Thursday, 29 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

O que fazer, querer, para onde ir

TERRA DE NINGUÉM

Antônio Brasil (*)

O cinema e a televisão sempre tiveram uma relação difícil, quase conflituosa. O meio cinematográfico nunca conseguiu evitar uma certa obsessão contra a TV. Isso talvez tenha sido provocado pelo rápido desenvolvimento, popularização e universalização da televisão, por um lado, e pelas constantes previsões alarmistas e apressadas de que a TV iria acabar como o cinema mais cedo ou mais tarde, por outro. Some-se ainda as pretensões elitistas de muitos diretores e da crítica especializada que, juntos, não ocultavam um sentimento de desprezo da sétima arte pela televisão.

Em relação ao telejornalismo então, a situação foi ainda mais dramática. Filmes como Nos bastidores da notícia, O quarto poder ou Mera coincidência, para citar apenas três exemplos, foram extremamente irônicos e mordazes com o poder dos telejornais. Os enredos procuravam sempre mostrar como o veículo distorce propositalmente as notícias, ao mesmo tempo em que procura subjugar as mentes dos indefesos e inocentes telespectadores. Como verdadeiros filmes de terror ou de ficção científica, retratavam uma espécie de conspiração televisiva para destruir o pobres habitantes do planeta Terra. Esses filmes também não perdiam a oportunidade de satirizar os jornalistas de televisão como fúteis, ambiciosos e prontos a tudo pelo sucesso. Injustiça?

Nessa "guerra nas estrelas", a televisão é o império do mal e o cinema é a última trincheira da luta do bem pelo melhor da cultura. Para muitos intelectuais cinéfilos, numa escala de valores aceitável e cômoda, o filme substitui um livro mas, televisão, qualquer televisão, não serve para nada … Já era de se esperar. Assim como se diz que jornalismo só gosta de dar más notícias e falar mal dos famosos, o cinema alcança muitas vezes o sucesso falando mal da TV.

Sucesso ao vivo

Mas de vez em quando temos de reconhecer quando o cinema acerta a medida. E já que estamos em ritmo de verão, queria recomendar um filme que fala mal do telejornalismo, mas com a maior competência. Em Terra de ninguém, lançado há algumas semanas no Brasil, o realizador Danis Tanovic critica tudo, inclusive a cobertura de guerra na TV. O enredo tem como cenário o recente conflito na Bósnia, num período em que ambos os lados já estavam totalmente desgastados e o mundo, indiferente. As mortes nos telejornais diários tinham se tornado rotina e os jornalistas não sabiam mais o que fazer para manter o público entretido, quero dizer, informado.

Terra de ninguém é um filme excelente em todos os sentidos. Trata-se de uma produção independente européia com diretor bósnio, que sabe sobre o que está falando pois viveu intensamente o drama da guerra civil no seu país, a antiga Iugoslávia. Vencedor do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, é grande sucesso de crítica mas parece ter passado meio despercebido no Brasil. O roteiro não perdoa ninguém e é particularmente cruel com os personagens que representam de forma irônica os estereótipos europeus. Eles surgem como os militares de diversos países que meio a contragosto integravam as forças de paz da ONU. Além deles, não podiam faltar os verdadeiros comediantes do filme: os jornalistas de TV.

O enredo não poderia ser mais simples e, ao mesmo tempo, mais absurdo. Dois combatentes inimigos, um sérvio e outro bósnio, meio perdidos e sem saber muito bem por que lutam, se encontram numa trincheira abandonada. A situação se complica quando o companheiro do soldado bósnio, considerado morto, é colocado sobre uma mina que pode explodir ao menor movimento, a qualquer momento. O impasse está estabelecido na "terra de ninguém". A trama descreve o ódio e a intolerância dos dois lados envolvidos no conflito. Também denuncia a omissão confortável das forças européias a serviço da ONU e critica as atitudes de uma jovem jornalista de televisão em busca de sucesso, ao vivo, via satélite, numa guerra que parece não render mais ibope algum. É um filme "sério" mas ao mesmo tempo "hilário", com alguns diálogos impagáveis sobre a ética da guerra e do jornalismo

Competição injusta

Para os profissionais de televisão, é mais uma oportunidade para refletir sobre os limites do nosso trabalho, principalmente, em tempos de dúvidas éticas e da possibilidade de sucesso instantâneo. Nada vem de graça. Deveríamos aproveitar e discutir as pressões e cobranças dos editores por imagens sempre mais espetaculares ou cinematográficas. A cada dia, buscam-se imagens e personagens que tendem a ser encontrados somente em situações muito arriscadas e absurdas, exatamente como no filme. A realidade e a verdade passam a ter um valor de coadjuvante no cenário de um novo telejornalismo no estilo "bang-bang".

O filme tem uma cena importante que é bem emblemática dessas atitudes. Num inesperado último ato de dignidade, quando perguntados pela jovem repórter sobre a guerra, homens brutalizados por anos de um conflito que não faz mais sentido surpreendentemente se recusam a continuar falando. Tudo parece inútil mesmo! Com um sinal obsceno, se afastam e protestam contra as perguntas ridículas chamando os repórteres de "sanguessugas".

A cena é forte mas não surpreende. Ela é conhecida de muitos e faz parte de um debate antigo que persegue os editores, repórteres e analistas do telejornalismo. Até que ponto o jornalista não estaria ganhando muito dinheiro e possivelmente muita fama e prestígio com a desgraça dos outros? Quais os limites de uma cobertura de guerra? Até que ponto essa cobertura jornalística não teria prolongado conflitos que poderiam ter sido resolvidos muito mais rapidamente se não houvesse um novo jornalismo de mercado?

A realidade parece imitar a ficção. Para alguns, esse novo jornalismo de TV não procura mais retratar ou representar a realidade ? mas, de uma forma perigosa, procura imitar os filmes de ação. O problema é que se demanda da televisão uma competição injusta com o cinema numa tentativa de sempre ultrapassar os limites do real contra a ficção, que já rompe até mesmo com os padrões da imaginação mais fértil.

Para o cinema de Tanovic, os europeus assim como o novo telejornalismo estão numa situação semelhante àquela retratada no filme. Não sabem muito bem o que fazem, o que querem e para onde vão. Estão todos cercados e imobilizados por novos valores, velhos códigos de ética e poderosas leis de mercado, numa verdadeira "terra de ninguém".

(*) Jornalista, coordenador do Laboratório de TV e professor de Telejornalismo da Uerj, doutorando em Ciência da Informação do Ibict/UFRJ