Domingo, 5 de abril de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1382

Patrulhas patrióticas

GUERRA NA TV AMERICANA

Luiz Weis (*)

Acusadas pelos pacifistas de não lhes dar espaço, nem no noticiário, nem nos debates sobre a campanha no Afeganistão, as grandes redes de TV dos Estados Unidos ? ABC, CBS, CNN e MSNBC ? também estão sob marcação cerrada dos partidários da guerra total ao terror.

Os falcões da direita estão de olhos postos nos telejornais para identificar ? e denunciar ? qualquer manifestação de lesa-patriotismo, o que inclui fazer críticas ao desempenho do governo e mostrar ceticismo diante das versões oficiais.

A única rede com a qual os vigilantes da linha-justa não precisam se preocupar é a Fox, o outro canal americano de notícias 24 horas por dia, além da CNN. Para o seu âncora Brit Hume, as regras clássicas da objetividade não se aplicam ao que ele define como "um conflito entre os Estados Unidos e bárbaros assassinos".

Os americanos não conhecem a expressão "patrulhamento ideológico", criação do cineasta Cacá Diegues, nos anos 80. A expressão tradicional, ali, é a mais forte ? "witch-hunt", caça às bruxas, que ficou famosa nos anos 50, por causa do macartismo.

Mas o presidente da MSNBC Erik Sorensen inventou o similar à fórmula brasileira, ao falar em "patriotism police". Comentando as pressões extremistas, ele expôs as suas queixas. "Um passo em falso e você pode se complicar com esse caras e aí a ?polícia de patriotismo? vai atrás de você", contou. "Já basta a dificuldade monumental de apurar direito os fatos. Não queremos ter de nos perguntar se estamos batendo continência do jeito certo."

As declarações de Sorensen apareceram na reportagem "Cobertura das redes é alvo de fogo conservador", do New York Times, na quarta-feira [7/11/01]. Essa foi uma das três matérias que o jornalão dedicou na semana passada à guerra na TV ? sinal de que existem mais complicações no ar do que é dado a conhecer à massa dos espectadores.

Os assuntos das duas outras reportagens são o acesso dos pacifistas às câmeras ("Opositores da guerra são escassos na TV") e as diferenças entre o telejornalismo americano e os dos aliados ingleses ("Britânicos adotam linha mais franca no noticiário da guerra").

Má notícia

O que complica a vida dos jornalistas americanos de TV ? ao menos daqueles aos quais repugna o papel de meras correias de transmissão do que o Pentágono e a Casa Branca querem que o público saiba e pense ?, o que complica é uma inescapável realidade: devido ao 11 de setembro, esse público, na acachapante proporção de 8 em 10 pessoas, passou a aprovar o presidente Bush e achar que o seu governo está fazendo a coisa certa no Afeganistão.

Isso coloca as emissoras de TV na defensiva. Dias atrás, o presidente da CNN, Walter Isaacson, disse para quem quisesse ouvir: "Se você ficar na contramão da opinião pública, vai ter problemas".

E dá uma força danada aos radicais de direita, que não brincam em serviço. O Media Research Center, uma organização conservadora de monitoramento da imprensa, contratou equipes para cobrir a TV em tempo integral.

Entre outras coisas, o Centro compara os números de vítimas civis dos bombardeios no Afeganistão, divulgados a cada dia pelas redes, e despeja a sua ira patriótica, sob a forma de toneladas de e-mails, telefonemas e press-releases distribuídos aos quatro ventos, sobre a estação que deu as cifras mais altas ? no caso, a ABC.

A ABC é a bola da vez dos falcões. Eles começaram a cair de pau no âncora Peter Jennings desde que ele criticou Bush por não ter voltado para Washington, na manhã do dia 11, assim que soube dos ataques terroristas. Um radialista de direita atribuiu a Jennings palavras muito mais cáusticas do que ele usou e a versão exagerada foi aceita pelos americanos que não estiveram sintonizados na ABC.

O relatório do Media Research Center sobre a questão das baixas civis soltou os cachorros contra o canal. "A ABC sabe que o despótico Taleban usa erros reais e fictícios dos Estados Unidos para sabotar nossa guerra contra o terror", diz o texto, citado pelo New York Times. "Mas, pelo menos até agora, os seus correspondentes têm sido mais céticos em relação à América."

Segundo a reportagem, os diretores de jornalismo das redes admitem que levam as críticas da direita em conta quando tomam as decisões sobre o que irá ao ar a cada dia, e como. Essa é a principal má notícia sobre a guerra na TV americana.

"Estranhas embalagens"

Outra má notícia é a desigualdade de oportunidades de acesso às redes entre partidários e adversários da guerra. O pacifismo está praticamente ausente dos debates televisivos. E, ao aparecer, como nos programas da conservadora Fox, os seus representantes são tratados pelos mediadores, em coro com os convidados da outra ponta, com sarcasmo e agressividade.

Mesmo quando isso não acontece, o público é induzido a receber os argumentos dos pacifistas como deveriam receber, por exemplo, as idéias do secretário geral do Partido Comunista dos Estados Unidos no auge da guerra fria.

Na mesma ABC que a direita hostiliza, o mediador Ted Koppel fez a seguinte advertência os espectadores, no começo do segmento do programa Nightline dedicado ao pessoal contrário à guerra: "Alguns de vocês, muitos de vocês, não vão gostar do que irão ouvir esta noite. Vocês não precisam ouvir. Mas, se vocês ouvirem, deveriam saber que o dissenso às vezes vem em estranhas embalagens".

Menos mal que o segmento incluiu uma entrevista gravada com o escritor indiano Arundhati Roy, autor de uma crítica à reação americana ao terrorismo, "publicada no mundo inteiro", diz o NY Times, "exceto nos Estados Unidos". Outra raridade foi a atriz Susan Sarandon ter sido convidada a participar sábado [10/11] do programa Larry King Live, na CNN.

Público esperto

O presidente da MSNBC Erik Sorensen diz que "não tem havido muito debate, ponto". E observa: "A maior parte do dissenso levado ao ar vem do outro lado ? conservadores dizendo que precisamos bombardear mais [o Afeganistão] e atacar o Iraque".

Sorensen diz que tem sido difícil encontrar pessoas com credibilidade contrárias à guerra ? e, mais ainda, dispostas a aparecer na TV. Mas ninguém convidou a celebridade Richard Gere, que defende a não-violência.

De qualquer forma, é verdade que a oposição americana aos bombardeios no Afeganistão é mínima, perto do que foi o movimento pelo fim da guerra no Vietnam. "A maioria dos espectadores, ainda dolorida pelos ataques de 11 de setembro, não está a fim de ouvir pontos de vista que despreza como ?pirados? ou ?traidores?", escreve a repórter de mídia do Times Alessandra Stanley.

É verdade também que a escassez de pacifistas nos estúdios de TV provoca uma espécie de efeito Tostines às avessas: tanto menos o povo americano é exposto à dissidência, tanto mais forte fica o conformismo.

O outro lado da moeda é que parece haver nos Estados Unidos alguma insatisfação com a cobertura da guerra na TV. Sintoma disso seria a subida de 50% na audiência local do canal a cabo britânico ITN desde os atentados, como chama a atenção a colunista Laura Flandres, na edição da sexta-feira [9/11/01] do site WorkingForChange <www.workingforchange.com>.

Ela se baseia na terceira das mencionadas reportagens do New York Times, aquela que coteja o noticiário televisivo em língua inglesa dos dois lados do Atlântico. O autor, Caryn James, compara uma matéria da BBC com a da ABC depois que as respectivas equipes, além de outras, foram autorizadas a entrar no sul do Afeganistão controlado pelo Taleban. Escreve James:

"O suave tom americano e o austero tom britânico são típicos desses relatos, e a diferença ressalta o valor de se ver o mundo de uma perspectiva mais ampla. Se uma prioridade da guerra americana ao terror é manter a coesão de uma aliança global, ajuda saber, sem cobrir os fatos com açúcar, o que o resto do globo está pensando."

O raciocínio do jornalista é cortante. A miopia com qual a sua TV enxerga e mostra o mundo ? igual à de seu público ? ajuda a explicar por que os americanos têm uma enorme e genuína dificuldade em entender o fato de serem amados por poucos e odiados por muitos. As redes despacharam hordas de repórteres para o Paquistão e o norte do Afeganistão, mas isso nada mudou, porque a perspectiva deles continua a ser paroquial.

Além disso, dado que as emissoras dos Estados Unidos só conseguem se concentrar em um assunto por vez, "cobrir antraz e o Oriente Médio ao mesmo tempo é o equivalente noticioso a andar e mascar chiclé", critica o jornalista, impiedosamente.

"Parte da atitude americana de nós-contra-eles é compreensível", argumenta Caryn James. "Os ataques ocorreram aqui e criaram uma mentalidade de guerra. Mas, depois de dois meses, a atitude cautelosa da televisão americana a levou a vergar os joelhos diante do público, refletindo o clima de patriotismo em vez de informar os espectadores das ásperas e complexas realidades que eles precisam conhecer."

O texto cita o fecho da fala do repórter da BBC que participou da visita guiada ao Afeganistão: "Escombros podem ser menos do que convincentes e os americanos podem desprezá-los como propaganda do inimigo. Mais difícil é negar que a raiva sentida pelo povo aqui parece dirigir-se não ao Taleban, mas aos Estados Unidos".

O que leva Caryn James ao seu próprio fecho. "Pode não ser agradável ouvir isso, mas [a BBC] faz algo que a TV americana não costuma fazer: ela presume que o público é esperto e adulto o suficiente para lidar com o que o resto do mundo pensa."

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