu combate à mortalidade infantil como governador do Ceará. E foi Ciro quem chamou um ouvinte de ?burro? – sem razão, por sinal – ao ser sabatinado em um programa de rádio, em Salvador.

Obedecendo à risca ao seu script farisaico, duas vezes o candidato pediu viscosas ?desculpas ao povo? por ter sido ?inocente, quando não me acautelei de estar sendo seguido por equipes de José Serra? – uma frase, de resto, incompreensível, seja ou não verdadeira a alegação.

Garotinho, que comandou com desenvoltura de ?artista?, como o chamou Serra, o auto-de-fé contra o governo, assumiu ares de vestal em casa de má reputação, reivindicando para si a exclusividade de não receber ajuda de banqueiros e grandes empresários, como se a propalada penúria de sua campanha não resultasse de seu isolamento político e de suas parcas chances de se tornar um candidato competitivo. As câmeras não mostraram, mas a imprensa registrou a alegre relação de compadrio dele com Lula, sentados lado a lado, e as risadinhas com que ambos aplaudiam a troca de estocadas entre Ciro e Serra. Mas nem o mais incauto dos espectadores terá deixado de perceber a dobradinha que eles formavam: cada pergunta de um para o outro, com as respectivas réplicas e tréplicas, era apenas uma deixa para um dueto de invectivas contra o governo. A mesma armação se repetiu entre Lula e Ciro, quando, ao tratarem das privatizações, o primeiro ?levantava a bola? para o segundo arrematar, e vice-versa. Lula vestiu o figurino de estadista compassivo, capaz de discorrer sobre as virtudes do planejamento estratégico e de destacar que já sentiu na pele o que é não ter emprego. Desempregado, aliás, ele está desde que começou a pleitear o único emprego que lhe interessa, que está pleiteando pela quarta vez.

Já no papel de quem ?faz acontecer? – como repetia quase com a mesma insistência de seus pedidos de direito de defesa, de seu comentário-padrão de que os outros não respondiam ao que perguntava, e de suas promessas de criar 8 milhões de emprego -, Serra teve um momento forte, ao revelar, sem ser desmentido, que Ciro tinha sido condenado duas vezes por acusar de corrupção, sem provas, o então ministro da Saúde, Henrique Santillo, já falecido. Mas a imagem que deixou no ar foi a de um tecnocrata de olhar vítreo, que aparentemente ainda não se deu conta de que a sua atitude em relação ao governo é insustentável. Primeiro, porque o espaço da oposição já está mais do que tomado. Segundo, porque o eleitor, goste ou não da era Fernando Henrique, gosta menos ainda de ambigüidades. Acossado a maior parte do tempo pelos números do desemprego brandidos por seus oponentes, por ter exposto o flanco com a meta dos 8 milhões, faltou a Serra firmeza para contestar os números adversos – como o governo fará no horário de Ciro, se a Justiça Eleitoral lhe conceder o direito de resposta pleiteado, ou como Fernando Henrique fez em Johannesburgo, ao lembrar que o desemprego é muito maior na Europa do que no Brasil, não porque os governos europeus falharam, mas devido à lógica do sistema produtivo.

Em suma, o antidebate não teve vencedores, mas um grande perdedor: o eleitorado.”

“Americanos evitam uso da TV”, copyright O Estado de S. Paulo/The New York Times, 6/09/02

“A influência da propaganda pela TV sobre campanhas políticas está diminuindo, afirmam líderes dos Partidos Republicano e Democrata. Por isso, eles estão adotando ferramentas de campanha mais antiquadas, como telefonemas e visitas à casa dos eleitores.

Embora a maior parte dos recursos dos candidatos continuem destinados à televisão, eles acham que os comerciais que produzem ficam diluídos pela saturação das emissoras de TV a cabo, pela popularidade das redes que não apresentam comerciais e pela freqüência irritante dos anúncios de propaganda política.

Os dois partidos aumentaram os investimentos na promoção de registro, identificação e comparecimento dos eleitores às urnas. No novo 3.? Distrito do Congresso, situado fora de Las Vegas, trabalhadores de sindicatos, usando laptops, vão solicitar votos porta-a-porta esta semana.

Em dezembro, na disputa pelo cargo de prefeito de Houston, os democratas ofereceram 115 vans para levar os eleitores às zonas eleitorais. O partido espera repetir a operação neste segundo semestre.

Josh Wachs, líder da Comissão Democrata Nacional, afirmrou que os democratas estão distribuindo amostras de cédulas eleitorais em dezenas de idiomas, na tentativa de atrair novos eleitores imigrantes.

A Comissão Republicana Nacional e a Casa Branca criaram um ?grupo de trabalho de 72 horas? depois de examinar eleições em que os democratas fizeram um esforço extra de última hora. A equipe recomendou um programa para melhorar a posição dos republicanos nas eleições através de mala direta, telefonemas e visitas domiciliares.”

“Candidatos não têm proposta para comunicação”, copyright Epcom, www.acessocom.com.br, 6/9/2002

“A revista ?Meio & Mensagem? publicou uma reportagem especial sobre as propostas e posições dos principais candidatos à Presidência da República para a área das comunicações. Na avaliação da revista, os três candidatos que se dispuseram a responder um questionário idêntico sobre os principais pontos que dizem respeito à indústria da comunicação foram bastante superficiais sobre o tema, sem grandes propostas para o setor. José Serra, da ?Grande Aliança? (PSDB/PMDB), recusou-se a responder às perguntas de ?M&M?. Foram abordadas questões como liberdade de imprensa, restrições à propaganda, abertura da mídia ao capital estrangeiro e investimentos federais em publicidade. Tanto o candidato da coligação ?Lula Presidente? (PT/PL/PCdoB/PMN/PCB), Luiz Inácio Lula da Silva, como Anthony Garotinho (PSB/PHS/PGT/PAN) prometeram fortalecer e apoiar o recém-instalado Conselho de Comunicação Social (CCS), órgão auxiliar do Congresso Nacional para assuntos de comunicação. Mais evasivo, o candidato da Frente Trabalhista (PPS/PDT/PTB), Ciro Gomes, defende a necessidade de o governo federal estabelecer estratégias de comunicação mais abrangentes que a publicidade.

Lula afirmou que sua proposta é submeter à apreciação do CCS todas as outorgas e de renovações de concessões de emissoras de rádio e de TV. Na mesma linha, a proposta de Garotinho é de que o Congresso leve o exame das concessões ao Conselho, que deve ser fortalecido. Os três candidatos demonstraram aprovar as recentes mudanças na política de comunicação, com a aprovação da Emenda Constitucional que alterou o artigo 222 permitindo que pessoas jurídicas, nacionais e estrangeiras, possam adquirir participação em empresas jornalísticas e de radiodifusão. Para Ciro, a entrada de capital estrangeiro, limitada a 30% na emenda, é ?uma tendência inexorável do processo de globalização? e o texto aprovado ?conseguiu reservar um importante espaço decisório para os sócios nacionais, assegurando, dessa forma, a necessária independência e liberdade?. Lula destacou que as mudanças devem ser acompanhadas de ?regulamentações que preservem o pluralismo e a competição, assim como a cultura nacional e as culturas regionais?. Na opinião de Garotinho, a participação limitada do capital estrangeiro na propriedade de veículos de comunicação é ?por si só, um mal?. Para ele, com a desregulamentação da mídia nacional, veículos com potencialidades a explorar o mercado terão à mão um instrumento para se capitalizar e se expandir.

Restrições à publicidade

Tanto Lula como Garotinho mostraram-se claramente favoráveis a mais restrição à publicidade de drogas lícitas. ?Não vamos proibir a fabricação e a venda de cigarros nem de bebidas alcoólicas, mas temos o dever de restringir a publicidade que, na verdade, é uma propaganda do consumo. E isso não é tolher a liberdade comercial nem violar a liberdade de expressão: é defender os interesses da sociedade?, disse o candidato do PSB. Lula declarou considerar boas as alterações nas leis que regem a propaganda de cigarros e que defende o mesmo tipo de restrições para o caso das bebidas alcoólicas. Mais evasivo, Ciro afirmou que a questão da proibição de propaganda de cigarros, bebidas e outros itens ?deve ser sempre objeto de avaliações objetivas de análises de impacto e da consideração de custos e benefícios?. Em relação à propaganda de remédios, Lula e Ciro esquivaram-se de dar uma resposta objetiva, declarando que a questão merece uma avaliação mais cuidadosa. Garotinho defendeu um maior avanço na discussão desse problema, já que há remédios que são vendidos por causa da televisão. ?É inadmissível que o Estado e as entidades médicas não exerçam controle e não acompanhem isso?, disse.

Liberdade de imprensa

Os três presidenciáveis ouvido por ?M&M? disseram-se contrários à criação de qualquer forma de controle sobre o conteúdo jornalístico. ?A sociedade, de forma democrática, deve construir meios legais e legítimos de acompanhar criticamente a imprensa, cobrando os compromissos que ela própria afirma ter com essa mesma sociedade?, declarou Lula. Ciro, da Frente Trabalhista, argumentou que ?a imprensa deve ser livre, responsável e responsabilizada pelos conteúdos que veicula?. Na sua opinião, a criação de comitês de ética, nomeação de ?ombudsmen? e outros instrumentos de auto-controle são ?fundamentais, mas insuficientes para assegurar a proteção da honra dos cidadãos. O principal responsável deve ser a própria imprensa – tanto no sentido de corrigir e compensar os seus erros de forma rápida e eficaz quanto no sentido de, colegiadamente, promover a melhoria da qualidade da cobertura de seus congêneres?. Dizendo-se contrário a qualquer forma de censura à informação, Garotinho defendeu que ?pendências eventuais, decorrentes de excessos da imprensa, devem ser resolvidas nas instâncias judiciais apropriadas, sem que isso venha a significar censura ou cerceamento à liberdade de informação?.

Verba para comunicação

Uma das questões levantadas por ?M&M? foi se os recursos utilizados pelo governo para a sua comunicação – atualmente em torno de R$ 700 milhões anuais, R$ 147 milhões para uso da administração direta – eram suficientes. Ciro Gomes respondeu que ainda era muito cedo para falar em verbas de publicidade e valores. ?O importante é estabelecer estratégias de comunicação – que vão muito além da questão da publicidade?, disse. Para Garotinho, os gastos com publicidade devem ser estipulados de acordo com ?as necessidades de divulgação do poder público, em função da natureza das ações que ele desenvolve, do público que quer atingir com elas e dos resultados que conta alcançar?. Já o candidato da coligação ?Lula Presidente? criticou o uso da publicidade dos atos do governo como instrumento de outras políticas e afirmou que é preciso estudar os valores citados em função da realidade que o novo governo encontrará.”