Wednesday, 29 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Ricardo Boechat

ASPAS

GRAMPOS ANTIGOS


"A notícia oculta", copyright Jornal do Brasil, 17/7/01

"Passei 31 dos 49 anos de minha vida, incluindo domingos, feriados e madrugadas, ligado a O Globo. Saí de lá há três semanas, demitido a sangue-frio, por um delito que O Globo, até agora, não conseguiu explicar nem aos muitos amigos que lá deixei. Não se pense, entretanto, que a casa que me criou foi injusta comigo. Eu mereci ser demitido. O que O Globo escondeu foi a verdadeira razão que o levou a punir-me. Seus reais motivos não foram os que fez crer ao transcrever na íntegra, dia 25 de junho, um grampo telefônico publicado na véspera pela Veja, numa reportagem em que a revista se esmerou em me apresentar ao país como um picareta a serviço de meganegociatas empresariais. Mas da Veja falarei depois. Em primeiro lugar, por respeito a O Globo e a mim mesmo, mas em especial aos leitores que compartilhamos, quero fazer o que meus antigos chefes não fizeram, expondo as falhas de conduta que culminaram com meu castigo.

No segundo semestre do ano passado, o empresário Nelson Tanure contou-me que estava comprando o Jornal do Brasil. Essa não era a primeira bomba que ele me antecipava, como boa fonte, embora bissexta, de minha coluna. Dessa vez, a notícia veio acompanhada de uma novidade pessoal: o seu convite para transferir-me para o JB. O desafio de fazer reviver o diário que marcou minha geração me seduziu.

A partir daí, envolvi-me crescentemente nas discussões com Tanure e com pessoas ligadas ao projeto de reerguimento do jornal. A cada consulta feita por Tanure, a cada conselho meu aceito por sua equipe, a cada troca de idéias sobre quais caminhos seguir, fui ultrapassando os limites dentro dos quais, como funcionário de O Globo, deveria permanecer. Não cruzei essas fronteiras por dinheiro. Não o fiz por dolo.

Cruzei a barreira da boa conduta profissional por um motivo tolo: vaidade. A vaidade de me supor em posição de ?prestígio? nos dois maiores jornais de minha cidade cegou a autocrítica com que sempre procurei orientar minha atividade jornalística. Cheguei ao extremo de orientar Nelson Tanure numa conversa que ele teria com João Roberto Marinho, um dos proprietários das Organizações Globo, como revelam trechos não divulgados do mesmo grampo. Com essa atitude, dei à direção de O Globo subsídios para duvidar de minha fidelidade ? e razões para agir como agiu.

Amigos estranharam meu comedimento ao comentar a conduta do meu empregador. Solidários, preocupados com o abatimento que me tomou naqueles dias, estimularam-me a reagir, atacando o jornal e a forma grosseira com que me excluiu de suas páginas. Não o fiz porque logo soube de suas reais razões. Infelizmente, o jornal optou por escondê-las não só de mim como da opinião pública. Foi uma escolha soberana, diante da qual manterei silêncio.

Mas essa escolha impôs a O Globo, que não poderia degolar seu colunista sem nada explicar, o papel de pregoeiro passivo daquilo que Veja tentou me atribuir. E se a revista, em seu fundamentalismo sob encomenda, apenas me agrediu, O Globo, onde entrei aprendiz, me envergonhou. Reconheço que devo-lhe desculpas ? e não ele a mim. Mas devoto-lhe o respeito que ele publicamente me negou. Ao jornal, teria sido melhor ser franco. Sua franqueza com certeza me seria hostil, mas não ofenderia a minha dignidade.

O ?escândalo? revelado por Veja naquela semana consumiu-lhe sete páginas. Na edição seguinte, nenhuma linha. Esse incomum desaparecimento de uma suposta grande reportagem é suficiente para expor o quanto era especiosa ? e manipulativa, e eivada de má-fé ? a versão que a revista teceu em torno da gravação de uma conversa minha com Paulo Marinho, meu amigo e informante de décadas, hoje assessor de Tanure.

Naquela conversa, Marinho pediu-me para publicar uma notícia em O Globo relacionada à briga entre Tanure e o Banco Opportunity, de Daniel Dantas, pelo controle acionário de empresas de telefonia. A informação era relevante e correta. O que Marinho me passou por fax, entretanto, parecia um manifesto estudantil, passional e interminável. Reescrevi as informações, avisei o jornal (estava de férias em Paris, de onde também contribuí para uma reportagem sobre a Receita Federal) e despachei a matéria para a redação. Em seguida, liguei para Marinho, li o texto da notícia, despedi-me e esqueci o assunto.

Esse episódio pode ter várias interpretações. A de Veja foi uma sentença condenatória, sumária e inapelável. A despeito de afagar-me como ?um dos mais respeitados jornalistas do país?, e de citar a ausência de qualquer ?menção a práticas irregulares de compensação? em meu contato com Paulo Marinho, a revista induziu seus leitores a acreditar exatamente o contrário. Induziu-os a crer que sou um jornalista venal e aético, que usou o jornal para beneficiar um grupo empresarial.

Quem me iniciou nos caminhos do colunismo foi Ibrahim Sued, de quem fui foca em minha distante juventude. Aprendi com ele que a matéria-prima do colunista são as notas em primeira mão. A coluna que assinei em O Globo consagrou-se entre as mais lidas do Brasil graças à capacidade de chegar à notícia antes das outras. Seu acervo de furos, alguns de enorme repercussão, foi construído a partir de relações que mantive com todos os tipos de informantes ? fossem eles bem-intencionados ou não, fossem eles figuras de reputação ilibada ou nem tanto. Muitos dos diálogos que possibilitaram momentos memoráveis a O Globo, garimpados por minhas orelhas, talvez ruborizassem os neotalibãs da mídia e alguns analistas da ética jornalística, mas tanto uns quanto outros ganham a vida longe da apuração de notícias. Pois informo a esses teóricos de mãos limpas: é dura a vida de um repórter. O colunista às vezes fala frases impróprias, lida com sujeira, publica notas que prejudicam negócios e pessoas. Mas ele procura sempre a verdade. Obtê-la, de preferência com exclusividade, é a sua recompensa.

Não vejo razão para delegar a terceiros, muito menos a teóricos da deontologia e a autoproclamados impolutos guardiões da ética, a responsabilidade de fixar os termos de minhas relações com as fontes que me abastecem. As regras que ditam essa ligação de confiança pertencem soberanamente ao repórter ? e ele deve explicações exclusivamente à sua consciência e a seus leitores.

A imaculada Veja, por sua vez, escondeu de seus leitores a gênese dos grampos, originados de assessores de Daniel Dantas. Escondeu até a visita do banqueiro à redação da revista, dias dias antes da publicação da reportagem em questão. Não tenho nada a esconder. Acredito que a verdade nos fará livres. [Ricardo Boechat, jornalista, passará a assinar a partir de amanhã (18/7/01) a coluna Informe JB]"

 

GRAMPOS ANTIGOS

"Juiz indefere apreensão de fitas da Folha", copyright Folha de S. Paulo, 12/07/01

"O juiz substituto Jair de Araújo Facundes, da 2? Vara Federal do Acre, indeferiu pedido da Procuradoria da República de busca e apreensão das fitas em que os ex-deputados federais João Maia e Ronivon Santiago (AC) declaram ter vendido, em 97, seus votos a favor da emenda da reeleição.

As fitas com as conversas estão em poder da Folha, que à época divulgou seus principais trechos.

Após a negativa, a Procuradoria da República no Acre decidiu mover ação penal contra Santiago, Maia e outros supostos envolvidos: o ex-governador do Estado Orleir Cameli, seu irmão Eládio, e os ex-deputados Chicão Brígido e Osmir Lima.

Nas gravações, Maia e Santiago dizem ter recebido R$ 200 mil cada para votar a favor da reeleição. Afirmam que outros três deputados do Acre (Lima, Brígido e Zila Bezerra) também receberam dinheiro para aprovar a emenda.

Amparada no princípio constitucional do sigilo da fonte, a Folha não divulgou o áudio com a íntegra das gravações para preservar a identidade do ?Senhor X?, o autor das gravações. A Polícia Federal, que abriu em janeiro deste ano inquérito para apurar o caso, teve acesso às transcrições.

Zila Bezerra e o ex-deputado federal Narciso Mendes foram enquadrados como testemunhas. Para a PF, Mendes é o principal suspeito de ser o ?Senhor X?.

Os citados, já ouvidos, alegaram inocência. Apenas João Maia não foi ouvido pela PF, porque diz ter problemas de saúde.

O procurador Marcus Vinícius de Aguiar Macedo disse que não vai recorrer. ?Por enquanto, vamos manter apenas a ação penal contra os suspeitos. Alguma coisa tem de ser feita, mesmo sem termos o poder das fitas.?"

    
    
                     

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