Saturday, 22 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Realidades fabricadas

BIG BROTHER & GUERRA

Afonso Caramano (*)

Adestrados que fomos pelos sucessivos big brothers, acostumamo-nos com a realidade ?fabricada? desse gênero televisivo ? aceitando, pela exposição à exaustão, a verdade comezinha da rotina dos participantes/pseudo-atores. E não adianta criticar tais programas. Enquanto a lógica do Ibope lhes der respaldo, as redes de TV vão insistir nas reedições.

Com a chegada de uma nova guerra ? um novo espetáculo bélico, estrelado pelos Estados Unidos e co-participantes contra o eixo do mal ? a mídia, em especial a televisiva, tem a oportunidade de dirigir o seu foco para as imagens produzidas pelo conflito. Empenha-se em colhê-las no campo de batalha ou, na impossibilidade de mostrá-las, procura supri-las com gráficos ou recursos audiovisuais.

Sem entrar no mérito de questões delicadas como a autocensura ?patriótica? das redes de TV americanas ou mesmo da censura prévia imposta pelos militares aos jornalistas que acompanham os avanços das forças da coalizão ? sobressaem o contraste e a batalha de informações travada no campo da mídia. Do lado iraquiano ? os jornalistas também sofrem sanções e os noticiários passam pelo crivo do poder.

As imagens da guerra, embora o discurso oficial tente nos convencer de que a alta tecnologia possa propiciar o menor número de baixas entre os civis, denunciam que não estamos assistindo às imagens amenas de um big brother bélico. Seria ingenuidade demais acreditar numa guerra sem vítimas ou vítimas somente no lado inimigo ? como num filme de bandido e mocinho, o bem vencendo o mal. Não se pode reiniciar o jogo depois de uma partida desastrosa ? game over aqui significa morte real e crua.

Fim sem prêmio

A opinião pública, pró e contra guerra, é abastecida por um arsenal de imagens que nos dão a impressão de uma cobertura informativa abrangente, mas que na realidade é extremamente manipulatória, parcial e apelativa. Satura-se o telespectador de informações, e evita-se conjeturar sobre os desdobramentos reais dessa guerra para o cenário político e do direito internacional ? com todas as suas implicações.

Deixamo-nos capturar pela sedução da imagem e pelo discurso arrivista e fácil do jogo do poder. Entretidos nesse beligerante big brother, ou assumimos uma posição crítica diante de toda informação ou consentimos com a barbárie e desrespeito aos direitos humanos ? contaminando-nos pela indiferença da exposição permanente às crueldades da guerra. Vale dizer que essas reflexões servem também para o regime iraquiano ? ou qualquer regime de repressão e autoritarismo.

Seria hipocrisia acusar apenas um dos contendores ? as razões do conflito são complexas, mas não justificam uma ação armada. Contudo, apontam para o caminho que está se abrindo ? a apregoada nova ordem mundial ? que, no entanto, não parece ser a do consenso, do entendimento diplomático, do equilíbrio de forças, econômico etc. Desenha-se uma perspectiva sombria para esse século. Talvez esse seja o legado que deixaremos para as novas gerações: o da educação pela "mídia" do grande irmão e pela guerra ? sem nenhum prêmio no fim.

(*) Funcionário público