Monday, 17 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Renata Lo Prete

A VOZ DOS OUVIDORES


FOLHA DE S.PAULO

"Piloto automático", Ombudsman, copyright Folha de S.Paulo, 11/3/2001

"?Seis pessoas morreram assassinadas dentro de uma loja de assistência técnica para celulares em São Paulo, a maior chacina do ano no Estado.?

Quantas vezes você encontrou na Folha um texto com abertura semelhante a essa da edição de quinta-feira? Se é leitor assíduo, muitas, porque todas as reportagens do jornal sobre o assunto se parecem.

O que não significa que as chacinas sejam todas iguais. Basta conferir o início da matéria no ?Estado? do mesmo dia.

?Ao contrário das chacinas normalmente registradas em São Paulo, desta vez o crime não aconteceu em favela ou bar de área pobre, durante a madrugada. Entre 17h e 18h de ontem, seis pessoas foram assassinadas numa loja de celulares na rua Clélia, 2.138, na Lapa.?
?Apesar de lugar e horário ?incomuns?, a lei do silêncio é a mesma da periferia. Com medo, moradores da região dizem que não sabem de nada.?

A reportagem da Folha padecia ainda de outros males. Confusa, caía em conflito quanto a detalhes da ação. Em um trecho, vizinhos tinham ouvido disparos. Adiante, ninguém tinha ouvido nada, possivelmente devido a um silenciador.

Como material de apoio, o jornal descongelou o quadro que tem pronto para essas ocasiões: ?Chacinas no município de São Paulo?, com evolução do números de casos, supostas motivações e índice de crimes esclarecidos.

Enquanto isso, o concorrente fez um pequeno mapa para indicar a localização da loja na rua Clélia e desta no conhecido e movimentado bairro da Lapa.

Mas nada como a comparação das aberturas para revelar que uma história pode ganhar chamada de capa, aparecer em alto de página e ainda assim ser destruída pelo jornal. Faltou à Folha sensibilidade para perceber que a notícia não cabia na fórmula tradicionalmente usada para relatar chacinas, desgraça associada às pessoas pobres da periferia distante, não à vizinhança do leitor.

São notas secas, de narrativa truncada e quase sem personagens. Seu fim não é contar o que aconteceu, mas apenas fechar o saldo de mortos do ano e compará-lo ao do período anterior.

Com os assassinatos da Lapa, o jornal mostrou-se desligado pela segunda vez em poucos dias.

A primeira ocorreu na edição do sábado anterior, 3 de março. Na véspera, a cidade fora atingida por um temporal cujas consequências fugiram ao quadro de transtornos com que o paulistano se habituou a conviver.

Quem viu pela televisão não terá se esquecido das imagens da mulher idosa resgatada de um carro à deriva na avenida Pompéia inundada.

Instantes depois de se julgar a salvo em uma calçada, foi colhida pela enxurrada. Os bombeiros encontraram o corpo a 150 metros dali.

Na reportagem da Folha, os eventos foram reduzidos ao coquetel habitual de número de pontos de alagamento na cidade, extensão dos congestionamentos e volume de precipitação. Mais o cálculo reconfortante de que foram 31 as vítimas fatais da chuva no Estado desde dezembro, quantidade inferior às 43 do mesmo período em 1999-2000.
Da mulher levada pelas águas não havia nem o nome.

?Duas mulheres morrem em temporal em SP?, informou o título da capa (a outra caiu em um córrego na Penha). No concorrente: ?Idosa afoga-se em enxurrada na avenida Pompéia?. Nem sempre a conta dos mortos é o melhor resumo dos fatos.

?Não sei como explicar a avenida Pompéia para quem não conhece São Paulo?, escreveu Clóvis Rossi em sua coluna de domingo passado.

?Talvez pudesse descrevê-la apenas como uma via normal, que não está em área de risco, que não tem córrego nas imediações, habitada pela classe média ou por prédios comerciais a ela destinados.?

Faltou à reportagem da Folha essa capacidade de se espantar. Sem ela, chuva é sempre chuva, e toda chacina é a mesma. A notícia chega morta ao leitor.

Já tratei neste espaço do noticiário sobre a doença de Mário Covas. Não vejo necessidade de voltar ao assunto de maneira alentada, mas cabe registrar que também esse caso não terminou bem para a Folha.

A última entrevista do governador, a primeira do presidente depois da morte de Covas, o primeiro artigo de Geraldo Alckmin como titular do cargo: tudo estava na concorrência.
Informação médica, descrições de vel&oacutoacute;rio e enterro, repercussão de primeira hora: em nada o jornal se destacou positivamente.

Nos episódios da chacina e da chuva, falhou-se diante do inesperado. Neste último, nem se pode alegar surpresa. O conjunto é mais do que suficiente para acender um sinal de alerta."

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"Agora está escrito", ombudsman, copyright Folha de S.Paulo, 11/3/2001

"?A Folha não publica texto plagiado, seja de outros autores, seja republicação de texto do mesmo autor (autoplágio). Quando reproduzir texto de outro autor ou de sua própria autoria já publicado, o jornalista deve citar claramente o autor original e, se possível, local e data em que o texto foi publicado, além de deixar evidente para o leitor o trecho que está sendo reproduzido.?

É o que afirma o novo ?Manual da Redação?, que em breve estará em vigor. Em dois sentidos, o verbete é mais rigoroso que o da edição atual.

Em primeiro lugar, condena de forma explícita o chamado autoplágio, enganação que consiste em apresentar como novidade um artigo já publicado, na esperança de que ninguém se lembre.

Em segundo, exige mais clareza no crédito ao trabalho dos outros. Não basta citar a fonte. É preciso ?deixar evidente? o que lhe pertence no texto.

As recomendações vêm na esteira de episódios em que o leitor da Folha foi iludido de uma dessas duas maneiras.

De agora em diante, caso isso volte a ocorrer, ele saberá que se desrespeitou não apenas um princípio básico de honestidade intelectual, mas também regras internas que o jornal cuidou de registrar por escrito."

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"Ponto final", ombudsman, copyright Folha de S.Paulo, 11/3/2001

"Termina hoje meu mandato de ombudsman. De acordo com o estatuto que rege a função na Folha, está na hora de o leitor ter novo representante.

Foram três anos que me permitiram ver a distância entre o que o jornal pretende ser e o que de fato é. Um veículo que funcione ?como âncora de referência geral em meio à balbúrdia informativa?, diz o projeto editorial. Ambição comprometida, dia a dia, por muita distorção e inconsistência. Erros pontuais são só a face mais visível do problema.

Ao mesmo tempo, cresceu meu respeito pela disposição da Folha em submeter-se à crítica pública e institucionalizada. Para conviver com ela, um jornal tem de acreditar na obrigação de prestar contas.

Muito obrigada a todas as pessoas que me procuraram. Espero ter honrado a confiança com meu empenho para obter correções e esclarecimentos.

Agradeço também aos colegas que se dispuseram a discutir comigo questões ligadas ao jornalismo e ao exercício desta função. Devo a eles boas idéias.

Ao novo ombudsman, Bernardo Ajzenberg, desejo coragem e sucesso. E do leitor espero que continue a ofertar sua melhor contribuição ao jornal: vigilância permanente."

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