Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Por uma rede diferente

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FORÚM

Recentes manifestações do novo presidente da TV Educativa do Rio de Janeiro, dando como inevitável a montagem de uma nova grade de programação da emissora que dirige, podem colocar em risco a consolidação de uma Rede Pública de TV no país?

Marco Antônio T. Coelho Filho (*)

Um rompimento na Rede Pública de TV, por menor que seja, só terá um grande prejudicado: o telespectador brasileiro. O que está em jogo não é o tamanho da fratura ? se é 13% ou mais ?, mas o retrocesso que a ação acarreta. O cidadão e a criança brasileira precisam ter à sua disposição um veículo eletrônico de massa que possa entreter, educar e informar sob a ótica do interesse público.

A sociedade brasileira merece essa opção, sem que se faça aqui juízo de valor sobre o tipo de entretenimento e informação dominantes no mercado. A necessidade de informação pública sem o viés mercadológico é um fato incontestável.

De forma geral, os jornalistas acham que diariamente oferecem a seus leitores, telespectadores ou ouvintes uma informação de interesse público. Não é mentira, mas também não é verdade: trata-se de uma meia-verdade. No bojo das informações pertinentes e de interesse da sociedade, os veículos de comunicação dirigidos pelo capital ? afinal, jornais e emissoras de rádio e TV são negócios privados ou não? ? misturam e propagandeiam o espetáculo, o sexo, a destruição ou a emoção com dor para dar audiência e, conseqüentemente, vender suas mercadorias.

É muito engraçado observar essa lógica no próprio noticiário que cercou a polêmica em torno da Rede Pública de TV. Ao longo de quase três anos de gestação ? nos quais intermináveis assembléias com todas as principais geradoras educativas (as TVEs) foram realizadas ?, o esforço se concentrou na busca de uma organicidade nacional na programação. Verdadeiros "pactos de Moncloa" foram negociados, pois sentam-se nesse fórum representantes de interesses políticos contraditórios na política nacional, como Itamar Franco, FHC, ACM, Lula etc). E , por incrível que possa parecer, uma pequena porém firme unidade na diversidade foi obtida ? as tais 6 horas diárias de programação comum.

A mídia privada acompanhou esse processo? Não. Ela noticiou a Rede quando as 6 horas foram aprovadas? Também não. Afinal era algo em construção, um processo democrático, lento, sem nenhum atrativo para o mercado .

A notícia que interessou foi a do possível rompimento da Rede. Aí ,sim, o assunto apareceu na mídia. Para azar de uns, como isso (ainda?) não aconteceu foi hilário verificar a tentativa da explicação de algo que poderia se romper e acabou não se rompendo. Ficou muito complicado explicar. A solução? Melhor voltar a ignorar a questão.

Agentes de transformação

Tudo bem, é isso mesmo, faz parte do jogo. Afinal a informação precisa ser vendida, precisa ter algum apelo. Não basta ela ser importante para a sociedade. É justamente por isso que o jornalismo público, de qualidade, independente do poder e do mercado, tem papel relevante dentro da Rede Pública de TV. É isso o que se tenta fazer diariamente com a programação jornalística da TV Cultura.

Os resultados estão longe dos chamados padrões de excelência, uma vez que os novos parâmetros editoriais e formais ainda estão sendo desenvolvidos e aprimorados pelos próprios jornalistas. A decisão política de implementá-los, porém, há muito foi tomada.

Nesse sentido, a possibilidade de rompimento parcial da rede pública ? com a saída da TVE do Rio de Janeiro ? foi vista com pesar e estranheza. Mesmo sem ser praticado por todas as praças (pesam aí as injunções políticas e as dificuldades de produção), o formato do jornalismo independente do poder agrada à maioria das geradoras que compõe a Rede. Os dirigentes o desejam e sabem que o fato de exibirem nacionalmente programas dessa natureza os ajuda na luta pela autonomia regional. Produtos como o Roda Viva, Opinião Brasil, Conversa Afiada, Observatório da Imprensa , Metrópolis, Conexão Roberto D?Ávila e Repórter Eco são citados costumeiramente como agentes dessa transformação, pois emprestam credibilidade aos veículos que os transmitem.

O sonho hegemônico de uma comunicação eletrônica de massa monocórdia, originada em apenas uma praça (como no passado), é hoje impossível entre as TVEs. Mesmo estando em estágios tecnológicos diferentes temos na Rede Pública produtos da Rede Minas,TVEs de Pernambuco e Bahia; coberturas de eventos regionais/nacionais importantes feitos conjuntamente com o Pará, Rio Grande do Sul, Paraná e Amazonas.

Enfim, se esse processo não sofrer solução de continuidade, quem sabe poderemos ter no país uma rede pública democrática, que mostre o Brasil para o brasileiros, com todos os seus sotaques. Pode parecer um sonho impossível, dadas as dificuldades e os objetivos algumas vezes conflitantes. Mas, convenhamos: o Brasil já saiu de uma ditadura sem promover uma ruptura. Existe algo mais difícil do que isso? Por que não conseguiria sedimentar uma Rede Pública de TV pluralista e independente?

(*) Diretor de jornalismo da Rede Cultura, São Paulo

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