Thursday, 29 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

Preconceito contra a lingüística e os lingüistas

IDIOTAS & OCIOSOS

Marcos Bagno (*)

O ensino de língua na escola é a única disciplina em que existe uma disputa entre duas perspectivas distintas, dois modos diferentes de encarar o fenômeno da linguagem: a doutrina gramatical tradicional, surgida no mundo helenístico no século III a. C., e a lingüística moderna, que se firmou como ciência autônoma no final do século 19 e início do 20. Qualquer pessoa bem informada acharia no mínimo estranho se um professor de biologia ensinasse a seus alunos que as moscas nascem da carne podre, ou se um professor de ciências dissesse que a Terra é plana e o Sol gira em torno dela, ou ainda se um professor de química afirmasse que a mistura dos "quatro elementos" (ar, água, terra e fogo) pode resultar em ouro! São idéias mais do que ultrapassadas e que começaram a ser substituídas por novas concepções mais verossímeis a partir do período da história do conhecimento ocidental conhecido como o nascimento da ciência moderna (século 16 em diante). Ninguém se espanta, porém, quando um professor de língua ensina que os substantivos são "palavras que representam os seres em geral", ou que sujeito é "o ser do qual se diz alguma coisa", ou que verbo é "a palavra que exprime ação ou movimento". São afirmações tão imprecisas e incoerentes (para não dizer francamente falsas) quanto a de que as avestruzes enterram a cabeça na areia ou que apontar para as estrelas faz nascer verruga nos dedos! E no entanto elas continuam sendo estampadas nos manuais de gramática, nos livros didáticos, nas apostilas, e cobradas em testes, exames e provas de vestibular!

A doutrina gramatical tradicional, mais velha que a religião cristã, passou incólume pela grande revolução científica que abalou os fundamentos do conhecimento e do pensamento ocidental a partir do século 16. Basta examinar o que acontece na escola. É muito comum o ensino das outras disciplinas fazer uma abordagem crítica dos saberes do passado, mostrando de que maneira a evolução da sociedade, da ciência e da tecnologia levou o ser humano a abandonar velhas crenças e superstições. Em livros didáticos de biologia, física, química, história, geografia, etc., é freqüente encontrar afirmações do tipo: "Durante muito tempo se acreditou que […], mas os avanços da pesquisa e do conhecimento revelaram que […]". Quem não se lembra de algum professor contando a história de Copérnico, Galileu, Newton, Darwin, Pasteur e outros que revolucionaram o conhecimento humano? Isso só não acontece nas aulas de língua! Os termos e conceitos da Gramática Tradicional ? estabelecidos há mais de 2.300 anos! ? continuam a ser repassados praticamente intactos de uma geração de alunos para outra, como se desde aquela época remota não tivesse acontecido nada na ciência da linguagem. O ensino tradicional opera assim uma imobilização do tempo, um apagamento das condições sociais e históricas que permitiram o surgimento e a permanência da Gramática Tradicional.

A Gramática Tradicional permanece viva e forte porque, ao longo da história, ela deixou de ser apenas uma tentativa de explicação filosófica para os fenômenos da linguagem humana e foi transformada em mais um dos muitos elementos de dominação de uma parcela da sociedade sobre as demais. Assim como, no curso do tempo, tem se falado da Família, da Pátria, da Lei, da Fé etc. como entidades sacrossantas, como valores perenes e imutáveis, também a "Língua" foi elevada a essa categoria abstrata, devendo, portanto, ser "preservada" em sua "pureza", "defendida" dos ataques dos "barbarismos", "conservada" como um "patrimônio" que não pode sofrer "ruína" e "corrupção". Nessa concepção nada científica, língua não é toda e qualquer manifestação oral e/ou escrita de qualquer ser humano, de qualquer falante nativo do idioma: "a Língua", com artigo definido e inicial maiúscula, é somente aquele ideal de pureza e virtude, falado e escrito, é claro, pelos "puros" e "virtuosos" que estão no topo da pirâmide social e que, por isso, merecem exercer seu domínio sobre as demais camadas da população. A língua deixou de ser fato concreto para se transformar em valor abstrato.

Querer cobrar, hoje em dia, a observância dos mesmos padrões lingüísticos do passado é querer preservar, ao mesmo tempo, idéias, mentalidades e estruturas sociais do passado. A Gramática Tradicional, funcionando como uma ideologia lingüística, foi e ainda é, como toda ideologia, o lugar das certezas, uma doutrina sólida e compacta, com uma única resposta correta para todas as dúvidas. Por isso, o que não está abonado na gramática normativa é "erro" ou simplesmente "não é português", e se alguma palavra não se encontra no dicionário é porque simplesmente ela "não existe"! A lingüística moderna, ao encarar a língua como um objeto passível de ser analisado e interpretado segundo métodos e critérios científicos, devolveu a língua ao seu lugar de fato social, abalando as noções antigas que apresentavam a língua como um valor ideológico. Assim, a lingüística, como toda ciência, é o lugar das surpresas, das descobertas, do novo, da substituição de paradigmas, da reformulação crítica das teorias.

Ora, o novo assusta, o novo subverte as certezas, compromete as estruturas de poder e dominação há muito vigentes. Não é por acaso que, mesmo entre profissionais que deveriam ter a lingüística como seu corpo teórico e prático de referência, a doutrina gramatical tradicional ainda encontre um apoio e uma defesa quase irracionais. É o que se vê, hoje em dia, na imprensa e na mídia brasileira, com essa enxurrada de programas de televisão e de rádio, colunas de jornal e revista que tentam preservar as noções mais conservadoras do "certo" e do "errado", desprezando o saber acumulado por mais de um século de ciência lingüística moderna, que tem no Brasil centros de pesquisa de excelência reconhecida internacionalmente. A matéria de capa da revista Veja de 7/11/2001 ("Falar e escrever bem") e a estréia de Pasquale Cipro Neto no programa Fantástico da Rede Globo são exemplos perfeitos do obscurantismo anticientífico que envolve, nos meios de comunicação, tudo o que diz respeito à língua e ao ensino da língua. A participação de Pasquale no Fantástico faz regredir em pelo menos 25 anos os grandes avanços já obtidos pela Lingüística na renovação do ensino de língua na escola brasileira.

Sustentar a doutrina gramatical sem submetê-la a uma crítica serena e bem-fundada é, a meu ver, uma atitude que só pode ter duas explicações: a ignorância científica (a pessoa nunca ouviu falar de lingüística) ou a desonestidade intelectual (tendo entrado em contato com a ciência lingüística, finge que não a conhece) ? pior ainda é quando essa atitude se sustenta num indisfarçado e indisfarçável preconceito social. Não podemos aceitar nenhuma dessas explicações para justificar o trabalho daqueles que se proclamam "especialistas" em questões de linguagem. Que um leigo continue a repetir os mitos preconceituosos e as idéias infundadas que circulam na sociedade sobre língua e linguagem é algo que podemos compreender e explicar com base numa análise sociológica e histórica. Mas que assim proceda um autoproclamado especialista que, ainda por cima, se atribui o papel de julgar e condenar o comportamento lingüístico de seus semelhantes… é algo que não podemos aceitar e que devemos, sim, denunciar e combater.

"Português herético"

Pelas mesmas razões que levaram à transformação da Gramática Tradicional num instrumento de dominação e exclusão social é que a atividade dos lingüistas brasileiros vem sofrendo ataques grosseiros por parte de auto-intitulados "filósofos" que representam, na verdade, a reação mais conservadora (e muitas vezes com acentos claramente fascistas) contra qualquer tentativa de democratização do saber e da sociedade. É a mesma ira que leva os fundamentalistas (pseudo)cristãos a querer impedir o ensino da teoria evolucionista de Darwin em escolas norte-americanas.

É fácil mostrar de que modo essa oposição à ciência lingüística está viva e ativa no Brasil nos dias de hoje. Para começar, vamos invocar novamente o espectro daquele que se tornou uma espécie de arquétipo folclórico do gramático autoritário, conservador e intolerante: Napoleão Mendes de Almeida. Tudo o que ele escreveu constitui um material suculento e abundante para diversos tipos de investigação sobre idéias não-científicas: como já vimos na segunda parte deste livro, dos textos de Napoleão gotejam preconceitos sociais, raciais, lingüísticos entre outros; ao mesmo tempo, pululam neles as afirmações mais estapafúrdias possíveis sobre língua, gramática e ensino. Vamos repetir aqui o que ele escreveu no Dicionário de Questões Vernáculas, no verbete "lingüística":


"Para fixar inúteis, pretensiosas e ridículas bizantinices, perde o estudante o tempo que deveria dedicar ao conhecimento efetivo da língua. […] Que adorno cultural representa um diploma de lingüística a quem escreve, ou deixa meia dúzia de vezes passar num mesmo artigo de jornal, os mais tolos erros de gramática?[…] Enganam-se os pais, enganam-se os filhos quando pensam estar a escola, a faculdade ensinando gramática, ensinando a língua da terra porque no programa consta ?lingüística?. O objeto da lingüística é a língua no sentido da fala, de dom de expressar o homem por palavras o pensamento; é um estudo sem utilidade específica para este ou aquele idioma. […] É a lingüística um dos estorvos do aprendizado da língua portuguesa em escolas brasileiras."


Como essa citação dispensa comentários, quero apenas chamar a atenção para o seguinte fato: Napoleão Mendes de Almeida morreu em 1998 (aos 87 anos). Se tivesse escrito esse verbete até 1930, seria mais fácil entender sua postura anticientífica, analisando-a dentro do contexto das idéias e das concepções de língua e linguagem que vigoravam naquela época, em que a ciência lingüística ainda não tinha se instalado definitivamente nos grandes centros de ensino e de pesquisa. Mas, em 1998, muita água já tinha passado debaixo da ponte científica, os estudos da linguagem já tinham enfrentado diversas revoluções epistemológicas, amplamente divulgadas nos meios acadêmicos e até nas escolas fundamental e média. Não há nada que possa justificar esse conceito tão mesquinho e tacanho, essa idéia tola de que a lingüística só estuda os sons da fala…

Faço referências a Napoleão Mendes de Almeida porque sua morte mereceu um artigo assinado por Pasquale Cipro Neto na Folha de S. Paulo, jornal onde Pasquale é "consultor de português" (?). Nesse artigo, depois de falar do estilo rebuscado e barroco de Napoleão, Pasquale escreveu o seguinte (27/4/1998):


"Talvez por isso, os lingüistas autoproclamados de vanguarda o têm como conservador e consideram inútil o estudo de sua obra. Meticuloso, Napoleão era essencialmente gramático e como tal deve ser encarado. Muita gente o admira e respeita, sobretudo por seu curso de português e latim por correspondência." E conclui o artigo com estas palavras: "Uma coisa, porém, é incontestável: quem quiser estudar o português ortodoxo ? para prestar concurso público, advogar, exercer a magistratura ou carreira diplomática ? certamente precisará consultar a obra de Napoleão".


É muito interessante aqui o uso da expressão "português ortodoxo". Como se sabe, a noção de ortodoxia foi inventada ? pouco depois da instituição do cristianismo como religião oficial do império romano ? para definir os dogmas oficiais da Igreja, as únicas maneiras certas e admissíveis de acreditar em Deus, em Cristo, na Virgem Maria, na Santíssima Trindade etc. Quem se desviasse desses dogmas era acusado de heresia e condenado às mais diversas punições, como o exílio, a prisão, a tortura e a morte na fogueira. O conceito de ortodoxia se relaciona com uma série de outras noções do mesmo campo semântico: dogma, intolerância, inflexibilidade, pecado, penitência, castigo, excomunhão e outras aparentadas. Ao "erro" do herético corresponde a "infalibilidade" do ortodoxo. Se é possível falar em "português ortodoxo" é porque certamente também deve existir, na mentalidade de seus defensores e em oposição a ele, um "português herético", um "português pecador", que merece castigo e excomunhão… E nós sabemos que é precisamente essa mentalidade de perseguição, acusação e condenação que está por trás, até hoje, da ação dos defensores intransigentes dessa nebulosa "ortodoxia" gramatical.

Nome aos bois

Mas o que será, afinal, o "português ortodoxo" de Pasquale Cipro Neto? Não é muito difícil descobrir, basta ler com atenção as coisas que ele escreve. Analisando, por exemplo, a fala do político Francisco Rossi, candidato ao governo de São Paulo em 1998, Pasquale escreveu, na mesma Folha de S.Paulo (21/8/1998):


"Referindo-se a Gilson Menezes, Rossi disse que o prefeito de Diadema ?foi um dos que levantou bandeira?. Alguns lingüistas perdem seu precioso tempo em devaneios com que tentam explicar por que o falante brasileiro prefere o singular nesses casos. Dizem que essa opção ocorre porque o que se quer é colocar em evidência o elemento de que se fala. Balela. Por que não se aceita que se diga ?Ela é uma das moças bonita da sala?, ou ?Ele é um dos deputados inscrito para falar?? Porque não se quer dizer que ela é a única moça bonita, nem que o deputado é o único inscrito. Das moças bonitas, ela é uma. Dos deputados inscritos para falar, ele é um. Dos que levantaram bandeira, Gilson é um. Então Gilson foi um dos que levantaram bandeira."


Temos aqui uma das muitas ocasiões em que Pasquale, sistematicamente, só menciona os lingüistas para lançar sobre eles as mais diversas acusações. Nesse texto, temos a associação de lingüistas com devaneios e balela. Mas é sempre assim. Quem consultar, por exemplo, o jornal Folha de S. Paulo a partir de 1994, vai ver que nas colunas assinadas por Pasquale, a palavra lingüista vem sempre acompanhada de alguma nota depreciativa. Também na revista Cult, onde escreve regularmente, Pasquale já chamou os lingüistas de "deslumbrados".

Sobre o fato gramatical que ele analisa, detectando "erro comum" na fala de Francisco Rossi, é muito instrutivo ler o que o filólogo e gramático Evanildo Bechara afirmou numa entrevista ao jornal UERJ em questão (no 72, fevereiro/abril de 2001). Para justificar a suposta necessidade de elaboração de uma gramática normativa com a chancela da Academia Brasileira de Letras, Bechara declarou:


"Vejamos um exemplo: a expressão ?um dos que?. A língua permite que você diga: ?Carlos é um dos alunos que trabalha?; ou ?um dos alunos que trabalham?. Há professores que consideram mais lógica a concordância do verbo no plural. Outros acham que a concordância deve ser no singular. Mas a língua admite as duas possibilidades. O que não se pode fazer é optar por uma forma e considerar a outra errada, como muitas vezes fazem as bancas examinadoras."


Evanildo Bechara é, sem a menor dúvida, o mais importante gramático brasileiro vivo. Apesar de sua inegável competência como estudioso da língua, suas posturas políticas e pedagógicas não têm nada de revolucionárias, e o simples fato de pertencer à Academia Brasileira de Letras é exemplo de sua filiação a um ideário conservador e elitista. Ora, Pasquale Cipro Neto consegue ser mais conservador e elitista ainda do que Bechara. Para o gramático profissional, "a língua admite as duas possibilidades". Para o colunista da Folha, a admissão dessas possibilidades representa "devaneios" e "balela". Agora fica mais fácil entender o que Pasquale chama de "português ortodoxo": é um conceito de língua certa que é mais certa ainda do que a língua dos gramáticos profissionais, da própria Academia Brasileira de Letras.

Em outra coluna (28/5/1998) ele fala de "lingüistas defensores do vale-tudo", numa absoluta distorção do verdadeiro papel do lingüista como investigador de todos os fenômenos da língua, e não só como caçador de "erros" e juiz do uso.

Vejamos um último exemplo dessa concepção obscurantista que Pasquale Cipro Neto divulga da lingüística e dos lingüistas, e que em nada difere da opinião de Napoleão Mendes de Almeida. A única diferença entre os dois é que Napoleão nunca escondeu suas posições retrógradas, tendo-as assumido com toda franqueza e nitidez ao longo de sua vida, ao passo que Cipro Neto tenta dar verniz "moderno" à sua atividade, posando de progressista. O abismo entre seu discurso e sua prática, no entanto, é amplo, largo e fundo. Numa coluna publicada em 20/11/1997, comentando a fala de representantes do governo numa entrevista na televisão, Pasquale escreveu:


"Quem assistiu à entrevista coletiva concedida pela equipe econômica no último dia 10 deve ter tido congestão de ?de que?. Um dos membros da equipe, cujo nome é melhor não citar, abusou do direito de usar a bendita expressão: ?O governo considera de que?; ?Não nos parece de que esse caso?; ?Penso de que não será? etc. Santo Deus! De onde o homem, graduadíssimo, professor, tirou tanto de? Os verbos considerar, pensar e parecer pedem a preposição de? É óbvio que não. Alguém pensa algo, alguém considera algo, algo parece a alguém. Onde está o de? Perguntem ao homem. Nada de ?de que?: ?Não nos parece que?, ?Penso que?, ?O governo considera que?." E agora, ao ataque: "Alguns lingüistas (alguns), idiotas, dirão que a língua falada não merece reparo, que a fala é sempre boa etc. Esses ociosos não conseguem perceber que os homens não estavam na mesa de um boteco, batendo papo. Estavam falando para o país, sobre um assunto técnico, usando linguagem teoricamente culta.Quem assiste a esse tipo de transmissão normalmente acredita nessas pessoas, tem-nas como modelo. Adolescentes que vão fazer vestibular ouvem o cidadão dizendo ?de que, de que, de que? e acham que isso é o máximo. A Fuvest faz uma questão a respeito, como já fez há dois ou três anos. E muitos, ingenuamente, erram. E alguns idiotas, ociosos, dizem que a fala é sempre boa, que isso e aquilo".


Esse tipo de afirmação é tão chocante, é reveladora de um tamanho desconhecimento, de uma ignorância tão manifesta, que leva mesmo a pensar que Pasquale não acredita no que escreve. Que deve haver alguma razão secreta para ele publicar coisas que depõem tão abertamente contra sua própria inteligência! Afinal, o fenômeno do dequeísmo já tem merecido, nos últimos quinze anos pelo menos, a atenção de diversos pesquisadores, já foi tema de dissertações e de teses, de artigos publicados em livros e revistas científicas… Será que custava tanto assim ele procurar ler, informar-se sobre o fenômeno? E quem são afinal esses "lingüistas idiotas e ociosos" que dizem que a língua falada não merece reparo, que a fala é sempre boa etc.? Pasquale nunca dá nome aos bois. Por isso, apesar de sempre escrever "alguns lingüistas", ele nunca diz quem, onde e quando. Assim, fica fácil deduzir que esse "alguns" é um mero disfarce para seu preconceito contra todos os lingüistas.

Democratização do saber

Segundo a já mencionada reportagem de Veja (no 1725), as críticas que Pasquale Cipro Neto recebe de uma "certa corrente relativista", formada por representantes de um "raciocínio torto de um esquerdismo de meia-pataca" deixam "irritado" o garoto-propaganda das lanchonetes MacDonald?s. Ora, o que parece realmente irritar Pasquale é o fato de que, apesar de obter tanto sucesso entre os leigos, nada do que ele diz ou escreve é levado a sério nos centros de pesquisa científica sobre a linguagem, sediados nas mais importantes universidades do Brasil. Muito pelo contrário, se o nome de Pasquale é mencionado nas nossas universidades, é sempre como exemplo de uma atitude anticientífica dogmática e até obscurantista no que diz respeito à língua e seu ensino. Se Pasquale se irrita com os cientistas da linguagem, é porque sabe que não tem como responder às críticas que recebe por parte dos pesquisadores, dos teóricos e dos educadores empenhados num conhecimento maior e melhor da realidade lingüística do nosso país. Digo isso com base na experiência de já ter participado de três debates junto com Pasquale e ter conhecido sua estratégia de nunca responder com argumentos consistentes às críticas a ele dirigidas, preferindo sempre retrucar com arrogância, prepotência, grosserias e ataques pessoais (falando da existência de lingüistas "bichos-grilos") ou fazendo-se de vítima de alguma perseguição (num desses encontros ele declarou sentir-se como um "boi de piranha").

A razão para essa falta de argumentos consistentes é muita simples: Pasquale não tem formação científica para tratar dos assuntos de que trata. Suas opiniões se baseiam exclusivamente na arcaica doutrina gramatical normativo-prescritiva, cuja inconsistência teórica e cujos problemas epistemológicos graves vêm sendo demonstrados e criticados pela Lingüística moderna desde pelo menos o final do século 19. As concepções de Pasquale de "certo" e de "errado" estão em franca oposição, não só com as teorias científicas mais atuais, mas até mesmo com a postura investigativa dos gramáticos profissionais de sólida formação filológica (coisa que ele definitivamente não tem), para não mencionar as diretrizes pedagógicas das instâncias superiores da Educação nacional.

Por que uma pessoa tão despreparada, que não passa (como reconhece a própria Veja) de um "fenômeno de mídia", se acha no direito de dar palpites infundados e preconceituosos sobre as questões que dizem respeito à língua? Por que os profissionais de outras áreas conseguem se fazer ouvir, mas os lingüistas permanecem não ouvidos? Será que os lingüistas, apesar de se dedicarem ao estudo da língua, não falam? Será que não se dão conta de seu papel social e político, ou, mesmo conscientes desse papel, há outras forças que não nos deixam falar? A quem interessa manter calados os estudiosos da linguagem? Por que o discurso gramatical tradicional, já tão amplamente criticado pelos cientistas da linguagem com base em teorias e métodos consistentes e coerentes, ainda tem tanto vigor e obtém tanta defesa? Que ameaça ao tipo de sociedade em que vivemos representa a democratização do saber lingüístico, a divulgação ampla das descobertas deste campo científico, a liberação da voz de tantos milhões de pessoas condenadas ao silêncio por "não saber português" ou por "falar tudo errado"? A quem interessa defender o "português ortodoxo" de uns pouquíssmos "melhores" contra a suposta "heresia gramatical" de muitos milhões de outros?

(*) Lingüista, doutor em Língua Portuguesa pela USP, autor de Preconceito lingüístico: o que é, como se faz (Loyola), Dramática da língua portuguesa: tradição gramatical, mídia & exclusão social (Loyola) e Português ou brasileiro? Um convite à pesquisa (Parábola), entre outros. URL:<www.marcosbagno.com.br>