Thursday, 13 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1291

Susan Sachs

COBERTURA DE GUERRA

“A mídia árabe volta ao passado e repete erros de 1967”, copyright O Estado de S. Paulo / The New York Times, 29/03/03

“Os repórteres de rádio mal conseguiram conter seu entusiasmo. Bravos combatentes árabes estavam disparando contra aviões inimigos, proclamaram. Tropas árabes tinham tomado posições inimigas. A vitória sobre os atacantes estava próxima. Isso foi em junho de 1967, quando Israel derrotou Exércitos árabes conjuntos em seis dias. Mas durante a maior parte dessa breve guerra, os egípcios e a maioria dos outros árabes foram informados por sua mídia noticiosa que suas forças estavam vencendo facilmente.

Quinta-feira, comentaristas árabes começaram a criticar as reportagens sobre a guerra na mídia árabe, dizendo que seu tom vanglorioso presta um desserviço à população. ?Nessas circunstâncias, a mídia árabe está gradualmente transformando-se na mídia de 1967, aqueles dias em que comentaristas de rádio exageraram o heroísmo e esconderam as amarguras e a realidade das derrotas?, escreveu o colunista Abdelrahman al-Rashed.

Alardeando exageradamente as perdas da coalizão, acrescentou, os órgãos da mídia árabes estão criando expectativas infladas. ?Por mais que eles queiram compensar as derrotas vendo o Exército americano vencido?, escreveu ele, ?as pessoas que estão assistindo à TV nunca perdoarão a mídia quando a verdade for totalmente revelada.?

A ira contra o ataque americano ao Iraque continua intensa e profunda no mundo árabe, onde muita gente está convencida de que os Estados Unidos estão combatendo apenas para ocupar o Iraque e explorar sua riqueza de petróleo.

Têm havido manifestações de protesto diárias na região.

À medida que a guerra progride, grande parte do público árabe tem sido agradavelmente surpreendido e até mesmo vibrado ao ver forças americanas encontrando forte resistência. Na semana passada, fotos e descrições das perdas americanas e britânicas receberam uma cobertura generosa por parte de alguns órgãos da mídia.

?A resistência das cidades iraquianas demole a imagem de um Rambo invencível?, proclamou um jornal diário do Marrocos quinta-feira. Em um artigo opinativo, o ex-ministro das informações da Jordânia, Salah el Qalab, escreveu: ?Isso me faz lembrar o clima de 1967, quando os árabes pensaram ter vencido a guerra?. ?Esta não é a época de milagres?.

Desde que a guerra no Iraque começou, quase toda a mídia árabe, refletindo a preocupação do público com o bem-estar do iraquiano comum, têm se concentrado em mostrar as baixas civis. Muitos enfeitaram seus relatos,rotulando as vítimas como ?assassinatos? das tropas da coalizão.

?Para uma pessoa comum, é uma reação à arrogância do poderio americano?, disse Reda Helal, editor-assistente do Al Ahram, do Cairo, que tem mantido uma atitude equânime no tratamento dado a diferentes reportagens. ?Também, principalmente para os egípcios, há uma forte tendência a apoiar o lado mais fraco?, disse ele. Por outro lado, o jornal egípcio de oposição, o Al-Wafd, dedicou toda a primeira página no início desta semana a fotografias de iraquianos mortos ou feridos sob a manchete: ?O Massacre?.”

“Mídia está perdendo batalha, diz analista”, copyright Folha de S. Paulo, 28/03/03

“A cobertura da guerra no Iraque pela mídia no Reino Unido e nos EUA está mostrando como é difícil manter a isenção em meio a pressões e quando soldados dos dois países estão arriscando a vida. Nos jornais britânicos predomina a versão dos fatos fornecida pelos comandos militares britânico e americano.

No último domingo, emissoras de TV do mundo mostraram as imagens dos prisioneiros de guerra americanos sendo entrevistados no Iraque -exibidas em primeira mão pelas redes de TV árabes. As emissoras britânicas, que na véspera tinham mostrado cenas dos prisioneiros de guerra iraquianos, não exibiram as imagens dos prisioneiros americanos.

Ficaram repetindo entrevista do secretário de Defesa americano, Donald Rumsfeld, acusando o governo do Iraque de desrespeito à Convenção de Genebra -o que Phillip Knightley chama de ?hipocrisia americana?.

Escritor, ex-correspondente de guerra e um dos mais respeitados analistas da cobertura de guerras pela mídia, Knightley lembra que os americanos não observam essa mesma convenção em relação aos prisioneiros da rede Al Qaeda, que estão em Guantánamo.

Mas os telespectadores britânicos com TV a cabo, com acesso a outras emissoras européias, conseguiram ver as cenas dos presos americanos, que foram transmitidas em toda a Europa. As TVs britânicas acabaram mostrando as imagens na segunda-feira.

Knightley observa que essa é mais uma batalha no ?conflito irreconciliável? entre os interesses da mídia e dos militares em uma guerra. Mas agora há dois fatores novos, o surgimento de redes de televisão árabes e a criação das PSYOPS (do inglês Psychological Operations, Operações Psicológicas) pelo Pentágono.

Folha – Quais as principais características da cobertura jornalística nessa guerra?

Phillip Knightley – A mídia queria que essa fosse a guerra com a melhor cobertura da história. Milhares de correspondentes de guerra foram credenciados, e dinheiro não seria problema. Só a CNN tem um baú de guerra de US$ 125 milhões para sua batalha de audiência com a Fox News.

A idéia era que todos os canais iriam mostrar tudo, ao vivo, em tempo real, 24 horas por dia. Mas o objetivo da mídia se chocou com o objetivo dos militares de uma guerra administrada muito diretamente, na qual a mídia receberia muito material, mas não muita informação de verdade. E sem cenas de sangue ou morte, nem mesmo de prisioneiros de guerra nas telas. Se isso é porque as bombas aliadas têm a exatidão que eles falam ou porque ninguém vai poder filmar, não se sabe ainda. Mas o principal é que a verdadeira face da guerra, nunca uma coisa bonita, seria escondida de todos os que não estavam tomando parte nela de verdade. Os objetivos da mídia e dos militares são incompatíveis e temo que minhas fichas estão apostadas nos generais. Os militares parecem estar vencendo. Mas há um elemento novo nessa cobertura, que foi a chegada das redes de TVs árabes.

Qual a diferença que as redes de TV árabe fizeram?

Knightley – Pela primeira vez, a cobertura da guerra na TV não é monopólio das redes ocidentais de TV. Já vimos isso com as imagens dos prisioneiros de guerra, algumas mortes e as reportagens de dentro de Bagdá e de outros lugares. A imagem que nos trazem as TVs árabes é muito mais realista. Os aliados não gostam disso. A outra grande mudança na cobertura da guerra são as atividades de uma seção do Pentágono chamada PSYOPS.

O que são PSYOPS?

Knightley O Pentágono vinha preparando a fusão de duas seções da área de relações públicas. Numa delas, havia o antigo oficial militar de informações, em quem o correspondente de guerra podia confiar porque pelo menos alguns generais dariam informações verdadeiras. Não necessariamente muito informativas, mas ele era capaz de dar uma idéia aproximada do que estava acontecendo. Tinha que ganhar a confiança dos correspondentes de guerra, então normalmente falava a verdade na maior parte do tempo. Mas eles foram fundidos com uma nova organização, cuja função é usar informação como arma para interferir e destruir a moral do inimigo. Todos agora são parte de uma única organização, que se chama PSYOPS (sigla do inglês Psychological Operations, Operações Psicológicas).

Operações para enganar. Como disse um oficial das PSYOPS, ?essa é a guerra de informações mais intensa que você pode imaginar, e vamos mentir?. Qualquer correspondente de guerra ou leitor vendo o que o Pentágono diz precisa ter em mente que isso pode ser uma operação desse tipo.

O sr. pode dar um exemplo?

Knightley Por que o Pentágono anunciou que tinha havido uma tentativa de assassinar Saddam Hussein? Se eles não tivessem anunciado, ninguém teria ficado sabendo. Os iraquianos não iriam querer falar disso e os correspondentes de guerra em Bagdá, tudo o que teriam ouvido era outra explosão na noite. Então é preciso se perguntar por que o Pentágono fez isso. É claro que foi uma PSYOPS. Ao revelar essa tentativa, eles também revelaram que o serviço de inteligência americano tinha informação precisa sobre onde Saddam e seus auxiliares estavam se reunindo. E isso faz com que Saddam fique querendo saber quem está traindo seus movimentos. E em segundo, reforça a idéia na mente dos iraquianos que os mísseis americanos são tão precisos que podem acertar uma determinada casa em Bagdá. No dia seguinte anunciam que não tinham sido bem-sucedidos, ou que talvez tenham sido. Ofereceram evidências de que podem ter tido sucesso: um telefone de emergência da casa em busca de uma ambulância e o relato de uma testemunha dizendo que Saddam tinha sido visto carregado em uma maca. Isso sugere que os serviços de inteligência dos EUA podem fazer escuta eletrônica em telefonemas de emergência e que seus espiões estão de olho em lugares onde Saddam pode estar. E há muitos outros.

Folha – Por que o sr. acha que os prisioneiros de guerra iraquianos foram exibidos nas TVs em um dia, mas TVs britânicas e americanas se recusaram a mostrar os prisioneiros americanos no dia seguinte?

Knightley – Isso é a hipocrisia americana. Como pode Donald Rumsfeld (secretário de Defesa americano) invocar a Convenção de Genebra? Os americanos não estão observando a Convenção de Genebra em relação ao tratamento de todos aqueles prisioneiros de guerra na Baía de Guantánamo (onde estão suspeitos de ligação com a rede Al Qaeda).”

“Guerra também é travada por imagens e palavras”, copyright UOL / Reuters, 28/03/03

“A julgar pelo que vem sendo dito, Saddam Hussein pode estar morto, os iraquianos podem ter executado prisioneiros britânicos e um míssil do Iraque pode ter provocado a tragédia no mercado de Bagdá. A realidade, porém, pode ser bem diferente.

A cada dia, acusações e contra-acusações viajam entre Washington, Londres e Bagdá, como parte da guerra de informação que, num conflito que está sendo considerado o mais televisivo da história, é tão importante quanto as táticas militares usadas no campo de batalha.

O resultado disso é a confusão dos últimos dias, quando notícias dramáticas acabam desmentidas em questão de horas.

?Com a televisão no ar 24 horas por dia, frequentemente não há tempo para uma opinião respeitada, e os repórteres estão sendo presas de tolices e propaganda?, disse Jamie Cowling, pesquisador do Instituto de Pesquisas em Políticas Públicas, de Londres.

A batalha de Umm Qasr é um exemplo. A captura desse porto do sul do Iraque pelas tropas ocidentais foi noticiada várias vezes no domingo, mas isso só aconteceu de forma definitiva na terça-feira.

Nesse mesmo dia, surgiram notícias de uma rebelião popular contra o regime de Saddam Hussein em Basra, a segunda maior cidade do país. O Iraque considerou isso uma ?alucinação,? enquanto emissoras árabes de TV mostravam que as ruas da cidade permaneciam tranqüilas.

O governo britânico, que anunciou a rebelião, acabou recuando, quando o primeiro-ministro Tony Blair disse que houve apenas ?um levante limitado.?

Informação sem checagem

É difícil dizer o que são erros não-intencionais de informação e o que é pura propaganda. Especialistas acham que isso ficou claro na sexta-feira, quando o governo britânico correu para desmentir a acusação feita por Blair de que o Iraque teria ?executado? prisioneiros britânicos de guerra.

Parte do problema é o caráter instantâneo da televisão. Mais de 500 jornalistas estão acompanhando unidades militares anglo-americanas, o que pode se transformar em um risco político para Blair e para George W. Bush.

Equipados com videofones, os jornalistas alimentam dia e noite os canais de notícias, às vezes antes mesmo de poder checar as informações que transmitem. O problema é que os batalhões onde eles estão ?incrustados? não têm um quadro completo da situação. Além disso, esses correspondentes de guerra acabam sendo tendenciosos, referindo-se a ?nós? para comentar o avanço rumo a Bagdá.

?Como toda sua capacidade e tecnologia, a imprensa ocidental caiu de cara no chão. Ela se tornou monolítica, propagandística e simplista?, disse a parlamentar palestina e ativista dos direitos humanos Hanan Ashrawi.

Outra queixa é que a cúpula militar anglo-americana não preenche a lacuna de notícias, limitando-se a criar um fogo cruzado de informações contraditórias.

Não que os EUA tenham deixado de lado a estratégia de mídia. Diariamente, generais norte-americanos dão entrevistas coletivas no Catar em um estúdio criado por um diretor de arte de Hollywood.

Já as autoridades iraquianas, pelo contrário, usam um cenário mal iluminado, em frente a um enorme retrato de Saddam Hussein, para seus anúncios — freqüentemente falando em vitórias. Bagdá mantém um rígido controle sobre a informação e não permite que jornalistas acompanhem suas tropas.

A estratégia do Iraque também é a de exibir regularmente Saddam na televisão, em declarações patrióticas, em parte para provar ao outro lado que continua vivo.

Sabendo que os iraquianos praticamente não têm acesso à imprensa estrangeira, os EUA já bombardearam a TV estatal do Iraque, mas não conseguiram tirá-la do ar. Na sexta-feira, o governo norte-americano disse que suas próprias transmissões televisivas já estão chegando a Bagdá, mas um correspondente da Reuters da cidade negou essa informação.

O Iraque ampliou seu esforço de propaganda nesta semana, mostrando em primeiro plano cadáveres de soldados ocidentais. As câmeras de TV estatal também correram para o local quando um míssil caiu sobre um mercado de Bagdá, explorando ao máximo as imagens de mortos e feridos civis. Os Estados Unidos reagiram dizendo que possivelmente foi um míssil iraquiano que provocou a tragédia.

?Qualquer guerra moderna é também uma guerra da mídia. Não só pelos ouvidos e mentes dos iraquianos, mas também pela opinião pública mundial?, disse Cowling.”