Thursday, 13 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1291

Patrícia DAbreu

QUALIDADE NA TV

RACISMO

"Preconceito das ruas na telinha", copyright Jornal do Brasil, 10/03/01

"Qual o papel do negro: eis a questão – resumida – proposta por A negação do Brasil: O negro na telenovela brasileira, de Joel Zito Araújo. Com o mérito de mapear a participação de atores e personagens negros no gênero que responde pela atividade cultural básica do brasileiro, o livro preenche com eficácia uma das muitas lacunas da literatura sobre o folhetim eletrônico. Mas corre dois riscos: o de não apontar o maniqueísmo dos questionamentos raciais e o de assimilar a legitimação e a construção da identidade através de leituras mercadológicas.

Com a necessária reivindicação de um espaço mais justo e honesto de representação do negro na mídia, o livro – originalmente uma tese de doutorado apresentada na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) – situa o tema abordando o projeto eugenista brasileiro e o mito da democracia racial. Mesmo assim, sua reflexão em torno do ?ideal de branqueamento? da sociedade brasileira sataniza o conceito de mestiçagem – que, embora tenha historicamente enfraquecido a identidade negra, é uma das possibilidades na construção do comum. ?Essa perspectiva uniculturalista, de um racismo de tipo universalista, deu ao mestiço a esperança de ultrapassar a fronteira de cor e se reclassificar como branco?, afirma o autor.

É seguindo este ponto de vista que o segundo capítulo do livro busca apontar a influência de personagens e estereótipos da dramaturgia norte-americana na televisão brasileira. É aí que o autor direciona seu mapeamento para a leitura mercadológica como determinante na legitimação do negro. Dizendo que ?a ideologia racial norte-americana opera com uma bipolaridade entre raças?, Joel Zito classifica como ?produto? o cruzamento entre negros e brancos, o que, lamentavelmente, deixa a sensação de que o mestiço – o que é racialmente comum entre negros e brancos – dificulta o direcionamento da produção audiovisual.

Ao abordar a recepção das mensagens, ainda no capítulo dois, o autor cita uma pesquisa americana realizada em 1992 pela BBDO Special Markets e afirma que ela – a recepção – é diferenciada nos grupos raciais. ?Essa pesquisa de opinião ajuda não só a compreender as motivações econômicas dos empresários e da indústria cultural para atender ao segmento negro da população norte-americana, como também aponta a existência de bases de audiência que asseguram o retorno econômico para o nascimento de canais específicos de TV voltados para os afro-americanos e para a criação de uma programação negra nas redes?, escreve Joel Zito.

Embasado no modelo americano de reserva de mercado, o autor prossegue em seu mapeamento e chega ao capítulo três Telenovela e estereótipos sobre o negro brasileiro listando e analisando a presença de atores e personagens negros em folhetins exibidos entre 1964 e 1969. O sucesso da atriz Isaura Bruno em O direito de nascer, a estapafúrdia escalação do ator branco Sérgio Cardoso como protagonista de A cabana do pai Tomás, o amor inter-racial como vingança em Vidas em conflito, a participação de Pelé em Os estranhos e a empregada doméstica interpretada por Jacyra Silva em Antônio Maria são alguns dos exemplos que Joel Zito analisa para demonstrar a subvalorização do negro nos primeiros anos da televisão brasileira.

As telenovelas do período entre 1970 e 1979 estão no quarto capítulo, que tem o sugestivo – e bem escolhido – subtítulo de Uma escalada na qual os negros sobem pelo elevador de serviço. Nesse ponto, Joel Zito ressalta na dramaturgia de Dias Gomes ?uma simpatia especial por aqueles que vivem em condições subalternas nas relações entre as classes sociais no Brasil?. Mas é importante ressaltar que o conceito de ?simpatia? corre o risco de ser conivente com a imobilidade. A ?consciência racial na novela-comédia de Bráulio Pedroso? também está no capítulo, que poderia dedicar uma análise mais profunda ao gênio inovador do autor – que foi despedido da TV Globo quando preparava a sinopse da novela Preto no branco, que tinha o projeto de ter o personagem Aristides como o primeiro protagonista negro de uma telenovela.

Na passagem para o quinto capítulo, o autor não só reafirma como demonstra a estereotipia do negro no folhetim e parte para suas relações com o mito da democracia racial brasileira. Aqui, Joel Zito analisa a freqüência do romance inter-racial durante a década de 70 – que, muitas vezes, repete o estereótipo da Cinderela, que ascende socialmente pela relação amorosa – e dos tipos cômicos e pitorescos interpretados por negros em 90% dos folhetins da TV Tupi. E mostra como a figura do branco aparece como ?salvadora? da dignidade negra.

Esta mesma figura do branco está no capitulo que trata do ciclo abolicionista da televisão brasileira. Recordistas de venda internacional, novelas globais como Escrava Isaura, de Gilberto Braga, e Sinhá-moça, de Benedito Rui Barbosa, são dissecadas por Joel Zito. ?A escrava negra de maior sucesso da TV brasileira era branca desde sua criação pelo autor abolicionista Bernardo Guimarães. Entre o contexto político e social em que vivia o autor do romance e o contexto da época do adaptador da história, havia cem anos de distância, não se justificando, portanto, a falta de ousadia da emissora e a continuidade dos preconceitos do século 19?, analisa Joel sobre Escrava Isaura.

Causa estranheza a ausência de análise da adaptação para a TV de O sítio do pica-pau amarelo, da obra de Monteiro Lobato, no livro de Joel Zito. Talvez o único exemplo de exclusão do preconceito em uma adaptação, a diferença entre a construção literária e a versão televisiva da personagem Tia Anastácia – que, nos livros, sofre xingamentos de Emília e é tratada como intelectualmente inferior por Dona Benta e seus netos – poderia ser analisada em seus pontos positivos e viciados. E este seria um bom contraponto quando Joel Zito afirma, sobre Escrava Isaura, ?a extrema fidelidade de Gilberto Braga ao espírito de um escritor que estava aprisionado pelos preconceitos raciais do século 19?.

No último capítulo de A negação do Brasil, Joel festeja o mesmo autor pelo ?conflito racial aberto, com o mundo real, em Pátria minha?, que aqueceu o debate sobre o preconceito tendo o violento xingamento sofrido pelo personagem Kennedy (Alexandre Moreno) como centro da discussão. O mesmo acontece com Sílvio de Abreu, que assinou A próxima vítima. Entre os questionamentos feitos pelo autor, a crucial reflexão sobre o enquadramento de uma família negra nos moldes da classe média brasileira foi abafado pelo namoro homossexual inter-racial entre Jefferson (Lui Mendes) e Sandrinho (André Gonçalves). A caracterização de um céu-paraíso sem negros em A viagem, de Ivani Ribeiro, e o casamento dos personagens de Isabel Filardis e Marcos Winter em A indomada, de Aguinaldo Silva, também são abordados.

É aqui que a crítica construtiva sobre a polêmica descartável tão comum nas telenovelas poderia ser apontada. Mas Joel afirma que ?para a felicidade geral, já assistimos, no horário das 20h, ao resultado de um lento e complexo processo que está transformando a representação e o imaginário da população e dos autores e diretores da telenovela sobre o negro brasileiro?. Finalizando o livro, o autor se pergunta se ?nos próximos anos, a telenovela brasileira estará assimilando, com mais naturalidade e regularidade, o talento, a personalidade e a aparência física do ator negro?. Mas faz isso elevando a cultura dos Estados Unidos a uma utopia de igualdade racial ao desejar ?para as estrelas afro-brasileiras um lugar semelhante ao que Denzel Washington, Angela Basset, Morgan Freeman e Woopi Goldberg já conquistaram na indústria cinematográfica americana?. Contudo, não deve ser à toa que o polêmico cineasta afro-americano Spike Lee faz paródia e questiona a imagem de negros na TV e nos filmes de Hollywood em seu filme Bamboozled. (Patrícia DAbreu é repórter de televisão do JB)"

ESTRÉIA DE SANDY

"Ulysses Cruz elogia atuação de Sandy em `Estrela Guia’", copyright O Estado de S. Paulo, 9/03/01

"Depois de três anos de Rede Globo, o diretor de teatro Ulysses Cruz chega finalmente às novelas. Estrela Guia, protagonizada por Sandy, que estréia hoje, às 18 horas, é seu primeiro trabalho de direção, função dividida com Denise Saraceni e Carlos Araújo.

?Não tinha ido antes para as novelas por medo?, admite Cruz. Na verdade, foi um pouco por acaso que chegou a essa produção. Até o fim do ano passado, ele fazia parte da equipe dos infantis da emissora, de onde pediu para sair.

Naquele núcleo, o diretor aprendeu o principal trabalho a ser feito dentro de uma emissora de TV: exercitar a arte da paciência e da diplomacia. A Globo não definia o que queria na sua programação da manhã, mudou o que havia inicialmente planejado e tudo o que Cruz realizou foi para o lixo.

?Chegou uma hora em que saí procurando as pessoas para saber se meu trabalho era bom ou não. Achava que deveria ficar nos infantis para aprender a fazer TV, porque lá os diretores teriam mais tempo para mim. Mas chegou uma hora em que deu vontade de sair e pedi para mudar de núcleo.?

Ao ser convidado para ir para a Globo, Cruz primeiro fez um curso ministrado pela própria emissora e foi, de cara, escalado para dirigir uma novela das 8, Suave Veneno. Já havia iniciado a preparação do elenco quando foi convocado para fazer o especial de final de ano de Angélica. Gostou do resultado e optou por ficar nos infantis, então comandado por Roberto de Oliveira. Mudanças levaram Roberto Talma à direção do núcleo da programação infantil.

?Fiz o que me foi pedido, que era algo na linha da TV Cultura. Mas toda a programação da manhã se modificou e minhas coisas passaram a não se encaixar mais no novo perfil.? Em busca de algo novo para fazer na emissora, Cruz foi chamado por Denise Saraceni para preparar o elenco jovem que ela havia escalado para a nova novela. Não demorou muito e ele se juntou à equipe de diretores. Entre eles, não há divisão formal de tarefas. Cruz, porém, admite que prefere fazer as cenas de estúdio. ?Lá dentro, posso olhar mais no olho do ator. Nas externas, as opções são muitas e me perco um pouco.?

Logo que chegou à Globo, o diretor ?trombou? com algumas pessoas, porque tinha ciúmes de suas idéias e teve dificuldades para trabalhar com tanta gente em volta. ?Tem sempre um Maracanã de gente atrás de você?, conta.

Agora, ele já aprendeu que o diretor, na TV, é apenas parte de um processo e não o ?Deus? que tudo determina no teatro. Também não se intimida mais com os Maracanãs ao seu redor.

Sobre Estrela Guia, Cruz é todo empolgação. Definiu a novela como sendo algo ?simples, cheio de gentileza?. Empolgação maior, mesmo, é quando ele fala a respeito da cantora Sandy, que interpreta a protagonista Cristal e contracena com Guilherme Fontes. ?Ela é uma artista e não somente uma cantora ou atriz. É aplicada, concentrada e entende de primeira o que se pede a ela. Dificilmente mexeremos na sensibilidade dela como ela mesma já mexe.?

Apesar dos elogios para a cantora – que já atua em um seriado da Globo, o Sandy e Jr., mas faz sua estréia em novelas -, Cruz explica que não pensa em levá-la para os palcos teatrais. ?O teatro não está com essa bola toda. Mas, com certeza, ainda vou dirigir um show dela ou, pelo menos, vou me candidatar a dirigi-la.?

No palco – Teria a TV tirado Cruz definitivamente do teatro? Ele garante que não. Tanto que vai estrear, em maio, em algum palco paulista. Em cena, o atual galã emergente da Globo, Thiago Lacerda. O ator é também o produtor de No Círculo das Luzes, de Doc Comparato, que terá figurinos de Lino Villaventura e cenários de Hélio Eichbauer. Os ensaios da peça começam agora, segundo ele, com a estréia da novela.

?Estou nesse trabalho com muita alegria e espero ser convidado a fazer outras novelas. Gostaria, porém, de poder participar do processo desde o início, para trazer para a TV atores e textos que a TV não conhece. Afinal, acho que é isso o que a Globo quer ou não teria chamado um diretor de teatro para trabalhar na empresa.?"

CONTROLE SEM FORÇA

"Após 6 meses, controle à TV perde a força", copyright Folha de S. Paulo, 12/03/01

"Seis meses depois de ter entrado em vigor, a portaria 796, que determina a classificação dos programas de TV, enfrenta duas ações na Justiça e não tem mais o poder de impor às emissoras os horários de exibição das atrações.

Os planos do governo de discutir com as emissoras e a sociedade para procurar uma maneira de melhorar a qualidade da programação na televisão também foram adiados.

Em entrevista à Folha, em outubro do ano passado, a secretária nacional de Justiça, Elizabeth Sussekind, afirmou que o Ministério da Justiça realizaria em dezembro ou janeiro deste ano um seminário para discutir a televisão. Desse encontro, que reuniria representantes dos meios de comunicação e de associações ligadas ao interesse da criança e do adolescente, sairia um ?conselho revisor?, que, segundo Sussekind, serviria como ?ponte? entre o governo e a TV.

O seminário não aconteceu e a negociação entre governo e emissoras se transformou em batalha judicial. A Folha tentou durante três dias entrevistar a secretária nacional de Justiça sobre a portaria 796 e o seminário, mas ela não atendeu a reportagem.

A portaria, assinada pelo ministro da Justiça, José Gregori, entrou em vigor em 12 de setembro de 2000. O documento determina que os programas de TV devem ser classificados pelo ministério como liberados ou não para menores de 12, 14, 16 e 18 anos. De acordo com a faixa etária, a atração só pode ser exibida depois de um determinado horário. Às emissoras que não cumpram a determinação, a portaria prevê multas, com base no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Na época em que a portaria foi publicada, as emissoras afirmaram temer a volta da censura. Em dezembro, a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) conseguiu uma liminar do Superior Tribunal de Justiça que libera a exibição dos programas em qualquer horário.

Roberto Pfeiffer, consultor jurídico do Ministério da Justiça, afirmou que o governo está esperando a definição da Justiça para rever o rumo que a portaria 796 irá tomar. ?Por enquanto, a classificação dos programas continua sendo feita, mas, graças a uma liminar do Superior Tribunal de Justiça, as emissoras não são obrigadas a cumpri-la?, explica.

Nos bastidores, as TVs comemoram a rapidez com que conseguiram anular o efeito impositivo do documento.

Além dos dois processos contra a portaria, o movido pela Abert e outro pelo Conselho Federal da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), uma ação contra o artigo 254 do Estatuto da Criança e do Adolescente também tem como objetivo dar liberdade à programação das emissoras.

O artigo prevê multa aos canais que exibirem programas em ?horários diverso do autorizado ou sem aviso de classificação?. A ação foi movida pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), cujo presidente, José Carlos Martinez, é proprietário da CNT, emissora de televisão do Paraná.

O advogado do PTB nessa ação, Eros Grau, que também foi responsável pelo processo da Abert contra a portaria, afirmou que ?o partido percebeu no estatuto uma inconstitucionalidade?. ?A Constituição diz que a classificação deve ser indicativa e garante liberdade aos veículos de comunicação.?"

Liberdade total

Enquanto o Superior Tribunal de Justiça não julga as ações movidas pela Abert e OAB e o Supremo Tribunal Federal não dá parecer sobre a ação do PTB contra o ECA, as emissoras de TV estão livres para exibir os programas em horários diferentes dos determinados pelo Ministério da Justiça e não são obrigadas a indicar ao telespectador a classificação da atração.

A Globo, apesar disso, continua mantendo o aviso em seus programas. Antes das atrações, um recado traz um texto que cita, inclusive, a portaria 796. ?Sempre respeitamos a classificação. O que não podemos é aceitar uma lei que nos traga de volta o risco da censura.?

Marcos Aragão, vice-presidente da Record, também afirmou que a emissora continuará respeitando os horários indicados pelo Ministério da Justiça.

A Bandeirantes se baseia em seu código interno de ética. ?Continuamos a favor da auto-regulamentação e contra a imposição?, afirma Marcelo Meira, vice-presidente da emissora."

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"Juiz afirma que vai continuar fiscalizando", copyright Folha de S. Paulo, 12/03/01

"Mesmo que as emissoras ganhem na Justiça a batalha contra a portaria 796, o Ministério Público ainda terá como tentar interferir na programação quando achar que algum programa é inadequado para o horário.

Esta é opinião de Siro Darlan, juiz-titular da 1? Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, famoso por várias disputas judiciais contra a Rede Globo.

?Ainda que a portaria 796 e o Estatuto da Criança e do Adolescente fossem anulados, teríamos como agir quando houvesse excesso. Isso dificultaria, mas não inviabilizaria nossa ação?, afirma. ?Temos o artigo 227 da Constituição, que determina ser obrigação do Estado, da família e da sociedade assegurar à criança e ao adolescente vários direitos, entre eles o do respeito e da dignidade?, diz Darlan.

Para ele, a portaria 796 foi um ?mal necessário? na tentativa de garantir a qualidade da programação na televisão. ?Também sou contra censura, imposição. Mas há muitos absurdos na televisão brasileira?, diz.

Darlan também desaprova a atitude do PTB de tentar anular na Justiça o artigo 254 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que prevê multa às emissoras que não respeitarem os horário de exibição dos programas. ?É lamentável que um partido político vá contra o ECA?, afirmou.

Funk

Para Siro Darlan, um dos problemas atuais na televisão é o espaço que as emissoras vêm dando ao ?movimento? funk. Ele critica a frequente transmissão de danças e músicas ?com apelo erótico?."

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