Sunday, 19 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

Patricia Zorzan

QUALIDADE NA TV

ASPAS

"Maluf negociou acordo com Ratinho", copyright Folha de S. Paulo, 25/10/00

"O apresentador Carlos Massa, o Ratinho, tem criticado em seu programa de auditório as mesmas atitudes polêmicas de Marta Suplicy (PT) que vêm sendo utilizadas pelo candidato do PPB à Prefeitura de São Paulo, Paulo Maluf, para atacar sua adversária.

Segundo a Folha apurou, o ex-prefeito e Ratinho vêm negociando desde o primeiro turno a participação do apresentador na campanha pepebista por meio do que os marqueteiros classificam como ‘‘merchandising’, isto é, a propaganda não declarada, feita pela menção indireta, no programa, de temas defendidos pelo candidato.

Oficialmente, os pepebistas negam que haja um acordo.

Pelo menos desde o início do horário eleitoral gratuito, há 13 dias, Ratinho fez, em duas ocasiões, críticas diretas ao aborto e aos projetos de redução de pena para criminosos.

Os dois temas fazem parte da carreira parlamentar de Marta. A petista foi autora de um projeto -arquivado sem parecer- que prevê a redução de um dia de pena de prisão para cada 12 horas de estudo para presos em regime fechado e semi-aberto. A ex-deputada apoiou a regulamentação do aborto em hospitais públicos, nos casos já previstos em lei.

No primeiro turno o acordo entre o ex-prefeito e o apresentador não teria sido concretizado por dois motivos. O primeiro deles, uma insatisfação de Ratinho quanto ao valor do cachê oferecido pelo PPB. A quantia não foi revelada. E o segundo, e mais importante, por uma discordância quanto ao tipo de participação do apresentador na campanha.

De acordo com pepebistas ouvidos pela Folha, Maluf afirmou na ocasião que fazia questão da presença de Ratinho em seu horário eleitoral gratuito. O apresentador argumentou que, para isso, precisaria da autorização do SBT.

Desde o último domingo, entretanto, imagens de Ratinho atacando com veemência as posições defendidas por Marta estão sendo usadas na TV por Maluf.

Com a inscrição ‘‘imagens cedidas pelo SBT’, o apresentador critica ‘‘gente falando em direitos humanos para bandidos’.

Segundo a apresentadora do programa eleitoral de Maluf, as imagens dizem respeito a um sequestro relâmpago denunciado ao apresentador no dia último dia 17, um dia depois de Maluf ter iniciado a discussão sobre o projeto de Marta em debate na televisão.

‘‘Ou a gente vai cuidar bem do cidadão de bem ou vai cuidar bem do bandido. Não dá para cuidar dos dois’, diz o apresentador do SBT. ‘‘A gente está vendo no Congresso Nacional nego falando em diminuir pena. Não tem de diminuir pena para bandido. Sequestro tem de ter prisão perpétua.’

No dia seguinte, ao ser informado de que a polícia havia encontrado o corpo do médico sequestrado, o apresentador afirma que a pena deve ser aumentada.

A defesa de uma ‘pena de prisão perpétua’ é uma das principais bandeiras de Maluf na área da segurança pública. Na realidade, o ex-prefeito propõe, por meio de projeto apresentado por seu vice, o deputado Cunha Bueno, que a pena máxima de prisão seja dobrada de 30 anos para 60 anos.

No programa de anteontem à noite, Ratinho mostrou cenas de um sequestrador preso espancando uma menina de três anos. Antes de exibir as imagens, disse que eram as cenas mais violentas mostradas na TV brasileira.

‘‘Vou pedir para os senhores deputados assistirem. Para não falarem em diminuir pena de criminosos de crimes hediondos’, disse depois das imagens.

Antes disso, o padre Marcelo Rossi, que também participava do programa, foi incitado por Ratinho a se manifestar sobre o aborto. ‘Quero deixar bem claro que sou católico e totalmente contra o aborto’, declarou Ratinho."

"‘Esse discurso é meu há 3 anos’, afirma Ratinho", copyright Folha de S. Paulo, 25/10/00

"Carlos Massa, o Ratinho, disse ontem que a exibição das imagens de tortura e o discurso contra a redução de penas a criminosos são coerentes com a sua trajetória. A seguir, trechos de entrevista.

Folha – O sr. não acha que a exibição dessa fita e o discurso que fez no ar podem interferir na campanha eleitoral de São Paulo?

Ratinho – É um discurso que faço há três anos. Não vejo dessa maneira. Se eu não coloco a matéria no ar logo, eu não daria o furo.

Folha – A equipe de Paulo Maluf pediu uma cópia do seu programa para usar no horário eleitoral. O sr. autoriza?

Ratinho – Eu autorizo para qualquer partido, qualquer pessoa. Se o PT quiser mostrar e fazer o mesmo discurso, está autorizado.

Folha – No último domingo, a propaganda de Maluf usou uma imagem de seu programa do dia 17. O sr. autorizou?

Ratinho – Isso veio de cima. É coisa do SBT. A imagem depois que vai ao ar não pertence mais a mim, pertence ao SBT. Mesmo que eu pedisse e o SBT falasse não, eu não poderia ceder. Só que eu não proibi.

E, se o PT quiser usar, também pode. Eu não estou do lado de ninguém. Não voto aqui e não estou torcendo pra ninguém.

Folha – Se o sr. votasse aqui, votaria em quem?

Ratinho – Eu não falo porque o voto é secreto."

"De onde a violência", editorial, copyright Folha de S. Paulo, 26/10/00

"Diante da brutalidade mais crua, a sensação de impotência. Terão passado por essa experiência muitos dos que assistiram às cenas do que seria uma sessão de tortura impingida por um homem a uma criança pequena, transmitidas pelo Sistema Brasileiro de Televisão, num certo Programa do Ratinho.

Não há palavra a contrapor a tamanha selvageria. Nada há que possa qualificar o que extrapolou os limites do humano. Nada a não ser o medo em estado puro, animal.

Mas é preciso voltar à razão. Fora do terreno do mau gosto e do sensacionalismo barato que proliferam na TV, do qual o ocorrido no Programa do Ratinho é extremado exemplo, não há o que condenar no fato de o SBT ter veiculado tais cenas. A emissora é livre para fazê-lo, para contratar o apresentador que mais lhe apetece; assim como o telespectador não é obrigado a assistir ao programa e o patrocinador, a custeá-lo.

Mas o episódio foi sordidamente além disso. O condutor do programa, o tal Ratinho, utilizou as imagens chocantes para transmitir uma inadvertida mensagem aos ‘parlamentares’: para que eles não deixassem criminosos como aquele saírem da cadeia, para que não diminuíssem, e sim aumentassem, a pena para os crimes hediondos. Mensagem, aliás, que o apresentador vinha repetindo havia alguns dias, sempre ‘ilustrada’ por caso policial.

Mesmo se esta Folha não tivesse noticiado que a veiculação da ‘opinião’ do apresentador havia sido negociada com a campanha de Paulo Maluf à Prefeitura de São Paulo, a leitura eleitoral seria inequívoca. Um dos principais ataques do malufismo a sua adversária, a petista Marta Suplicy, refere-se justamente ao fato de ela ter sido autora, quando deputada federal, de um projeto de lei que prevê remissão de pena para presidiários que estudem, sem excluir os condenados por crimes hediondos.

A campanha malufista utilizou-se de imagens do Programa do Ratinho cedidas pelo SBT para atacar Marta.

As TVs estão impedidas de tomar partido em eleições. Mas o caso ocorrido no SBT é pior que uma declaração aberta de apoio. Lança mão de táticas que recendem ao fascismo, que tentam disseminar pânico, mas que têm claríssimas repercussões eleitorais. Se a emissora não dá os limites que deveria a seu apresentador, que a Justiça os dê.

"Questão de vivência democrática", Folha de S. Paulo, 28/10/00

"A exibição , no Programa do Ratinho, do senhor Carlos Massa, de um videoteipe com cenas deprimentes de maus tratos e torturas contra uma criança deveria ser condenada inapelavelmente, além de punido o apresentador, caso o teipe tivesse sido produzido por ele e sua equipe, encomendado ou forjado pelo senhor Massa para parecer real. Mas essa hipótese não foi nem sequer aventada.

Ainda assim a condenação veio de todos os lados, a indignação foi geral, medidas judiciais foram providenciadas, voltaram à tona as ameaças que o governo vem carinhosamente cultivando, rejubilaram-se as forças da censura e os inimigos da televisão livre.

O senhor Massa, portador do infeliz apelido de um roedor, causa polêmica com sua simples presença, com seus modos escandalosos, sua linguagem pobre e incontinente, seus quadros em que predominam a miséria e a infelicidade das camadas mais baixas da população e as queixas mais inusitadas dos que não têm nada, a não ser a esperança de ir se queixar ao bispo, personificado no nada eclesiástico senhor Ratinho.

Mas é claro que não é o senhor Ratinho que está em questão. O que está em questão é saber se a realidade, principalmente a crueldade, o crime, a violência, ainda que repelentes, pode ou não ser exibida na televisão, o veículo a que o povo, o chamado povão, verdadeiramente tem pleno acesso. Ou seja, se o que se passa de abjeto na vida real deve ser ocultado da massa do povo.

Vamos abstrair o que achamos de mau gosto e de vulgaridade no personagem. Todos nós temos assistido a cenas deprimentes na televisão. Os crimes e agressões de policiais, até mesmo um assassinato em Diadema, foram exibidos na televisão. E, se não tivesse sido, jamais seria conhecido. A televisão norte- americana mostrou à exaustão, todo o mundo acompanhou, o crudelíssimo espancamento do negro Rodney King pela polícia de Los Angeles. Ninguém duvida do valor educativo dessas cenas quando o ato violento é praticado pela polícia ou por inimigos políticos.

Algum candidato omitiria o teipe que o Ratinho mostrou se o agente da ação criminosa fosse seu rival? Talvez o ambiente do programa subtraia gravidade à cena apresentada. É possível. Talvez o episódio pudesse ter sido cercado de maior sobriedade. O horário era propício, por volta das 22h. Talvez pudesse ter sido exibido com mais nítidas características jornalísticas. Talvez.

Há muitos talvez, mas uma só certeza: que o que está em questão são valores muito mais importantes do que o personagem que se vale deles num dado momento, no caso, o famoso roedor.

A má-apresentação de um fato jornalístico não pode ser causa nem pretexto para que se cerceie ou ameace a liberdade de informação. Vale lembrar, de passagem, que essa matéria encaixa-se perfeitamente na hipótese do artigo 220, parágrafo 1º, da Constituição, ou seja, ‘embaraço à plena liberdade de informação jornalística’, que a Carta veda à lei -portanto a qualquer ordem, portaria ou medida dos poderes constituídos.

Como ficamos? Ficamos assim, cônscios de que a vivência democrática impõe exatamente isso: tolerar o que não toleramos; aceitar o que não faríamos; propagar nossos princípios; educar o nosso povo; não desesperar; e nunca perder de vista a alternativa. E qual é a alternativa? Alguém duvida, ainda que fosse possível institucionalizá-la, que a censura formal ou informal cometeria crimes e excessos nunca sonhados pelos seus inocentes propositores e simpatizantes que ora verberam contra o Ratinho? E que cedo estaríamos saudosos de Ratinhos? (Luiz Eduardo Borgerth, 67, é assessor para televisão da Borgerth Assessoria Ltda. Foi vice-presidente da Abert – Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão)"

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