Saturday, 22 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

O outro lado

VIDA DE JORNALISTA

Nádia Regina dos Santos Almeida (*)

Na semana passada fui convidada a proferir uma palestra sobre jornalismo. A proposta partiu de uma professora, uma daquelas pessoas que parecem anjos e vivem buscando formas de melhorar o mundo, abrindo mentes.

Como costumo fazer nessas ocasiões, não preparei nada porque gosto do diálogo espontâneo, da sinceridade que deve pontuar as relações e, principalmente, da autenticidade. Situações assim são sempre estimulantes, é como saltar para o abismo.

O público se dividia em dois grupos: adolescentes que concluíam um curso técnico de eletrônica e donas-de-casa, ao fim de um curso de qualificação para serviços domésticos. Algo em torno de 40 pessoas sentadas em lados opostos, diferentes em sexo e idade, mas iguais na carência social.

Fui de improviso, anotando três ou quatro tópicos que poderia esquecer.

Tentando aparentar o máximo de descontração, avisei que minha intenção era fazer uma exposição curta e abrir para debate (o que, no fundo, justificava a falta de projetores, slides e apostilas). Falei durante uns 15 minutos sobre a profissão de um modo geral e perguntei se alguém queria fazer alguma pergunta.

Como o público ficou mudo, continuei a falar, desta vez sobre a empresa onde trabalho, um jornal pequeno que ajudei a fundar e do qual hoje sou editora. Mais meia hora de discurso. Nenhuma pergunta.

Para não aparentar desespero, prossegui, falando um pouco mais da minha trajetória como jornalista, o que eu sonhava na época da faculdade, as dificuldades financeiras e ideológicas atuais, a passagem da teoria à prática, da fantasia à realidade. Nada.

Continuei, e na tentativa de estimulá-los a participar do evento e evitar o monólogo já estabelecido, emendei a falar sobre as dificuldades de se manter a ética no cotidiano das edições, que o jornalista não é o dono do jornal e nem o próprio dono exerce essa função, que todos estamos mergulhados num sistema que se alimenta de interesses políticos e econômicos e dificulta a principal função do Jornalismo: divulgar a verdade. Conceituei que a notícia tinha dois lados, o que se aprende na faculdade, questionando: "E a verdade, quantos lados tem?". Silêncio.

Naquele modesto anfiteatro, sem ao menos microfone, de repente eu estava falando comigo mesma, como uma paciente deitada num divã de psicanalista. Ecos de 10 anos de profissão.

Resolvi encerrar o pronunciamento falando sobre a função social do jornalismo, já invadindo o horário da próxima palestrante, uma senhora que falaria de inclusão dos portadores de deficiência física e mental na comunidade.

Salto de esperança

Sai de cena frustrada, mas questionando: por que aqueles jovens não se manifestaram? Por que as senhoras, que bem poderiam ser mães deles, também não esboçaram reação? Será que foi por insegurança, timidez? Será que não fui didática, deveria ter preparado a palestra com material de apoio? Tive medo ao cogitar: será que eles encaram o jornalismo como uma abstração ou algo supérfluo? Estaríamos tão distantes assim?

Voltei à redação, mas minha mente não se prendia ao editorial que eu deveria escrever, nem à coluna de notas políticas, nem às páginas que tinha de revisar. Voava solta, estimulada pelo acontecimento.

Não cheguei a conclusões definitivas. Nem sei se quero continuar trabalhando como jornalista, perseguindo o sonho de capturar a verdade como criança que corre atrás de borboleta com puçá. Mas senti, naqueles olhos atentos e bocas mudas, que algo está errado.

Nesta época em que se discute a decisão da juíza Carla Rister sobre a exigência de diploma universitário para jornalistas, seria interessante que todo aquele que trabalha na área fizesse um diálogo consigo mesmo. Não precisa ser casual ou durante uma palestra, como aconteceu comigo; pode ser em qualquer lugar, a qualquer hora, sozinho ou em grupo.

Quem sabe os jornalistas, bacharéis ou não, estejam mais preocupados com a vaidade de formar opiniões daqueles que formam opiniões do que atingir os carentes de intelectualidade e pão. Quem sabe fizemos deles a notícia e não para eles o produto final. Sofisticamos os editoriais, deixamos passar expressões pouco conhecidas no noticiário econômico, abrimos um abismo entre as redações e o povo. O jornal deixou de ser um instrumento libertador para se tornar um espelho. E os novos, que poderiam mudar este comportamento, já não sofrem mais do Complexo de Clark Kent, mas da Síndrome de Narciso.

Aquelas pessoas me fizeram saltar para o abismo, mas não pela aventura do desconhecido. Somente pela esperança de tentar conseguir alcançar o outro lado.

(*) Jornalista