Tuesday, 05 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Os donos do pedaço

BALANÇO 2001

Nelson Hoineff

A palavra "retrospectiva" não pode ser usada como título de programa de TV por qualquer emissora, porque nesta categoria o vocábulo está registrado pela Globo. Isso dá bem a dimensão do que representou para a própria, em retrospectiva, o maior sucesso de audiência da televisão em 2001.

Casa dos Artistas lembrou que, em televisão como em futebol, nada pode ser dado como certo e que, pelo menos no primeiro caso, estratégias corretas de programação podem derrotar o que &eacuteacute; previsível. Lembrou isso da forma mais dolorosa (numa sociedade que contempla o jeitinho na questão dos direitos autorais) para quem esperava que o Big Brother, agora caindo de maduro, fosse o primeiro sucesso de uma parceria de seis anos com a Endemol (empresa controlada pela Telefónica da España) que deveria render aos sócios, segundo a maioria das fontes, algo em torno de 80 milhões de dólares. Ocorre que, também como no futebol, a grade de programação é um jogo de conjunto. E esse Big Brother, por direito da Globo, só cabia mesmo no time do SBT. Por linhas tortas, Sílvio Santos escreveu certo.

Justamente a imprevisibilidade de um fato policial como o seqüestro do próprio Sílvio fez com que todas as redes, sem saber para que lado correr, pagassem em conjunto o maior mico do ano. Mostraram ao distinto público que, quando o evento não é agendado como o Carnaval ou a Copa do Mundo, elas não estão absolutamente preparadas para uma cobertura total ? e menos ainda quando este evento tangencia o impossível.

No exterior, redes como a CNN e a BBC mostraram familiaridade bem maior com a cobertura do impossível ? seus desempenhos, nos quais quase todas as televisões do mundo se ancoraram, foi o que se extraiu de positivo nos acontecimentos de setembro de 2001.

Foi um ano difícil para as coberturas televisivas. A perplexidade de um momento esbarra na conduta ética do momento seguinte. Dias antes do seqüestro de Sílvio, sua filha Patricia estava seqüestrada para algumas redes e não estava para outras. (No momento de sua libertação, ninguém conseguiu interpretar o seu verdadeiro estado ? e a "Patrícia Hearst" que irresponsavelmente tentaram construir não durou mais do que 12 horas).

Neste exato momento [27/12/01], a mesmíssima coisa ocorre com o publicitário Washington Olivetto ? com a agravante que mesmo as emissoras que noticiaram o fato no primeiro dia não voltaram mais a ele, atendendo pedido da família. Só em São Paulo foram quase 250 ocorrências deste tipo em 2001 (diferentes entre si apenas pela notoriedade das vítimas, não pela existência de famílias), mas francamente a imprensa não parece ter ficado nem um pouco espantada.

Para esquecer

A imprensa, aliás, tem se espantado pouco. Quando se espanta, consegue plantar árvores frondosas. O jornalismo televisivo, por exemplo, ficou à reboque da mídia impressa em fatos políticos cuidadosamente cultivados por ela, como ACM e Jader Barbalho. No que talvez tenha sido o único Globo Repórter investigativo do ano, a TV deu sua solitária contribuição à apuração do escândalo do futebol onde foi fragorosamente batida, quem diria, pela CPI do Senado. O material do Globo Repórter havia sido inicialmente pensado para o Jornal Nacional ? e o fato mais grave é que acabou sendo mesmo só na Globo que a televisão respirou em 2001 alguns momentos de jornalismo investigativo. Momentos que foram, de longe, o melhor que a televisão brasileira produziu este ano em termos de jornalismo.

A omissão de todas as outras emissoras é capaz de dar bem uma medida da chacoalhada urgente que o telejornalismo brasileiro está precisando (para alguns, isso é argumento a favor da proposta de emenda constitucional que modifica o artigo 222, ainda que não seja fácil engolir essa ilação). Afora a crescente tendência do JN em investigar a notícia ? e de posturas individuais tomadas por comentaristas como Boris Casoy ? o jornalismo pouco freqüentou a televisão brasileira em 2001.

Por muitas outras razões, este foi um ano que as redes vão querer esquecer. A própria Globo fechou o primeiro semestre com o faturamento 12,3% menor que no ano anterior, e deve ter mantido taxa semelhante no final do exercício, mesmo sendo dona de uma uma participação de 77,7% do bolo publicitário. Isto significa que todas as outras redes (e ainda as emissoras públicas) têm que se contentar, em conjunto, com 22,3% de um mercado que, ainda por cima, encolheu.

Isto sim é um argumento convincente o consenso em torno das alterações do artigo 222, e foi justamente por esses resultados negativos que todas as redes acabaram convergindo para a matéria. Ao que tudo indica, a palavra "perspectivas" ainda não foi comprada por nenhuma delas.