DISSONÂNCIA COGNITIVA
Gilson Caroni Filho (*)
O presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, é homem de muita fortuna. Ao recorrer a um conceito oriundo da psicologia social para analisar a turbulência do mercado cometeu um equívoco teórico e, sem o querer, prestou inestimável colaboração aos que se dedicam a analisar as relações entre o campo midiático e o poder político. "Dissonância cognitiva", conceito elaborado por um psiquiatra americano na década de 50, segundo informação do caderno de economia de O Globo (23/8), trataria de uma disfunção que acomete pessoas que já não conseguem mais entender a realidade a partir das referências disponíveis. Muito distante, portanto do sentido emprestado a ele pelo presidente em terras uruguaias.
A busca por novos paradigmas seria o resultado da necessidade de se devolver sentido ao mundo em que vivemos. Algo que tornaria menos dolorosa a ininteligibilidade do universo que nos cerca. Como podemos perceber, é categoria somente aplicável a pessoas, e não a mercados. Fenômeno que pode explicar um surto de religiosidade, mas nunca a especulação de investidores ante uma economia com fundamentos supostamente sólidos. Peca o sociólogo pela transposição mecânica para a realidade econômico-financeira de um conceito que busca dar conta do psiquismo humano. Falha metodologicamente imperdoável.
Mas, se escorregou ao tentar uma conexão teórica impossível, sem dúvida descortinou um novo foco de análise para o comportamento de alguns colunistas da grande imprensa. Longe de uma intencionalidade clara de distorcer a realidade em favor dos interesses políticos e biográficos do atual presidente, estaríamos presenciando um processo em que várias relatos decorrem de um distúrbio psicoemocional. Não teriam validade alguma as considerações baseadas em categorias surradas como ideologia e transformismo. O próprio termo cooptação já não faria sentido. A angulação correta para melhor compreensão de importantes atores da imprensa não viria da sociologia e/ou teoria política. Mas, quem haveria de dizer, da psiquiatria e/ou psicologia. No fundo, o que julgávamos uma postura eticamente condenável não passava de um sintoma aflitivo.
O esforço diligente em transformar água em vinho marcou as colunas políticas dos jornais do eixo Rio-São Paulo, nos últimos dias. O encontro com os candidatos à sua sucessão para que homologuem, ainda que parcialmente, as exigências do Fundo Monetário Internacional deixou de ser uma demonstração de total subserviência a uma organização multilateral de crédito para se transformar em magnânimo gesto de estadista que estabelece os termos de um " período de transição". O rei morto ungido a avalista de um processo que não conseguiu atropelá-lo foi a tônica dos maiores veículos. Dora Kramer e Teresa Cruvinel teceram, respectivamente no Jornal do Brasio e no Globo, o bordado fino de uma história hipostasiada. Claro que não estiveram sós, mas, sem sombra de dúvida, conseguiram posição de destaque. Nunca a dissonância cognitiva esteve tão marcante.
Nosso norte teórico
O encontro do ministro do Planejamento, Guilherme Dias, com os coordenadores de campanha do PT, do PSDB e do PSB, em 23/8, serviu para que os três soubessem que o Orçamento de 2003 tem previsão de queda de R$ 10 bilhões, por conta do fim da cobrança de alguns impostos até o fim do ano. Diante desse quadro, o governo exige que os candidatos apóiem medidas que comprometeriam suas propostas programáticas e teriam reflexos diretos no bolso do eleitor de classe média. Se o leitor vê nesse episódio tentativa de engessamento do próximo governo, certamente é uma leitura que não encontra respaldo nos editoriais do seu jornal predileto. Que certamente vislumbrará no encontro mais uma manifestação de amadurecimento democrático. Mais um caso de dissonância cognitiva.
Os exemplos são infindáveis e parecem confirmar o que, há quase 20 anos, Chico Buarque vaticinou: "O sanatório geral vai passar." Talvez o brilhante letrista tenha sido precedido por um escritor que se notabilizou pela fina perspicácia. Quem sabe uma nova exegese da obra machadiana não veja em O Alienista um estudo projetivo? De há muito a dissonância cognitiva encontra magníficas expressões estéticas em nossa prosa e verso de melhor qualidade.
Quando assistirmos à TV Globo citar o regime militar como "os tristes anos de repressão política" devemos esquecer quem foi o principal sustentáculo midiático da ditadura. Quando presenciarmos seu mais importante telejornal denunciar o latifúndio, a concentração de renda, a corrupção e a exclusão social não é de bom tom lembrar que a emissora foi a mais importante fonte de legitimação de tudo isso. Talvez um olhar perdido e que não traia qualquer indignação oculte a nossa preocupante dissonância cognitiva.
Se lemos que não há responsáveis diretos pela edição de debates eleitorais em 89, e que tudo foi obra de um acaso infeliz, total crédito há que ser dado a essa versão. Bem como urge espantar o atentado do Riocentro e a bomba que sumiu entre a edição de dois telejornais. Decerto, o psiquiatra Leon Festinger, criador do conceito que se tornará nosso norte teórico, tenha a explicação mais correta. Nem ética nem repactuação social. "Prozac e divã", eis nosso lema para essa grande dissonância que provavelmente foi a causa de não termos construído um país republicano, com todos os atores se apresentando como sujeitos de direito.
(*) Professor-titular da Facha, Rio de Janeiro
