Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Pautas petistas

VIDA DE JORNALISTA

Claúdia Rodrigues (*)

Dia desses passou pela minha tela um pedido de matéria: "Vamos fazer assim porque é bem nesse tipo de coisa que o governo quer investir…", escreveu a editora, referindo-se ao sistema de cooperativas.

Em um primeiro momento senti satisfação e uma ponta de esperança em relação à melhoria na qualidade das matérias. Animada, comecei a pesquisa sentindo-me mais do que uma jornalista, uma cidadã cujo dever imediato era buscar na antiga história das cooperativas bons exemplos, divulgando-os para o maior número de pessoas possível. Mas a frieza da frase martelava na minha cabeça. E uma diabinha querendo ir ao supermercado gritava: "morra Poliana, morra Poliana!".

Tudo bem, vai ver é só essa editora que é assim. Não, não é só essa editora que é assim. As revistas semanais estão assim, os telejornais; tudo está se endireitando pela esquerda. É enlouquecedor porque é só uma questão de pose, de fachada, de linha a ser adotada, até quando a onda é ser levemente contra. Tinha o PT light e agora tem a direita light. E justamente isso; a pose, a linha a ser adotada, o sorriso falso, a concordância imediata e a falta de questionamento são os ingredientes que formam um pensamento de extrema-direita.

Temos aí o que um governo deve fazer com a mídia ou o que uma mídia pode fazer com um governo. Fora a possibilidade de um alinhamento completo, o que seria a catástrofe total. Sem pessimismos, já nos basta a situação atual geral, nacional e internacional.Por enquanto a mídia quer agradar, perde a oportunidade de entender, acompanhar o processo, criticar, questionar e sugerir através de boas, raras e sempre renováveis fontes. A falta de renovação das fontes é uma questão à parte no jornalismo. O mesmo psicanalista fala durante 15 anos, o mesmo engenheiro civil, a mesma dentista… É impressionante, daria um livro de cases. Assim mesmo, com a palavrinha inglesa e sotaque americano.

Infelizmente, depois da eleição petista, em um futuro próximo, a qualidade da mídia não vai melhorar, pelo menos enquanto a visão comercialesca estiver acima de qualquer causa. E isso não tem nada a ver com não pensar em lucros. Não há nada menos rentável e economicamente mais fadado ao fracasso a longo prazo do que o pensamento marqueteiro. Se tivesse dado certo o Império Americano não estaria indo para o brejo.

Fazer para agradar o outro não dá certo em nenhum setor da vida humana. Quando fazemos e o outro se sente agradado é ponto e pronto. Tentou repetir com a intenção, já com cara de bisbilhotação do sentimento alheio, é queda certa. Dependendo se é uma questão sentimental, política, econômica ou de relações superficiais entre seres humanos, a tal queda ocorre mais cedo ou mais tarde. E aí temos um problema: nas relações superficiais, mais do que na economia e na política, a derrocada pode demorar anos. E justamente as relações superficiais estão em alta, em todos os setores. Isso é mesmo o que o que um velho professor de Política dizia entre risos: uma problemática sem solucionática.

Mas uma coisa é certa e não tem discussão. A longo prazo, essa história de querer agradar cai por terra, vira uma chatice e o dono dela é um balde a ser chutado.

Em primeiro lugar porque a arte de agradar é sentir prazer em entender, em perceber, em sentir. Agradar, às vezes, é discordar, brigar, entrar em atrito. Há crescimento, há um bom texto e uma ótima matéria quando o editor é questionado, quando o repórter é surpreendido por novidades fora da pauta, quando o entrevistado cita outra boa fonte, e principalmente quando a fonte não é a mesma de sempre para o mesmo assunto, o que inviabiliza qualquer surpresa.

A moda agora é outra

Ah, quando as pautas viravam, que delícia, que tempestade cerebral… Mas pautas, hoje, não podem virar. Jornalismo fast food é jornalismo empacotado, industrializado, pronto para consumo.

Além do mais é preciso agradar certas fontes, então… Eca meleca, lá vem a problemática…

O tipo de agrado que se vive agora, em diversos setores da vida pública e privada, e largamente difundido pela mídia, é superficial, não produz prazer genuíno, não soma, não acrescenta, não enriquece a vida cultural, emocional e intelectual das pessoas.

O tipo de agrado fabricado pela mídia tem como âncora a inveja e a idolatria ? daí o sucesso de revistas como Caras, Chiques e Famosos e outras; daí o aumento das seções Gente e das colunas sociais. Programas como o Big Brother e quadrinhos sobre a vida do seu ídolo são pouco diferentes do jornalismo numa cobertura de guerra, quando os presidentes dos países, os soldados e até os mísseis representam o que há de mais importante para se ver, saber e sentir sobre a guerra.

E essa mistura de ter que com deve que, formadora dessa pasteurização total de textos e pior, de idéias, causou um estrago tão grande nos cérebros dos profissionais das redações que o pessoal anda tonto, pedindo matéria a mim, que sempre fui considerada panfletária, acusada de ser bicho-grilo fora de época.

A moda das matérias agora é outra.

Então vamos lá, editores e editoras que querem agradar ao governo petista ou se sentem obrigados a isso. Ainda que a arte de agradar seja sentir prazer, ainda que para uma boa matéria, quente, substanciosa e nada siliconada, seja necessário tesão acima de tudo, vão aí umas sugestõezinhas básicas.

Ecologia e economia

Muito pouco se vê e se sabe sobre líderes pacifistas da atualidade, sobre as diferentes ONGs que trabalham nessas causas. E há ONGs voltadas para a economia, como a Attac, para a preservação do ambiente, como a Greenpeace. São entidades de respeito, com história, com dados e soluções para muitos problemas atuais. Nos últimos anos sempre têm sido tratadas como histerias em massa da esquerda festiva, movimento de jovens rebeldes sem causa. Por algum motivo, que não se entende bem, os editores acham que lutar contra a ditadura econômica e empresarial não é uma causa tão importante quanto foi ter lutado contra a ditadura militar, embora os milicos continuem lá com seus cassetetes e armas de efeito imoral.

Internacional

O Afeganistão está jogado, largado. Falta imprensa para mostrar o que restou do país e das pessoas, está faltando mídia para dar um passeio em Gaza, Israel/Palestina, para reunir imagens dos últimos 20 anos do local. Poderiam reinventar uma Paula Saldanha Jr., só para assuntos sérios mundo afora. Não é tão caro assim tirar os repórteres do barquinho romântico do Amazonas e suas belezas intocáveis e colocá-los em frente às madeireiras ou em um dos tantos navios que carregam belezas amazônicas para a Europa e os EUA.

Economia

Matérias sobre microcréditos, belas reportagens com exemplos de bancos éticos, inexistentes no Brasil, que entre outras coisas dão aos clientes o direito de optar e de saber onde está sendo aplicado o dinheiro, são um bom começo para aquecer, não uma mídia petista, mas uma mídia que não está a serviço de conservadores de direita e nem presa a um único sistema econômico; o do capitalismo americano.

Nacional

Bem, no mundo do narcotráfico brasileiro a coisa é pesada, mas será que pelo menos não dava para incluir na pauta dos telejornais os nomes dos amigos e conhecidos influentes do Fernandinho Beira-Mar? Grampeiam Deus e o diabo, isolam o homem, e nunca grampearam suas ligações? Que estranho!

Uma pauta mais do que petista seria a vida das famílias que sobrevivem do narcotráfico. Do que elas viveriam sem o narcotráfico? Onde estudam as crianças? O que espera da vida um adolescente filho de um traficante? Quais são seus planos? Fala-se tanto do narcotráfico mas há uma espécie de amnésia midiática sobre a conexão da droga com a agricultura e com o mercado consumidor. Como seria, hipoteticamente, o tratamento via repressão e o tratamento via legalização? Que vantagens e desvantagens a sociedade pode viver com as duas opções?

O pensamento único sobre repressão às drogas vem do nosso irmão do Norte, que adora combater a pobreza e investir no crime.

Há que se ouvir os presos, muito mais, há que se ouvir os próprios traficantes, muito mais. Há que se ouvir os sem-teto, os sem-camisa, os sem-terra.

A elite da narcocultura está precisando repousar as nádegas, um instantinho só, e ter o privilégio de abrir uma revista chamada Outras Caras, ou Outros Rumos, Outros Artistas, Outras Coisas, sei lá.

Como diz o velho ditado, e se o PT ainda não perdeu o fio da meada certamente há de querer e dizer que "a voz do povo é a voz de Deus".

(*) Jornalista