Tuesday, 05 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Ricardo Valladares

XUXA SEM IBOPE

“Meu mundo caiu”, copyright Veja, 5/03/03

“Marlene Mattos tinha razão. Depois de quatro meses no ar, Xuxa no Mundo da Imaginação começa a apresentar sérios problemas de audiência, exatamente como a ex-empresária e ex-diretora de Xuxa previu que aconteceria, caso o programa insistisse em mirar somente nas crianças entre os 3 e os 7 anos. Dos 15 pontos que marcou na estréia, a atração despencou para 6 nos últimos tempos. Nos bastidores da Rede Globo, ela já começou a ser chamada de Meu Mundo Caiu. Na direção da emissora, a luz vermelha está piscando. Uma reunião de cúpula realizada na segunda-feira passada foi quase toda ocupada com discussões do ?caso Xuxa?. Uma pesquisa mostrou que é preciso criar novos quadros para tentar atrair ?os irmãos mais velhos da criançada?. Mas esse não é o único problema. Também é grave o fato de que os meninos não se entusiasmam nem um pouco com o programa. ?Às vezes dá a sensação de que a Xuxa faz o programa inteiro para sua filha, a Sasha. Os garotos ficam impacientes com esse estilo menininha?, diz um diretor da Globo.

Quando desfez uma parceria de quase vinte anos com Marlene Mattos, no ano passado, Xuxa transformou a frase ?eu tenho cérebro? numa espécie de lema, e avisou que tomaria as rédeas de suas produções. Seu plano era fazer um programa infantil com perfil didático para os bem baixinhos. Cheia de privilégios na Globo, ela recebeu uma verdadeira procissão de diretores em seu escritório, até se decidir pelo nome de Mario Meireles. Logo nas primeiras semanas de gravação, adotou uma rotina que deixou seus colaboradores de cabelo em pé: passou a telefonar-lhes de madrugada para discutir detalhes do programa e a marcar reuniões de supetão. Justiça seja feita, graças a seu empenho Xuxa conseguiu pôr de pé um programa simpático e colorido, preocupado em transmitir algum conteúdo educativo para a garotada – apesar de alguns deslizes, como o quadro da bruxa Keka, que confundia as crianças menores ao dizer, por exemplo, que elas não deveriam escovar os dentes. Mas boas intenções não bastam e, nas próximas semanas, Xuxa no Mundo da Imaginação deverá passar por uma intervenção. A autonomia da apresentadora deverá sofrer uma diminuição drástica. Mal começou, a era da loira com cérebro já chega ao fim na TV.”

 

REALITY SHOWS

“Realidade sem show dá menos ibope”, copyright O Estado de S. Paulo, 2/02/03

“Que campanha seria capaz de mobilizar 20 milhões de brasileiros? Ao que parece, nenhuma. Com exceção da brincadeira chamada Big Brother Brasil. É incontestável a força do veículo televisão, mais incontestável ainda é o poder de fogo da Globo que, além de exibir o reality show, convoca todo seu corpo de programação a dar sua contribuição para levantar o BBB. Estão engajados nesse exército pró-Big Brother as maiores patentes da emissora: Ana Maria Braga, Vídeo Show, Jornal Nacional, Fantástico, Faustão, etc. Mesmo sem pedir, outras emissoras entram no coro usando seu tempo para fofocar sobre o cotidiano do povo da ?casa?, como chamam com a maior intimidade a gaiola dourada da Globo.

Então não é tão surpreendente que o show de mazelas domésticas de um bando de desocupados tenha alcançado mais de 40 pontos de média no Ibope (na Grande São Paulo) na segunda e na terça, enquanto o Jornal Nacional contentava-se com a faixa dos 30.

O curioso é que nesses dias o País passava por baques importantes: torcedores de times paulistas enfrentavam-se – e matavam-se – a tiros em ensaios do carnaval e o crime organizado carioca descia o morro para impor a sua força, paralisando a cidade do Rio de Janeiro.

Não vamos ser moralistas a ponto de combater o direito do telespectador ao entretenimento, mas é significativa a diferença da audiência entre o reality show e a realidade sem show.

O que espanta são as proporções que atingem a mobilização em torno da brincadeira, contra a não-mobilização frente aos problemas reais. Há poucos dias, o Estado publicou que um grupo de telespectadores estaria entrando com uma ação no Procon contra a Globo que, a seu ver, manipularia o concurso do BBB para proteger o concorrente Dhomini. Como consumidores que pagaram a tarifa telefônica para eliminar o sujeito, eles juntaram ?provas? – fitas de vídeo com conversas dos integrantes do programa, em que Dhomini se gabava de ter ?costas quentes? – para confirmar sua teoria de fraude.

Em compensação, não se tem notícias de brasileiros empenhados em, por exemplo, causas para desarmar este País que todos os dias registra mortes de jovens em disputas prosaicas e tem fachadas de supermercados e edifícios baleados e ônibus incendiados pelo crime organizado para demonstrar seu poder paralelo.

A impressão é que o público está convencido de que tem poder sobre o destino dos moradores da casa do BBB e o exerce com os instrumentos que a Globo lhe oferece. Mas sente-se impotente diante das catástrofes que se abatem sobre seu cotidiano, mesmo que elas afetem seriamente sua segurança. Assim sendo, fica à vontade para torcer ou odiar alguém que disputa os R$ 500 mil e a fama, mas acha que a realidade é problema das autoridades.

Diante desse estado de coisas, seria muito bom que a TV – que em última instância é a que mais lucra com essa mobilização em torno dos reality shows – entendesse que tem um papel social a cumprir e destinasse um pouco de seus recursos materiais e criativos para encampar campanhas que façam realmente diferença na vida deste Brasil.”

“De corpo bem fechado”, copyright O Estado de S. Paulo, 1/03/03

“Um subtítulo adequado aqui poderia ser: Nunca Tantos Amaram Tanto um Único Salafrário. E também nunca detestaram um com tanta veemência. ?O cafajeste ficou!?, proclama indignada uma colega lá no meio da Redação.

Dhomini, o mineiro com cara de boi sonso do Big Brother Brasil 3, virou sensação no País das celebridades instantâneas. Sobreviveu a três ?paredões?, gíria local cunhada para denominar o plebiscito que define a eliminação de um entre dois concorrentes do reality show. Na terça-feira, 11,4 milhões de brasileiros votaram e decretaram sua permanência no laboratório sociológico da Globo, eliminando o boa gente Alan. Dhomini superou até o senador mais votado do País, Aloisio Mercadante, do PT (10,5 milhões de votos).

Uma enquete pragmática mostra que ele é odiado pelas mulheres porque representa o ?galinha? clássico, o sujeito que não pode ver um rabo-de-saia que se atira na captura. Pior: ganha as incautas fazendo ?cara de coitadinho?, um atentado à inteligência feminina. Os que o defendem têm argumento igualmente dogmático: Sabrina não sorri, ela convida. Não se pode culpar homem nenhum por tentar, no caso dela. É uma privação dos sentidos absolutamente irrecusável.

É possível desprezar as duas versões, por simplificarem demais a questão.

Primeiro, porque não é razoável aceitar a quantidade de pedras da turba como indício de culpabilidade. E nunca foi pecado trocar de barco no meio do oceano.

Dhomini, sem o agá, significa ?Do Senhor? em latim. Vivemos o Anno Domini, o Ano do Domini. Católico apostólico romano, de inclinação numerológica, com inclinação para o candomblé, mas que também nunca esquece as simpatias da vovó, ele encarna a figura do ?bom canalha?.

Por que Dhomini tem o corpo fechado? O que o tornou virtualmente indestrutível? O ?bom canalha? parece sobreviver por enquadrar-se com habilidade num caso trivial de contravenção, escapando da condenação por falsidade ideológica que lhe querem imputar. Querem que assuma que é uma espécie de João Alves, tentando transformar em excesso de sorte um intrincado caso de lavagem de dinheiro.

Pior: o sujeito é assessor parlamentar, tipo de atividade que, historicamente, abriga um leque amplo e generoso de possibilidades. Tem ?assessor parlamentar? leão-de-chácara, para dar porrada em cabo eleitoral que sai da linha. Tem ?assessor parlamentar? somente para recolher o dízimo do contracheque falso. Que tipo ele seria?

Dhomini é de fato um manipulador. É naïf, se permitem o súbito ar professoral, mas é competente. Ficou com Sabrina, mas, se a Viviane tivesse aberto o flanco, ele estaria nadando nos edredons desta segunda. Sabrina, então, é uma vítima do manipulador? Aí já são outros quinhentos, uma discussão que não passa pela moral da multidão.

Dhomini tem méritos. Quando interpelado, ao vivo, é o único que demonstra presença de espírito e não recorre aos clichês comuns do reality show (?Faz parte do jogo?, ?Todo mundo joga como pode?, etc. e tal). Seu triunfo é duplo: além de sobreviver à vontade média, sobrevive também à conspiração masculina do BBB, forjada em despeito – todos queriam a Sabrina, mas foi o sapinho quem chegou lá.”

“Shows de realidade e instalações interativas”, copyright Folha de S. Paulo, 28/02/03

“Deus é testemunha de que nada tenho contra a inventividade humana, sobretudo a inventividade dos artistas. Nem sempre os aprecio, mas os respeito. Não fosse a criatividade de nossos antepassados, ainda estaríamos nas cavernas, arrastando nossas mulheres pelos cabelos, comendo a carne crua dos animais que seríamos obrigados a caçar. Não teríamos dominado o fogo, inventado a roda e descoberto a pólvora.

No terreno artístico propriamente dito, ficaríamos nos alaúdes que os judeus penduravam nos salgueiros de Babilônia e na cítara com que Nero cantou o incêndio de Roma. Felizmente, somos inventivos, e, toda vez que abro um guarda-chuva, louvo o engenho e a arte que devemos cantar e espalhar por toda parte.

Mas embirro com a recente mania das instalações. Longe de mim criticar a vanguarda que despreza a obra de arte emoldurada dos museus e das casas burguesas. Não vou dizer que devemos destruir toda a obra da Renascença, as catedrais góticas, as fugas de Bach, os sonetos de Shakespeare. É para a frente que se anda e as instalações -segundo leio nas colunas especializadas- representam um passo à frente na arte, contaminando o mundo e a nossa vida cotidiana com a denúncia de suas propostas.

Mesmo assim, fiquei estarrecido com o recente incêndio numa casa noturna de Rhode Island, semana passada. Evidente que se tratava de uma obra de arte interativa. Artistas do rock e assistentes, iluminados por fogos de artifício, obtinham aquilo que Ezra Pound chamava de ?punti luminosi? -e bota luminoso nisso.

Tão luminoso que os fogos de artifício, que davam à coreografia do espetáculo um plus pirotécnico, botaram fogo literalmente não apenas nas cortinas do cenário, mas nos próprios assistentes, 95 dos quais morreram queimados em menos de três minutos. E outros tantos tiveram queimaduras de diferentes graus e levarão pela vida afora a lembrança de um show realmente inesquecível.

Pelo depoimento de um cameraman que gravava o espetáculo para uma TV alternativa, não chegou a haver pânico quando o incêndio começou. Pelo contrário: a empolgação chegou ao auge, pois as chamas que invadiam o recinto e a fumaça que entupia os pulmões foram consideradas estupendas, uma bolação de gênio do diretor que tanto ousara. Se a proposta do rock e do espetáculo era ser quente, ninguém podia imaginar que chegasse a ser tão quente. E muita gente morreu em orgasmos estéticos, consumida pela interação do espetáculo, em que todos eram atores e não simples e passivos assistentes.

Em termos de ?reality show?, atingiu-se um estágio que dificilmente será ultrapassado. Ver Nápoles e depois morrer já era. Na verdade, já vi Nápoles uma centena de vezes e, embora haja opiniões contrárias, ainda não soube que morri. Nem mesmo fui a Mori -lugarejo depois da cidade e que é responsável pelo duplo sentido do ditado: ?Ver Nápoles e depois… Mori?.

A inventividade dos promotores do show de Rhode Island abrirá generosos espaços na concepção e realização de novos e mais incrementados eventos artísticos. Afinal, se olharmos o desastre das duas torres do World Trade Center com olhos criadores, sem a paranóia da mediocridade humana, tivemos a oportunidade de consumir um portentoso espetáculo que dificilmente será repetido. Qual o produtor disposto a gastar milhões de dólares com dois jatos de verdade chocando-se com dois edifícios também de verdade e matando mais de 3 mil figurantes de verdade e a baixíssimo custo?

Nem Cecil B. de Mille, que produzia filmes com multidões de extras, seria capaz de tal e tanto. O 11 de setembro deverá ficar como o verdadeiro e único ?maior espetáculo da Terra?, merecendo aquele slogan publicitário: ?Você nunca verá um espetáculo como este?. Mas por pouco tempo, pois a criatividade humana não tem limites, e de repente o show das duas torres gêmeas e o da boate de Rhode Island serão consideradas experimentais, tentativas modestas de se alcançar o mais e o melhor.

Não faz muito, após um almoço no restaurante do Museu da República, antigo Palácio do Catete, passeando pelo jardim que lhe fica atrás, tive de dar uma volta para não esbarrar num caixão de defunto aberto, sei lá se tinha alguém dentro. Um pouco assustado, comentei com um guarda aquele despropósito.

Ele me tranquilizou. Era uma instalação de artistas de vanguarda. Encaminhou-me a uma moça da produção que me explicou a proposta do artista que colocara ali o caixão. Era uma denúncia contra os jardins bem comportados da alta burguesia do século 19. Enquanto na Amazônia transformam a floresta num deserto, nas cidades alienadas como o Rio fabricam-se jardins disciplinados por europeus que não entendem a ecologia do trópico.

Julgando-me interessado, me presenteou com um prospecto que transcrevia o manifesto do grupo de artistas que realizava aquela instalação. No final do manifesto, vinham os agradecimentos de praxe aos que tornaram possível o evento: uma companhia telefônica, um banco de investimentos e a Funerária Santa Terezinha do Menino Jesus.”