Thursday, 13 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1291

Rupert Cornwell

PATRULHA EM AÇÃO

"Pentágono abre a batalha da mídia", copyright The Independent/Jornal do Brasil, 23/3/03

"As imagens são eletrizantes: imagens em tempo real de jatos e mísseis despachados de porta-aviões americanos, e de tanques e helicópteros movimentando-se rapidamente através do deserto iraquiano, todas disponíveis no canal a cabo mais perto de você.

Mas a estratégia de ?encaixe? do Pentágono não é para transformar a guerra em espetáculo do horário nobre, com comentários intercalados de generais famosos. Os informes dos ?encaixados? visam dois alvos importantes: as mentes de comandantes iraquianos e a opinião pública interna dos EUA.

As imagens dramáticas são armas tão poderosas quanto as dezenas de milhares de soldados, as centenas de aviões com suas munições de última geração. E nenhuma foi mais dramática do que aquelas na CNN mostrando unidades avançadas da 7? Cavalaria saindo do Kuwait rumo ao Norte, passando por beduínos nômades e carcaças de tanques iraquianos destruídos em 1991.

Foi na verdade a 7? Cavalaria, como alguém observou indelicadamente, que pereceu com o general Custer na batalha de Little Big Horn. Desta vez, porém, os papéis, projetados para audiências internacionais (que incluem o alto comando iraquiano e outros espectadores em Bagdá), estão invertidos.

Os planejadores americanos calculam que qualquer auxiliar de Saddan que estiver hesitando terá suas dúvidas reforçadas pelo espetáculo do que o correspondente encaixado da CNN chama de ?onda gigantesca de aço? ? tanques Abrams A-1 M-1, de 70 toneladas, veículos de combate Bradley e helicópteros Apache zumbindo nos céus em volta ? rumando para Bagdá a 70km por hora.

A cobertura da televisão, portanto, é parte essencial do desesperado desejo de Washington de minimizar as baixas civis e danos à infra-estrutura do Iraque, que poderiam fazer a opinião pública se voltar irrecuperavelmente contra a América. Esta é uma guerra em que os EUA querem amedrontar, e não bombardear, o inimigo, para reduzi-lo à submissão.

Isso explica por que os EUA não embarcaram na campanha de bombardeio de ?choque e pavor? que teria despejado 3 mil bombas de precisão dirigida contra alvos iraquianos, nas primeiras 24 horas da guerra. Também explica por que Donald Rumsfeld, o secretário da Defesa, em toda entrevista coletiva, faz questão de convidar os comandantes iraquianos a depor suas armas, em vez de dar a vida por uma causa sem futuro.

Mas há outro motivo para a estratégia aberta. A guerra parece ir muito bem até agora. Mas esta foi a parte fácil. A resistência firme (se houver) só virá quando a ?gigantesca onda de aço? atingir as cercanias de Bagdá, onde os melhores soldados de Saddan estão esperando.

Atrás da mente coletiva do Pentágono está o Vietnã, quando jornalistas corriam livres pelo campo de batalha e seus informes sobre uma guerra inútil, sangrenta e invencível viraram a opinião pública contra o conflito.

Os britânicos (nas Falklands/Malvinas) e depois a coalizão liderada pelos EUA na guerra do Golfo, há 12 anos, aprenderam a lição de cor. O aceso da mídia nas duas campanhas foi limitado. Desta vez, o Pentágono fez um acordo: cobertura direta da mídia, sim, mas de acordo com nossas condições.

Até agora, a tática satisfez os dois lados. O Pentágono está conseguindo propaganda maciça e a TV, em particular, cenas ao vivo. O general Tommy Franks ainda não deu um único informe à imprensa no quartel-general do Comando Central no Catar.

Desta vez a América se lembrará desta guerra, entre outras coisas, pela imagem de Walt Rogers, da CNN, no alto do seu tanque Abrams. Mas haverá outra vantagem, mais sutil, para Rumsfeld, se as coisas derem errado. Jornalistas são como outros seres humanos num ambiente de batalha. Eles conhecem gostam, simpatizam e se identificam com os soldados com quem estão ? e dos quais, se acontecer o pior, depende sua sobrevivência física.

Por esse motivo, o fator patriótico sobressairá se a coalizão sofrer reveses ou encontrar pesada oposição. Pode não ser assim, se as baixas forem pesadas ou se a campanha chegar ao horripilante clímax de combates de rua em Bagdá. No momento, a Guerra do Golfo 2003 é um teste de estrada para a frase atribuída ao Lyndon Johnson (quem mais poderia ser?) sobre o modo de lidar com inimigos ineptos e importunos: ?É melhor tê-los dentro da tenda urinando para fora, do que fora, urinando para dentro.?"

"EUA montam estratégia especial para imprensa", copyright DPA/O Estado de S.Paulo, 21/3/03

"Os Estados Unidos estão dispostos a manter o controle total da situação durante a Guerra do Iraque e não apenas no terreno militar. Desde o começo da ofensiva, entrou em funcionamento uma sofisticada campanha de informação para que os meios de comunicação se abasteçam nas fontes ?corretas?. Ou, como disse um funcionário em Washington: deve-se facilitar aos meios de comunicação a possibilidade de ?difundir a verdade?.

O plano do governo dos EUA consiste em inundar toda a imprensa com informações sobre a guerra provenientes de fontes norte-americanas. Dados mais profundos, notícias da frente de batalha e entrevistas especialmente programadas para jornalistas árabes: nada foi deixado ao acaso.

O maior ? Os especialistas já falam que este é o maior esquema de estratégia de comunicação planejado e posto em prática em tempos de guerra.

Os Estados Unidos demonstram, assim, haver aprendido a lição da Guerra do Afeganistão, quando o país correu o risco de perder a ?guerra da propaganda? contra o Taleban.

Na época, a madrugada americana foi repleta de declarações do inimigo, denunciando ?crimes da agressão americana? contra civis, que, em razão da grande diferença de fuso horário, demoravam para ser desmentidas.

Então, o governo americano estabeleceu centros de informação em Washington, Londres e Paquistão para fornecer informações o mais rapidamente possível.

Escritório ? Na Casa Branca, o Escritório de Informação Global é o responsável por estabelecer as pautas no trato com a imprensa. É dali que, a cada madrugada, o porta-voz do presidente George W.

Bush, Ari Fleischer, entrará em contato com os meios de comunicação para que, nas primeiras horas do dia, já estejam divulgando informações ?apropriadas?.

As entrevistas coletivas realizadas no Comando Central americano no Catar estão planejadas para o período da tarde, no horário local, cedo o suficiente para entrarem nos jornais do meio-dia. Já nas tardes dos Estados Unidos, será a vez de o Pentágono fornecer material para os noticiários noturnos europeus.

Tratamento especial ? As estações da cadeia americana Voz da América estão encarregadas de transmitir as mensagens de Washington à população do Oriente Próximo.

Funcionários da administração Bush têm sido especialmente preparados para dar declarações à imprensa árabe. Até mesmo a conselheira de Segurança Nacional, Condoleezza Rice, bem como outros funcionários de nível hierárquico mais elevado, serão acessíveis a meios de comunicação árabes especificamente selecionados.

Além disso, todas as noites o Escritório de Informação Global enviará e-mails a todas as embaixadas americanas com instruções sobre o que deve ser dito aos microfones e o que é preciso calar. De acordo com um funcionário de Washington, o formato escolhido será extremamente útil: ?Cabe no bolso da calça.?"

"Mídia trabalha sob patrulhamento à direita e esquerda", copyright The New York Times/O Estado de S.Paulo, 21/3/03

"Mesmo antes do início da guerra no Iraque, as principais redes de televisão americanas estavam sob o escrutínio cada vez maior dos observadores da mídia à direita e à esquerda, que procuravam sinais sutis e claros de parcialidade jornalística. Já as perguntas dos jornalistas estão sendo estudadas por políticos e analistas de mídia da direita para ver se encontram sinais de falta de patriotismo ou se questionam a determinação dos soldados.

As redes também estão recebendo críticas de grupos liberais, que alegam que a mídia não está tendo posição crítica suficiente em relação à guerra. Já há um debate entre os executivos de televisão sobre quais imagens mostrar do conflito e quais reportagens levar ao ar se as batalhas se tornarem sangrentas.

Na terça-feira, o Centro de Pesquisa de Mídia, um grupo conservador, divulgou um relatório criticando o telejornal ABC News por aquilo que chamou de ?comportamento liberal?. Dizia que o ABC News era o mais ofensivo entre os telejornais por levar ao ar ?propaganda iraquiana?, ?divulgar protestos radicais? e ?pôr a França e a ONU acima dos EUA?.

Na semana passada, 12 deputados republicanos, incluindo Duncan Hunter, o californiano que é presidente da Comissão das Forças Armadas da Câmara dos Deputados, mandou uma carta para o secretário da Defesa, Donald H. Rumsfeld, levantando importantes questões sobre a política de permitir aos jornalistas viajarem com tropas americanas.

O deputado reclamou que jornalistas, especificamente Peter Jennings, o âncora do ABC News, estava perguntando aos soldados ?questões impróprias? como quão ansiosos estavam para lutar. O deputado pediu a Rumsfeld para explicar por que não estava impondo censura aos repórteres.

Um grupo liberal, Justiça e Precisão na Reportagem, disse que os telejornais das emissoras de sinal aberto e de televisão a cabo estavam dando pouca atenção às potenciais baixas que a ação americana no Iraque poderá causar, assim como deixar de fazer perguntas importantes ao governo. O grupo divulgou um estudo na terça-feira à noite dizendo que os críticos dos planos do presidente Bush têm pouco espaço nos telejornais. Executivos das redes disseram que estão fazendo o máximo para não se inclinar para nenhum dos lados enquanto estabelecem as políticas de cobertura. Mas isso será mais fácil de falar do que de fazer.

Haverá pelo menos duas versões concorrentes da verdade, muito provavelmente com imagens em vídeo para apoiar cada um dos lados. As redes serão observadas de perto pelas imagens que vão escolher mostrar.

No passado ? Durante a Guerra do Golfo, em 1991, Peter Arnett, correspondente da CNN em Bagdá, foi acusado pela concorrência e por algumas autoridades de dar crédito excessivo às declarações iraquianas. 6Na campanha do Afeganistão, algumas redes foram criticadas por grupos conservadores por cobrir baixas civis atribuídas pelo Taleban a bombardeios americanos.

As redes esperam ter uma boa quantidade de imagens vivas para mostrar e que se deram conta de que era preciso cuidado em como apresentar o material. ?Imagens às vezes podem confundir?, disse o presidente da ABC News, David Westin. ?Na verdade, podem superestimar uma história assim como subestimá-la.?"