Tuesday, 18 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Recorte sangrento da realidade

BANDIDOS & HERÓIS

Marta Maia (*)

A manhã do dia 20 foi pesada, foi difícil dar o costumeiro bom-dia!. A guerra havia começado na noite anterior. A expectativa virara realidade. A realidade virara manchete. Não sei bem o que mais me abalou, se a guerra ou as manchetes.

Doeu-me mais algo que venho sentindo há algum tempo: um certo horror a como as tragédias e, em especial a violência, vêm sendo tratadas na mídia. A dor humana há muito virou índice no ibope, virou tiragem alta dos jornais. Claro, num sistema capitalista tudo pode virar lucro. Pode, mas será que deve? A forma como as manchetes tratam a guerra é muito parecida com a que se comemora a vitória de um grande time em final de campeonato. Que campeonato é esse em que os gols são vidas destroçadas? Que triste esse campeão que ergue a taça de sangue dessas vidas.

Mas não é só a guerra, que já não é pouco. A nossa triste violência urbana cotidiana é tratada com requintes de filme premiado. O cidadão comum é entupido de imagens do "herói" do dia, o traficante mais ousado e violento da vez. O nosso inconsciente vai sendo forrado dessas imagens e a nossa consciência vai sendo forjada nessa violência. Há muito já se disse que o pior da violência é que nos acostumamos a ela. A mídia tem dado imensa contribuição a isso, em especial nas mentes de crianças e adolescentes. Na noite do dia 19/3 meu filho de 15 anos disse: "Mãe, daqui a 15 minutos vai começar a guerra." Fiquei atordoada com essa fala tão sem propósito para mim. Ele havia assistido aos telejornais e transmitia a mim, que chegava do trabalho, a manchete do dia, a fresca informação que traduzia das noticias do dia.

O direito de tentar

Dito isto, muitos falarão: "Desliga a TV, assim seu filho é poupado disso." Mas não me importa poupar meu filho, essa é uma visão muito egoísta. Não é o MEU filho. São os NOSSOS filhos, somos nós mesmos que adoecemos nessa rotina de quem matou quem, quantos foram mortos todos os dias. Alguns dirão que quero um mundo de mentiras, ignorar a realidade. Não é verdade. A realidade não é isso que vemos, ou não é só isso. O que é mostrado nos jornais é um recorte de realidade, um recorte sangrento, um recorte que aterroriza e vende.

Lembro muito bem de um certo Leonardo Pareja, que se tornou um anti-herói altamente enfocado pela mídia. Numa sociedade em que a imagem vale mais do que tudo, esse Leonardo povoou a admiração de todos os adolescentes naquele momento, sua ousadia, sua rebeldia. Depois dele vieram outros e piores. Nossa infância e juventude têm heróis sem qualquer índole. Que sociedade esperamos formar? Sou contra a censura, mas sou ainda mais contra a ditadura de um mercado que nos faz engolir cenas de sangue em nossa sala diariamente. Sou a favor de um pouco de ética que depure o que é notícia e informação do que é falta de escrúpulo e ganância.

A mídia não pode ter dois pesos. Ela grita por liberdade de expressão, com razão, por ser essencial a formação das consciências e da cidadania, então tem que pensar mais seriamente nesse mesmo papel quando banaliza a violência com sua excessiva e "lucrativa" exposição. Quando expõe aos traficantes, em detalhes, os mais modernos equipamentos utilizados pelos "semi-deuses" estadunidenses nessa guerra. Quando ensina a todos que tudo o nos resta é nos armarmos ou desenvolvermos a síndrome do pânico.

Não quero responsabilizar um único setor por mazelas complexas
por demais para terem um só responsável. Quero pedir
mais ética. Assim como tenho o direito de saber que houve
fuga em Bangu 1, tenho o direito de não ver esses bandidos
virando heróis de crianças por ficarem mais tempo
no ar do que os heróis da ficção. Temos, todos
nós, o direito de tentar não deixar esse mundo, que
não é só nosso, ficar ainda pior de se viver.

* Professora do Ensino Fundamental/
EJA e Pedagoga.