Friday, 19 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Procura-se um manual de telejornalismo

FORMAÇÃO PROFISSIONAL

Antônio Brasil (*)

Costuma-se dizer que brasileiro não gosta de ler manuais. Quantas vezes compramos um carro ou equipamento novos e fazemos questão de ignorar aquele livrinho que insiste em acompanhar as nossas últimas maravilhas tecnológicas? Bom mesmo é apertar os botões, experimentar tudo e, se no final, a pobre máquina não explodir, acabamos aprendendo rapidinho. Parece que os manuais foram feitos para ser ignorados. Mas, convenhamos, é uma leitura "chata" e consome muitas horas com detalhes supérfluos. E nós, com toda essa explosão de criatividade e muito jogo de cintura, acabamos sempre dando mais um "jeitinho" e, mais uma vez, aprendemos fazendo. O velho argumento que valoriza a prática em detrimento da teoria.

Em jornalismo não é muito diferente. Há diversos manuais de redação publicados pelos grandes veículos. Do tradicional O Estado de S.Paulo à Folha de S.Paulo e mesmo de O Globo. Poucos lêem ou consultam, mas tem manual para todos os gostos. É só escolher. Até mesmo em radiojornalismo existe, há anos, o "velho" manual da Jovem Pan. É claro que você pode ter muitas críticas em relação a essas obras. Obviamente, elas procuram impor normas, estilos e acabam gerando controvérsias. Mas todas denotam um esforço grande por parte das empresas e de diversos jornalistas dedicados. Tenta-se estabelecer algum tipo de padrão num campo profissional que prima pela improvisação e pelo caos.

Você pode criticar os manuais mas é sempre bom saber que eles estão lá, até mesmo para decidir fazer tudo ao contrário das normas estabelecidas. Nada impede. Afinal, manual tem cara de Bíblia, mas não é Bíblia. Assim como um dicionário, você consulta e escolhe o que lhe é mais conveniente. Mas ignorá-lo pode ser perigoso para a sua saúde profissional.

E em telejornalismo, o mais importante meio de informação de nosso país? Quantos manuais de redação existem no mercado? Calma. Não perca tempo procurando. Já adianto a resposta: nenhum! Por incrível que pareça, nenhuma emissora de televisão brasileira, desde os seus primórdios nos anos 50, interessou-se em divulgar as suas próprias normas e padrões para a produção de telejornais. Apesar de um enorme mercado, nenhuma TV procurou lançar ou patrocinar sequer um trabalho semelhante aos manuais de redação tradicionais. Bem que a TV Globo, em 1985, publicou, em tiragem reduzidíssima, um pequeno livrinho branco para consumo interno, com pouquíssimas e preciosas páginas. Ele acabou se transformando numa verdadeira "relíquia", preservado com cuidado e "xerocado" inúmeras vezes por alguns poucos professores de telejornalismo das nossas universidades. Filho único de mãe solteira, nunca foi atualizado. Essa situação é representativa da carência de material didático adequado e atualizado para o ensino da disciplina de Telejornalismo em nosso país. Mas isso não parece ter jamais sensibilizado os interesses das televisões brasileiras e, principalmente dos responsáveis pelo jornalismo do "grande império".

Perguntas no ar

Manuais de redação, com todos os seus problemas, são instrumentos essenciais para um ensino eficiente de jornalismo. Aproximam as nossas instituições de ensino (que vivem sempre tão isoladas) da realidade do mercado profissional. Em televisão então, nem se fala! Além da falta dos manuais de redação, temos problemas ainda maiores como a ausência de políticas de parcerias, programas de bolsas de estudo para os alunos ou reciclagem profissional para professores. Mas o que mais incomoda é a falta de responsabilidade social das nossas emissoras de TV para com o futuro do seu próprio meio. Ao ignorar a formação dos futuros telejornalistas, elas perpetuam valores desgastados e não experimentam novas saídas para uma crise evidente de audiência, conteúdo e linguagem.

Alguém deveria lembrar aos responsáveis pelos nossos telejornais que "crise", nos ideogramas chineses, é representado pela combinação de duas figuras: uma representa o "perigo" e a outra a "oportunidade". É exatamente essa simbiose entre o risco oferecido pelo "perigo" e as possibilidades de uma "oportunidade" que acaba contribuindo para a melhoria de qualquer atividade profissional. Ousadia gera criatividade. A universidade deveria ser prestigiada como centro de pesquisa, experimentação e ousadia. Não como repetidora de modelos. Muitas empresas já perceberam isso, menos o jornalismo de televisão. Demanda-se sempre o melhor da mão-de-obra formada pelas pobres universidades. Selecionam-se, Deus sabe como, os melhores das melhores mas não se faz nada para ajudá-las a formar esses estudantes.

Mas, e os manuais? Por que será que não há disponível um manual de redação para telejornalismo? Por que uma emissora como a Globo nunca se interessou em produzir para o grande público algo que já é oferecido por tantos outros veículos importantes da nossa imprensa? Será que telejornalismo nasceu para ser secreto e tem vergonha de sua prática? As perguntas estão no ar para quem quiser tentar responder.

"Irrealidade" em pauta

Como seria um bom manual de redação de telejornalismo. Antes de tudo, deveria respeitar as características audiovisuais do meio. Manual de telejornalismo não deve se restringir a ditar as palavras e as fórmulas sintáticas apropriadas para produzir um bom texto de TV. Tudo isso é importante, sem dúvida, mas televisão também é imagem. Ainda bem. Ensinar a "casar texto com imagem" em livro é muito difícil, quase impossível. Manual de telejornalismo que esteja limitado ao meio impresso está fadado a ter uma utilização restrita às peculiaridades do texto e ao relato de "curiosidades" da prática profissional. Descrever as funções dos jornalistas nas redações de TV e dar exemplos de bons textos é muito pouco para um manual de telejornalismo. Questões importantes referentes à captação, edição e geração de imagens são sempre descritas somente por palavras e algumas poucas ilustrações, mas jamais são demonstradas na forma própria do meio, ou seja, com recursos audiovisuais.

É preciso acompanhar o nosso próprio tempo e perceber a existência das novas tecnologias. Não se pode ignorar as potencialidades de ferramentas multimídia para a produção de manuais de telejornalismo. Gostem ou não, o meio possui um diferencial que o distingue dos demais: a imagem. E esse referencial precisa ser resgatado e não simplesmente criticado. Além disso, o telejornalismo é um campo dinâmico que se reinventa diariamente. O meio impresso, os livros, por outro lado têm grande dificuldade de acompanhar esse ritmo frenético de atualização com novos formatos e novas técnicas de produção surgindo a cada instante.

A informática tem muito a contribuir nessa área. Seus profissionais já utilizam de forma extensa, eficiente e econômica todos os recursos audiovisuais para o ensino e divulgação de novos produtos. Enquanto isso, insistimos em repetir o passado e ignorar o presente. Os únicos manuais de telejornalismo que existem no mercado não são manuais de redação. Nunca foram produzidos com o apoio de empresas do meio televisivo. Muito pelo contrário, são quase sempre ignorados. Trabalhos importantes como o Manual de Telejornalismo, do professor Bittencourt, editado em 1993 pela UFRJ, ou o Texto na TV, da professora Vera Íris, e o Aprender Telejornalismo, do professor Sebastião Carlos Squirra, para citar somente alguns poucos exemplos, têm em comum serem todos produto de um enorme esforço pessoal por parte de seus autores. Foram criados por professores universitários com grande experiência profissional na área e que buscam solitariamente resolver um problema que deveria ser responsabilidade das nossas emissoras de TV. Seria ótimo pensar que as grandes redes ? ou as televisões públicas, educativas e principalmente as TVs universitárias ? é que deveriam se preocupar em editar os manuais de redação em telejornalismo.

Mas, infelizmente, nada disso acontece. Todas televisões parecem mais preocupadas em aumentar o faturamento ou a autopromoção. Não possuem políticas coerentes de renovação e apoio ao ensino. Enquanto isso, o jornalismo de televisão segue em crise de criatividade e audiência, envelhecendo todos os dias, afastando-se cada vez mais do público, principalmente dos jovens. O telejornalismo parece cada vez mais interessados nas "irrealidades" e absurdos dos novos programas como os reality shows. Para muitos, assim como ler os manuais, assistir aos telejornais é muito chato, desnecessário, coisa de velho. Não é à toa. Há muitos anos, o telejornalismo brasileiro só muda o cenário e o apresentador.

(*) Jornalista, coordenador do laboratório de TV, professor de telejornalismo da UERJ e doutorando em Ciência da Informação do convênio IBICT/ UFRJ