Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Outra do poderoso chefão

TAILÂNDIA

A tensa relação entre o primeiro-ministro tailandês Thaksin Shinawatra e a mídia piorou.. No dia 4/3, a revista Far Eastern Economic Review aceitou publicar pedido de desculpas para encerrar a crise gerada pelo artigo de 10 de janeiro que tratava da relação entre governo e monarquia. O assunto é proibido, e a edição acabou apreendida, e os dois correspondentes americanos em Bancoc foram ameaçados de deportação. O Economist optou por deixar centenas de exemplares da edição de 2/3 num depósito, em vez de ser expulsa por reportagem especial sobre a Tailândia considerada inadequada.

O bilionário Thaksin Shinawatra fundou o império de telecomunicações Shin Corp., e freqüentemente repreende a imprensa pela "cobertura negativa". O primeiro momento de tensão foi na campanha eleitoral em janeiro de 2001, quando 23 jornalistas da iTV ? única estação privada do país, controlada pela Shin ? protestaram por terem sido pressionados a dar cobertura favorável ao dono. Todos foram demitidos. Na mesma época, a empresa cortou os anúncios do diário em língua inglesa The Nation.

Nas últimas semanas, o governo fechou as estações de rádio do Nation Group e baniu quatro apresentadores que criticaram Thaksin Shinawatra no ar. Ele alegou que a decisão foi motivada por violações contratuais, mas avisou à mídia para ser mais "construtiva".

Segundo a AFP (5/3/02), o poderoso chefão sofreu derrota no começo deste ano quando foi forçado recuar na criação de um centro de imprensa que administrasse a cobertura noticiosa das 500 emissoras de rádio e TV controladas pelo Estado. A tentativa de manipular a mídia falhou, e o centro vai apenas avaliar a opinião pública. Mas isto não parece ter intimidado o governo: no início de março, descobriu-se que policiais e militares pressionaram um instituto de pesquisa independente que lançou estudo mostrando que Thaksin perdeu apoio popular.

RÚSSIA

A equipe de jornalistas que dirigiu a última TV independente da Rússia se propõe a uma tarefa inédita: criar uma emissora não manipulada nem pelo governo nem por magnatas da mídia. O líder Yevgeny Kiselyov, que trabalhou na NTV e na TV-6, espera atrair 30 investidores individuais para controlar a Channel Six e conquistar a freqüência que pertencia à TV-6 em leilão em 27 de março. A TV-6 está fora do ar desde janeiro, quando perdeu batalha judicial com a companhia de petróleo Lukoil, acionista minoritário que pediu a falência do canal por baixo lucro. Embora o presidente russo, Vladimir Putin, insista em que o fechamento dos canais privados se deva unicamente a disputas econômicas, todos conhecem a campanha de esmagamento das emissoras independentes que criticam o Kremlin. No eufemismo das palavras de Mara D. Bellaby, da AP, são "ataques ao pluralismo da mídia local".

As estações de TV, das quais a maioria dos russos depende para receber notícias, são rotineiramente usadas com fins políticos. Segundo Mara D. Bellaby [AP, 5/3/02], gerar lucro e providenciar cobertura objetiva freqüentemente foram considerações secundárias. É grande o desafio de montar um negócio lucrativo num mercado em que os magnatas vêem a mídia como veículo político. Também é esperada a venda da Media-Most, império midiático do magnata Vladimir Gusisnky tomado pela estatal Gazprom.

O controle do Estado sobre a TV na Rússia e a crise no mercado publicitário estão causando graves problemas às 600 TVs do país. Sem dinheiro para substituir com produção própria a programação das redes nacionais, silenciadas pelos seguidos golpes do Kremlin, a saída é vender espaço a políticos ou empresários.

A estação Afontovo, de Krasnoyarsk, na Sibéria, é exemplo de perda de trabalho sério. Fundada em 1993 por Aleksander Karpov, a pequena TV funcionava inicialmente num bunker sob a agência dos correios da cidade. Seu jornalismo sério de estilo ocidental ganhou prêmios nacionais, porque Karpov tem uma característica rara entre os homens de negócio russos: idealismo. Ele acha que o noticiário precisa ser elegante e imparcial, e que a televisão é negócio e serviço de utilidade pública. Mas, depois da notável ascensão em nove anos de existência, sua TV caiu do segundo para o quarto lugar em audiência. "Ganhamos prêmios pela seriedade de nosso jornalismo, mas as pessoas assistem mais a eles do que a nós, esta é que é a verdade", lamenta, referindo-se à programação sensacionalista que o está derrubando.

Segundo Sabrina Tavernise [The New York Times, 4/2/02], a rival TV-K, segundo lugar na audiência local, tem programação popular. "Dizemos o que o povo quer ouvir", alega o diretor Vadim Vostrov, repetindo discurso nada novo para quem já assistiu ao Ratinho. Em 1998 ele difamou como pôde o adversário do candidato a governador de seu principal financiador, Anatoly Bykov, então proprietário da fábrica de alumínio que é o principal motor da economia da região. Karpov não se conforma: "Prefiro vender maçãs a fazer uma televisão desonesta."