Friday, 23 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

Paula Mageste


GUERRA NA MÍDIA

"Al Qaeda na frente", copyright Época, 5/11/01

"Aos 51 anos, James Fallows é um dos maiores críticos da imprensa americana. O título de seu livro mais conhecido é muito claro ? Detonando a Notícia: Como a Mídia Corrói a Democracia Americana. Antigo diretor da US News and World Report, a terceira maior revista semanal americana, hoje repórter especial da Atlantic Monthly, uma das mais respeitadas publicações do país, Fallows é sempre uma referência quando a imprensa vira manchete. Ele acredita que, ?no conflito mais sofisticado da era moderna?, os jornalistas não estão fazendo direito seu trabalho. Têm se perdido no patriotismo, na dificuldade de acesso ao Afeganistão e na tentativa do governo americano de controlar a veiculação das imagens que vêm da Al Jazeera, a emissora do Catar. Mas essa é apenas a ponta do iceberg: ?Nos últimos anos, deixamos de oferecer aos leitores e telespectadores o que é realmente importante para a vida deles?, diz. ?Precisamos recuperar os princípios básicos de tudo, incluindo aí o bom jornalismo.?

Quem está levando a melhor, os Estados Unidos ou a Al Qaeda, de Bin Laden?
James Fallows ? Até agora, a Al Qaeda. A organização terrorista de Bin Laden conseguiu disseminar o pânico pela mídia. Isso ilustra tanto a sofisticação intelectual dos terroristas quanto o fato de que há diferentes tipos de sociedade em choque. É mais fácil ganhar uma guerra de propaganda contra uma sociedade aberta que contra uma fechada. A Al Qaeda entende melhor o adversário, e essa é a fraqueza crônica dos Estados Unidos e das grandes potências. O Pentágono reconhece que estamos em meio a um conflito muito complicado, porque um grupo de terroristas relativamente pequeno entende em profundidade as vulnerabilidades da sociedade americana – do sistema de aviação civil à forma de trabalhar da imprensa.

A censura é uma arma legítima nesse tipo de guerra?

Fallows ? Posso imaginar exceções localizadas para a liberdade de imprensa em tempos de guerra, porque há vidas em jogo. Parece-me razoável atrasar por algumas horas a transmissão de uma informação, de maneira que os militares possam realizar uma determinada operação. Divulgar informações dessa natureza põe a imprensa numa posição de espionagem, e não de autonomia. No entanto, historicamente, o problema tem sido a autocensura: repórteres com medo de ficar impopulares com o governo ou com o público decidem não explorar determinadas questões.

O senhor tem exemplos de autocensura?

Fallows ? Em 11 de setembro, as TVs mostraram pessoas se jogando do alto do WTC. Depois, pararam. Acharam que a cena era muito perturbadora para o público americano. Com razão, mas não sei se teriam essa ?delicadeza cenográfica? no caso de uma tragédia na China, por exemplo.

As redes americanas não mostraram os corpos do WTC, mas o regime Taleban, do Afeganistão, sempre fechado à imprensa, abriu uma exceção e levou os jornalistas aos vilarejos destruídos por mísseis. São duas posturas antagônicas. Como lidar com elas?

Fallows ? É um exemplo claro de como a guerra de propaganda suplementa a militar. O Taleban está seguindo uma tradição antiga: mostrar o estrago feito pelo inimigo, enfatizar as perdas humanas. Quanto a não mostrar os corpos mutilados do WTC, existe um precedente histórico. Na Segunda Guerra Mundial, as grandes revistas americanas, como a Life, achavam deprimente e desmoralizante expor os americanos abatidos em combate. Mas mostravam chineses mortos por japoneses e acampamentos alemães bombardeados.

E o que é pior, autocensura ou censura?

Fallows ? Ambas são perigosas. A censura em sociedades totalitárias é muito ruim, mas as pessoas sabem que há algo errado quando vêem uma receita de bolo ou um poema no lugar de uma reportagem política, como ocorreu no Brasil durante a ditadura militar. Essa transparência não existe quando um repórter decide algo por si só. Jornalistas de dez órgãos de imprensa sabiam quando começariam os ataques ao Afeganistão. Não divulgar essa data fez parte de uma negociação: eles poderiam ir junto e assistir a tudo, desde que mantivessem sigilo até a hora H. Entendo por que isso foi aceito, mas não seria minha escolha. O repórter, nesses casos, acaba fazendo parte das Forças Armadas.

O que o senhor faria?

Fallows ? Tentaria ir para a zona de guerra, livre para observar o que fosse possível, não o que me fosse permitido.

A dificuldade de acesso à frente de batalha favorece a manipulação da imprensa?

Fallows ? Está cada vez mais difícil cobrir um conflito. Na Segunda Guerra e na Guerra da Coréia, havia correspondentes do mundo inteiro nos campos de batalha. Nos últimos 20 anos, os combates tornaram-se mais high tech e confinados a partes remotas do mundo. A cobertura ficou mais distante. É muito difícil para qualquer jornalista estar em cena no Afeganistão. Por outro lado, não existe mais essa frente de batalha, no sentido clássico. Ele agora está na agência de correios, nas emissoras de TV. Não há paralelo para isso na História.

Os ataques com antraz à imprensa podem ser entendidos como outra arma da guerra de propaganda?

Fallows ? É parte de uma estratégia brilhante. O efeito mais destrutivo de uma situação contínua de terrorismo nos Estados Unidos seria a disseminação da ansiedade, do medo, do nervosismo, da apreensão e da incapacidade de tocar o dia-a-dia. Se a própria mídia fica amedrontada, como está agora, esse tom é projetado. Se essas cartas tivessem sido endereçadas a executivos no Texas, não teriam o mesmo poder de alastrar o medo.

A Al Qaeda estaria, portanto, mandando um recado para a imprensa, questionando a forma como administra suas coberturas e alertando sobre sua responsabilidade no desenrolar dos acontecimentos mundiais?

Fallows ? Seguramente. Um dos pontos mais vulneráveis das grandes potências, a longo prazo, é que elas se tornam insensíveis, cegas e surdas ao mundo lá fora. A imprensa está incluída nisso. A americana se orgulha de ser livre para fazer praticamente qualquer coisa. Nos últimos dez anos, no entanto, exacerbou sua tendência a ser meramente ?entretenimento? dando aos leitores apenas o que é leve e interessante. A Caxemira é um ponto de conflito há muito tempo, mas ninguém fala disso. Pouco se falava do Taleban. Ficou claro que é uma questão de vida ou morte as pessoas entenderem como funciona o mundo lá fora. É nosso trabalho tornar interessante para o leitor aquilo que é importante para a vida dele. Nossa indústria não é a do entretenimento, mas a da informação. Temos de voltar a esse valor fundamental. Isso não quer dizer que a imprensa tem de desculpar ou aceitar os motivos dos terroristas. Trata-se de ampliar horizontes, entender as ambições do mundo.

É preciso livrar-se do patriotismo?

Fallows ? Em tempos de guerra, o desafio de uma imprensa democrática é reconhecer que qualquer pessoa tem um viés nacionalista e, ao mesmo tempo, tentar ser o mais independente possível. A imprensa claramente escolheu um lado nesta guerra, porque sua existência depende de um sistema político democrático que está sendo atacado. Mas é preciso manter a curiosidade, o rigor, a independência, a abertura para os dois lados dessa história. Na Segunda Guerra Mundial, a imprensa americana e a européia também escolheram um lado, contra o nazismo. Mas os melhores repórteres tentaram explicar o que ocorria na Alemanha e como os alemães viam o mundo naquele momento.

O senhor apontaria algum exemplo de cobertura independente nesta guerra?

Fallows ? A imprensa de qualquer nação fica comprometida quando as Forças Armadas participam do conflito. Diria que a brasileira e a italiana seriam boas fontes de informação neste momento. Afinal, o Brasil não está na guerra.

As liberdades individuais estão tão comprometidas quanto a liberdade de imprensa nesta guerra?

Fallows ? Por enquanto, o que existe é a perda de liberdade operacional. Está mais difícil viajar ou abrir a correspondência. As pessoas estão com medo. Mas ainda não houve uma perda mais profunda, a das liberdades políticas. Ninguém do governo pediu poderes extraordinários para resolver esse problema, porque nem se sabe como fazê-lo. Portanto, o povo americano não foi confrontado até o momento com a escolha entre sua segurança e sua liberdade.

Ao fim de tudo, o conflito poderia ter algum efeito positivo?

Fallows ? Um deles seria ver as pessoas envolvidas por um sentido de comunidade, de propósito público. Outro seria observar a renovação da consciência mundial sobre as desigualdades e as diferentes perspectivas de cada povo."

 

"A guerra da propaganda", copyright Jornal do Brasil, 3/11/01

"Estados Unidos e Inglaterra abriram nova frente em sua guerra contra o terrorismo, com o lançamento de uma campanha informativa para deter a diminuição do apoio internacional aos bombardeios no Afeganistão, iniciados no dia 7 de outubro. Os dois governos estabeleceram três centros de informação, ligados por satélite, em Washington, Londres e Islamabad, capital do Paquistão. Os centros se revezarão durante as 24 horas do dia para, de forma imediata, ?contestar a desinformação dos talibãs e da rede terrorista Al Qaeda?, explicou o porta-voz da Casa Branca, Ari Fletcher. Karen Hughes, conselheira para assuntos de comunicação do presidente George Bush, dirigirá os centros.

Questionado sobre se a administração Bush iria perder a guerra da propaganda, Fletcher foi incisivo. ?Em absoluto. Mas temos os talibãs, um regime que mente para seu povo e para o mundo inteiro?, disse. Um dos problemas constatados, segundo Fletcher, é a diferença de 10 horas que existem entre as declarações que os representantes dos talibãs fazem no Paquistão e a resposta de Washington. No mundo parecem aumentar as dúvidas sobre a estratégia americana. Os presidentes do Egito, Paquistão e Indonésia manifestaram a esperança de verem cessar os bombardeios o mais rápido possível.

Rádio afegã – A Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados americana aprovou a criação de uma Rádio Afeganistão Livre, para transmitir notícias e explicar os objetivos e motivos da guerra americana aos afegãos. A medida autoriza o gasto de US$ 14 milhões para transmissão no Afeganistão, sob os auspícios da existente Rádio Europa Livre/Rádio Liberdade, com atuação em países considerados sem liberdade de imprensa pelo governo americano, que as patrocina. Os promotores da nova emissora disseram que o serviço, que não foi endossado pela administração Bush, é necessário para informar os afegãos sobre a campanha militar."

    
    
                     
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