Tuesday, 05 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

É preciso semancol

PROFISSÃO JORNALISTA

Allan de Abreu (*)

Um dos maiores baratos da profissão de jornalista é ter contato com pessoas muito diferentes num período de tempo muito curto, talvez de poucas horas. O ouvido e a memória do que se ouviu são as maiores armas de um repórter.

Truman Capote, jornalista americano que inaugurou o new journalism, tinha uma estratégia curiosa para exercitar a memória. Pegava algumas cartas de baralho e espalhava numa mesa. Procurava, numa passada de vista, guardar a posição de cada uma delas. Depois, virava-as aleatoriamente e dizia o naipe antes de olhá-las.

Com o tempo, Capote conseguia fazer esse exercício com todo o baralho, sem errar a posição de nenhuma delas. Agora era a vez da prática: com um gravador escondido no paletó, fez uma longa entrevista. Chegou à redação e transcreveu-a de memória. Depois, ouviu a conversa no gravador. Estava tudo exatamente como ele havia escrito.

Hoje, a imprensa escrita é refém do gravador. Pergunta-se e olha-se para o além, distraído, confiante no aparelho. Ouvidos moucos, contato artificial: quebra-se a naturalidade de um bate-papo, a que o jornalismo sempre deve aspirar. Até para o conforto mental do entrevistado.

Para os jornalistas que "cobrem política" (como diz o jargão), é preciso cuidado não só com o ouvido, mas com as atitudes. A maioria dos repórteres é personalista, não sabe separar a profissão das preferências ideológicas, principalmente no interior. Para os políticos, um prato cheio para o convencimento.

Tolos, os tais acabam se gabando daquilo que é reprovável na profissão: almoços e festas patrocinadas por políticos, discursos escritos em troca de um dinheirinho a mais. É, grosso modo, como vender a alma ao diabo: a mácula gruda e é difícil de ser retirada, quando e se o pobre repórter se arrepender posteriormente. Valem aqui algumas sábias palavras, do jornalista José Nêumanne:

"A principal fonte de erro para o repórter político é a própria vaidade, e seu maior instrumento de trabalho não é a caneta, o bloco de anotações ou computador, mas o semancol, em doses que devem aumentar com o passar do tempo. Pois a sensação ilusória da proximidade com os poderosos dada ao repórter que segue seus passos é a pior conselheira que ele pode ter. O convívio é uma forma de cooptação mais terrível. A proximidade e a freqüência são poderosas armas a serviço da pura e simples adesão, às vezes piores do que a própria corrupção."

É sempre bom refletir sobre o que se faz maquinalmente todos os dias. Que mediador social é o jornalista porta-voz de vereadores ou prefeitos? Jornalismo é um pouco a intenção de se produzir conteúdos divulgadores e reformadores do tecido social. Já o adesismo é a mediocridade disfarçada num jornalismo autista, que privilegia o corpo político burocrático, em detrimento da opinião pública, num círculo altamente pernicioso.

(*) Jornalista em São Carlos, SP